User Tools

Site Tools


estudos:sloterdijk:antropoceno

Antropoceno

PSXX

  • 1.1 Humanidade sem peso
    • No início do século XXI, a proposta de Paul J. Crutzen de denominar a época atual como “Antropoceno”, retomando analogamente a noção geológica de Antonio Stoppani do século XIX, parecia destinada a permanecer confinada a um discurso técnico e especializado, restrito aos laboratórios das ciências atmosféricas e geofísicas.
    • De modo inesperado, o conceito ultrapassou os limites institucionais da ciência e passou a circular amplamente na esfera pública, infiltrando-se no jornalismo cultural, nos museus, na macrossociologia, em novos movimentos religiosos e na literatura de alerta ecológico, como se fosse um vírus semântico artificial.
    • A difusão do termo deve-se sobretudo ao fato de que, sob a aparência de neutralidade científica, ele veicula uma mensagem de urgência moral e política sem precedentes: os seres humanos tornaram-se responsáveis pela habitação e pela gestão da Terra como um todo.
    • O termo “Antropoceno”, embora se apresente como conceito geológico, opera como um gesto jurídico de imputação de responsabilidade, fornecendo um destinatário abstrato para acusações relativas a danos geo-históricos causados pela humanidade enquanto tal.
    • Falar de Antropoceno equivale menos a participar de um seminário científico do que a integrar uma audiência preliminar de um processo judicial, cujo objetivo inicial é avaliar a imputabilidade do acusado denominado “o ser humano”.
    • Surge então a objeção de que a humanidade, considerada quantitativamente como biomassa, seria insignificante diante das dimensões materiais do sistema terrestre, argumento explorado exemplarmente por Stanislaw Lem ao reduzir a humanidade a uma quantidade desprezível em termos oceânicos.
    • Essa linha de argumentação aproxima-se de antigas desvalorizações filosóficas do humano, como a metáfora de Schopenhauer que compara a humanidade a um mofo efêmero na superfície do planeta.
    • A acusação, contudo, sustenta que a humanidade não pode ser definida apenas como biomassa, pois constitui uma agência metabiológica capaz de influenciar profundamente o ambiente por meio de sua capacidade técnica e operativa.
    • A responsabilidade antropocênica está ligada sobretudo às revoluções tecnológicas modernas, inicialmente europeias, baseadas no uso do carvão, do petróleo e da eletricidade, que introduziram uma nova universalidade energética no metabolismo humano com a natureza.
    • O que hoje se chama genericamente de “humanidade” corresponde, em grande medida, à difusão global de tecnologias desenvolvidas na Europa, razão pela qual a noção de “Euroceno” ou “tecnoceno” seria conceitualmente mais precisa do que “Antropoceno”.
    • A influência humana sobre a natureza não é inédita, pois já na Antiguidade se observavam desmatamentos e transformações agrícolas, mas apenas recentemente esses efeitos passaram a adquirir relevância geológica.
    • A pecuária, historicamente associada à expansão imperial, exemplifica um impacto indireto significativo, tanto em termos históricos quanto ambientais, devido às emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo metabolismo animal.
    • Apesar da insignificância física da humanidade e mesmo do gado em termos de peso global, os efeitos indiretos das emissões tornam-se decisivos, legitimando a abertura de um julgamento pleno da condição antropocênica.
  • 1.2 Doutrinas das idades do mundo
    • O conceito de Antropoceno reinsere a geologia contemporânea na tradição historicista do século XIX, que organizava toda a realidade em eras, épocas e estágios evolutivos.
    • A ideia de evolução generalizada, estendida dos minerais às sociedades humanas, fundamenta essa historicização total da realidade.
    • Marx e Engels, ao afirmarem que só existe uma ciência, a da história, conceberam a história humana como um caso particular da história natural, mediada pela produção.
    • As relações de produção seriam, nesse sentido, a continuação tecnicamente alienada da história natural, enquanto a natureza humana interior corresponderia ao conatus spinozano de autopreservação.
    • A narrativa marxista das eras produtivas substituiu mitologias antigas das idades do mundo por uma teoria pragmática dos estágios históricos, definidos pelo modo de organização do metabolismo humano com a natureza.
    • O Antropoceno insere-se nessa linhagem pragmática ao designar um estágio em que as emissões humanas afetam o curso da história da Terra.
    • O conceito de emissão revela o caráter involuntário e colateral da ação humana sobre o sistema terrestre, distinguindo-se de uma missão ou projeto deliberado.
    • A tarefa implícita do Antropoceno consiste em avaliar se a humanidade é capaz de transformar efeitos colaterais em ações conscientes e responsáveis.
    • O discurso antropocênico convoca uma crítica da razão narrativa, pois organiza a história a partir de um ponto final antecipado, assumindo uma lógica apocalíptica.
    • O apocalipse funciona como avaliação do presente a partir do fim, separando o que merece continuar do que deve desaparecer.
    • A inteligência humana, incapaz de alcançar o fim definitivo, ensaia antecipações por meio de simulações religiosas e seculares, do Livro dos Mortos egípcio aos relatórios do Clube de Roma.
    • A concepção heideggeriana do ser como tempo revela-se correta, mas incompleta, pois o tempo só se torna perceptível quando seu fluxo uniforme é perturbado.
    • A modernidade percebe o tempo sobretudo por meio da aceleração, que constitui a forma temporal própria do apocalipse.
    • A antecipação do fim, associada à aceleração universal dos processos, caracteriza o modo de existência moderno.
  • 1.3 Círculos virtuosos modernos
    • As acelerações modernas são impulsionadas por mecanismos de retroalimentação positiva, descritos por Robert K. Merton como “efeito Mateus”.
    • Esses processos assumem a forma de circuli virtuosi, nos quais o sucesso gera mais sucesso, estruturando a dinâmica da modernização.
    • Seis grandes círculos autorreforçadores caracterizam a modernidade europeia: as belas-artes, a economia financeira, a engenharia, o Estado, a ciência e o direito.
    • Nas artes, desde o Renascimento, a intensificação competitiva das habilidades levou a um ápice de virtuosismo que moldou a autoconsciência estética da Europa.
    • Na economia, a combinação entre crédito e talento permitiu a expansão exponencial de capitais, formando um círculo virtuoso financeiro.
    • A aliança entre economia e engenharia produziu o sistema erroneamente denominado capitalismo, mais adequadamente descrito como creditismo ou inventionismo.
    • O Estado moderno desenvolveu um efeito Mateus próprio, expandindo continuamente suas competências, regulações e gastos.
    • A ciência moderna instituiu um círculo virtuoso cognitivo, no qual o conhecimento gera mais conhecimento, orientado para aplicação prática.
    • O direito moderno criou um processo de juridificação expansiva, fundado no metadireito de “ter direitos”, conforme formulado por Hannah Arendt.
    • Esses círculos contribuíram para a intensificação da dimensão temporal, forçando a inteligência antecipatória a projetar o futuro da sociedade como um todo.
  • 1.4 Crise da externalização radical
    • O conceito de Antropoceno sinaliza o fim da despreocupação cósmica que sustentou as formas históricas do ser-no-mundo humano.
    • A ontologia cênica, que via a natureza como pano de fundo estável das ações humanas, foi progressivamente substituída por uma lógica ecológica.
    • Wilhelm Ostwald foi um dos primeiros a tematizar explicitamente a finitude dos recursos terrestres e a exigir um novo ethos energético.
    • A analítica da finitude, posteriormente elaborada por Heidegger em chave existencial, tem sua origem nessa consciência energética.
    • Weber, ao falar da “última tonelada de carvão”, inscreve o capitalismo numa lógica apocalíptica de esgotamento.
    • A distinção entre produtos intencionais e efeitos colaterais tornou-se crítica apenas no final do século XX, revelando os limites da ontologia de cenário.
    • Com o colapso da externalização, a distinção tradicional entre fundo e figura perde plausibilidade.
  • 1.5 Gestão da ignorância
    • Buckminster Fuller reinterpretou a Terra como uma nave espacial, exigindo uma nova forma de pensamento projetual e antecipatório.
    • A metáfora da nave espacial implica a inexistência de saídas de emergência e a necessidade de manutenção interna do sistema de suporte à vida.
    • A história humana foi marcada por uma navegação ignorante, tolerada por um sistema originalmente indulgente.
    • Com o aumento do poder tecnológico, a tolerância à ignorância diminui drasticamente.
    • O conceito de monogeísmo designa a relação cognitiva mínima adequada à singularidade da Terra.
    • A condição humana contemporânea define-se como autodidatismo vital, aprendizagem sem mestre em questões de vida ou morte.
    • A inteligência prognóstica deve aprender antes do erro, superando o paradigma pedagógico de aprender apenas com as falhas.
    • A crítica da razão profética é necessária para legitimar alertas que, se eficazes, parecerão retrospectivamente desnecessários.
    • A modernidade vive sob o signo do expressionismo cinético, alimentado pela disponibilidade de combustíveis fósseis.
    • Esse expressionismo molda concepções de liberdade associadas à aceleração, ao desperdício e à explosão.
  • 1.6 “Estamos em uma missão”
    • A ilusão de uma natureza infinitamente resiliente sustentou o expressionismo moderno até o limiar do Antropoceno.
    • A Terra transforma-se conceitualmente de exterior indiferente em um grande interior técnico.
    • A meteorologia emerge como ciência política central ao modelar o interior atmosférico do planeta.
    • A atmosfera funciona como memória sensível das emissões humanas, reagindo com aquecimento global.
    • Os meteorologistas assumem um papel reformador ao exigir a descarbonização da civilização.
    • A reorientação exigida é comparável, em profundidade, às grandes reformas religiosas da história.
    • O conflito climático configura uma nova gigantomachia entre expansionismo e minimalismo.
    • A ética ecológica futura propõe redução, contenção e frugalidade em oposição à lógica do crescimento.
    • A globalização revela seu paradoxo ao impor limites universais à expansão universal.
  • 1.7 “O poder do corpo”
    • O imperativo contemporâneo “é preciso mudar de vida” assume caráter ético absoluto.
    • Uma ética de moderação global parece inevitável, mas contradiz as forças motrizes das culturas superiores.
    • A história demonstra que sociedades humanas rejeitam modelos de frugalidade permanente.
    • O argumento dos limites planetários baseia-se na singularidade irredutível da Terra.
    • Contudo, a tecnosfera e a noosfera introduzem novos parâmetros de desenvolvimento.
    • A potência da Terra, enquanto corpo terrestre, ainda não foi plenamente determinada.
    • A distinção entre heterotécnica e homeotécnica aponta para um modelo de coprodução entre técnica e natureza.
    • Um planeta híbrido poderia emergir de uma relação cooperativa entre geosfera, biosfera e tecnosfera.
  • 1.8 Política para a Terra
    • O Antropoceno, definido por lógica apocalíptica, dissolve as noções tradicionais de estágio, estado e estabilidade.
    • A distinção hobbesiana entre estado de natureza e estado político sofre uma inversão semântica.
    • Um novo estado de natureza emerge, marcado por conflitos entre agentes humanos e não humanos.
    • A situação antropocênica exige um novo debate constitucional e a invenção da cidadania terrestre.
    • Essa cidadania deve incluir agentes humanos e não humanos em um quadro político ampliado.
    • Diversos pensadores contemporâneos recorrem a analogias religiosas para motivar a mudança civilizatória.
    • Carl Amery propõe uma nova ars moriendi como fundamento ético-político para a cidadania da Terra.
    • A política da Terra exige uma antropologia que reconheça a mortalidade como condição comum.
    • O Antropoceno implica uma mínima moral espontânea fundada no cuidado com a coabitação planetária.
    • A tarefa presente consiste em construir formas de coimunidade entre humanos e não humanos.
/home/mccastro/public_html/ereignis/data/pages/estudos/sloterdijk/antropoceno.txt · Last modified: by mccastro