Esferas I
SLOTERDIJK, Peter. Sphären I: Blasen (Mikrosphärologie). Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1998.
Introdução geral
1. A inscrição que, segundo a tradição, Platão teria colocado à entrada da Academia, afastando dali quem não fosse geômetra, inaugura uma nova forma de elitismo em que escola e vanguarda coincidem, sendo vanguardismo a capacidade de obrigar todos os membros de uma sociedade a decidir-se sobre uma proposta que não provém dela, jogo iniciado por Sócrates e elevado por Platão à força maior da escolha entre saber e não saber, pois o ser humano da era acadêmica é um mamífero desmemoriado que ignora ser, no fundo da alma, um geômetra, inteligência vinda do mundo dos mortos com vagas lembranças de uma esfera perfeita, e a filosofia torna-se eficaz ao dividir a sociedade entre os que recordam e os que não recordam, e entre os que recordam coisas diferentes, negócio que mantém até hoje com critérios apenas mais complicados.
2. Embora seja impossível fixar de antemão o uso que a comunidade letrada fará do que se publica, convém ler as considerações seguintes como radicalização do lema platônico, que caberia inscrever não só à entrada de uma academia mas à própria porta da vida, se não fosse indecente estreitar com advertências o já apertado acesso à luz do mundo, pois todos chegam à vida sem preparação geométrica e nenhuma filosofia pode submetê-los a exame de admissão, sem que isso altere o mandato exclusivo da filosofia, já que não se pode descartar que o mundo seja dado apenas por preconceitos geométricos inatos, que a vida seja uma incessante busca tardia de conhecimento sobre o espaço de onde tudo provém e que a cisão entre os que sabem algo disso e os que nada sabem seja hoje mais profunda que nunca.
3. A tese de que a vida é uma questão de forma liga-se à antiga e venerável expressão de filósofos e geômetras, a esfera, sugerindo que viver, formar esferas e pensar são expressões diferentes do mesmo, o que só faz sentido se se admite uma teoria que sabe mais da vida que a própria vida e se se reconhece que onde há vida humana, nômade ou sedentária, surgem globos habitados, ambulantes ou estacionários, mais redondos que tudo o que se desenha com círculos, cabendo sondar as possibilidades e os limites desse vitalismo geométrico.
4. A desmedida dessa configuração extrema entre teoria e vida torna-se mais suportável ao recordar uma segunda inscrição, de sentido oculto e humorístico, que excluía da Academia quem não estivesse disposto a envolver-se em assuntos amorosos com outros frequentadores do jardim dos teóricos, divisa igualmente aplicável à vida inteira, pois quem não quer saber de construir esferas deve manter-se longe dos dramas amorosos e quem evita o eros exclui-se da busca de clareza sobre a forma vital, de modo que a exclusividade da filosofia não exprime arrogância própria, mas reflete a autoexclusão da maioria em relação ao melhor, tornando-a consciente e obrigando a reconsiderá-la, razão pela qual a filosofia, ao cuidar do que lhe cabe, é sempre propaganda de si mesma, e se outros entendem o ótimo de outro modo com resultados convincentes, tanto melhor.
5. A sensibilidade para um problema platônico não implica assimilação ao platonismo, entendido como soma das más leituras do fundador da Academia, incluído o antiplatonismo de Kant a Heidegger e seus sucessores, mas apenas seguir as indicações platônicas para desenvolver com tenacidade incomum a tese de que as histórias de amor são histórias de forma e de que toda solidarização é formação de esferas, isto é, criação de espaço interior.
6. Dos excedentes do primeiro amor, que se desprende de sua origem para recomeçar livremente em outro lugar, nutre-se também o pensamento filosófico, que é um caso de amor de transferência ao todo, contrariando a redução, corrente no discurso intelectual contemporâneo e apoiada em modelos psicanalíticos, da transferência a um mecanismo neurótico que desloca paixões autênticas para o lugar errado, quando ela é na verdade a fonte formal dos processos criadores que impulsionam o êxodo humano para o aberto, transferindo-se não tanto afetos exaltados a pessoas estranhas quanto experiências espaciais precoces a lugares novos e movimentos primários a cenários distantes, de modo que os limites da capacidade de transferência são os limites do mundo.
7. O lema adequado à entrada desta trilogia afastaria quem não estivesse disposto, de bom grado, a elogiar a transferência e a refutar a solidão.
