User Tools

Site Tools


estudos:schurmann:finalidade-1982-42

§42. A Negação Prática da Finalidade (1982)

RSPA

  • Apresentação do propósito como um Denkversuch, um ensaio de pensamento
    • O objetivo é testar a hipótese da clausura, a saber, que com a virada técnica os princípios epocais se desvalorizam
    • Trata-se de examinar as consequências práticas desta hipótese
  • A metáfora heideggeriana dos Holzwege [GA5] como ponto de partida para pensar a abolição da finalidade no agir
    • Os Holzwege são “caminhos na floresta” que se perdem subitamente no mato, que não levam a nenhum lugar
    • Esta metáfora deve ser oposta à declaração de fé teleológica de Aristóteles
      • Segundo Aristóteles, “toda arte, toda investigação, toda ação e toda escolha tendem a algum bem”
      • Esta afirmação serve como fundamento para estabelecer uma ciência “arquitetônica” ou primeira
        • Tal ciência comandaria o saber, assim como seu objeto comandaria toda ação e escolha
        • Ela seria a ciência do fim supremo, ordenando as ciências múltiplas e a busca prática de nossos fins
  • A crítica à pretensão totalitária do conceito de fim na tradição teleocrática
    • A teleocrática sustenta que todas as atividades, teóricas e práticas, conduzem a algum lugar, em última instância à felicidade
    • Esta perspectiva repousa sobre três suposições
      • Em todas as nossas atividades há um fim a alcançar
      • O reino da finalidade transcende a distinção entre teoria e prática
      • A unicidade do fim último
  • O primeiro deslocamento operado por Heidegger: restringir o domínio de validade da finalidade
    • Segundo a leitura fenomenológica de Heidegger, theoria e praxis se enraízam na poiesis
      • A ciência diretriz de fato, que conduz às declarações de fé na finalidade, não é a sabedoria nem a política, mas o saber-fazer, a techné
    • A finalidade opera primordialmente no âmbito da produção
      • Seu contexto próprio é o da substância sensível e das causas, estudado na Física
      • A representação dos fins, a causalidade final, é diretriz para a filosofia em geral porque a experiência chave de onde nasce a metafísica é a fabricação
      • As outras três causas só entram em jogo uma vez dado o fim
    • A preeminência da finalidade na filosofia resulta da elevação, por Aristóteles, da substância sensível ao estatuto de ser por excelência
      • O prestígio da finalidade repousa na identificação da ousia à substância sensível
  • O desafio lançado pela metáfora dos Holzwege à fé ilimitada na finalidade
    • O desafio não é abolir pura e simplesmente o pensamento teleológico, mas limitá-lo
    • Consiste em anular, no momento da “fim da metafísica”, a transposição da finalidade arquitetônica do domínio da fabricação para o do agir e do pensamento em geral
    • No limiar dos tempos, tanto o pensamento quanto o agir devem se subtrair ao império da finalidade
      • Trata-se de um duplo empobrecimento, que é na verdade um único desaprendizado dos fins
      • Como Hannah Arendt compreende, o pensamento assim descrito não pode ter um fim último, assim como a própria vida
  • O segundo deslocamento operado por Heidegger: um alargamento do sentido de ousia
    • O sentido pré-metafísico do termo ousia ultrapassa o de substância
    • Com Aristóteles, a metafísica se tornou desde a origem ousialogia, e a ousialogia, teleologia
      • Aristóteles forjou ousia como um “termo técnico”, extraindo de sua riqueza primitiva um sentido unívoco e decisivo
      • Este sentido unívoco é aquele que predomina na Física: a ousia como aquilo que possui sua fim em si mesma, a entelecheia
      • A ousia é suprema porque contém sua fim em si; é o acabamento do movimento de produção
    • Heidegger argumenta que, ao extrair a “posse da fim” como sentido supremo do ser, Aristóteles perdeu outro momento essencial da ousia: a entrada em presença
      • Todo o esforço de Heidegger consiste em recuperar, para além da época metafísica, este sentido do ser como entrada em presença
      • Em Ser e Tempo, ele compreende a ousia como presença; mais tarde, a distinção triádica permite diferenciar a ousia (a estância) da parousia (a vinda à presença)
  • Consequência do duplo deslocamento: a sujeição do pensamento e do agir à representação de um fim resulta de um estreitamento de perspectiva
    • O prestígio da causa final resulta do prestígio sistemático da Física, da região do “fazer” e do fazível
    • O olhar, da parousia, vê apenas a ousia; da vinda à presença, vê apenas a substância
    • A teleologia na teoria do agir é um efeito colateral deste recorte aristotélico
  • A suspensão do império da finalidade no pensamento
    • Isso se indica na oposição entre conhecer e pensar
      • O conhecimento busca a certeza como seu fim
      • O pensamento, propriamente, não tem um assunto a perseguir
    • Os três perigos que ameaçam o pensamento ilustram esta ausência de fim
      • O “mau perigo”, o pior, é a busca filosófica, sobretudo da Verdade (nenhum fim externo)
      • O perigo “mais maligno” é o próprio pensamento acreditar que encontra em si mesmo sua satisfação (nenhum fim interno)
      • O “bom e salutar perigo” é a proximidade do poeta que canta, que canta por nada
    • A “coisa” do pensamento é a presença; a suspensão do império da finalidade no pensamento só é possível porque ele foi primeiro suspenso na própria presença
      • A physis no sentido metafísico busca a energeia como seu fim
      • A physis originária, em contraste, emerge sem objetivo, por nada
      • A finalidade marca a diferença entre a physis de Anaximandro e a de Aristóteles, entre a parousia e a ousia
      • Caminhos de pensamento não conduzem a lugar algum, pois tudo vem à presença sem razão
      • A essência do pensamento e da presença é ser “sem porquê”
  • A suspensão do império da finalidade no agir
    • Isso decorre de seu estatuto apriorístico
      • Se poder pensar o phyein originário requer de nós um modo de existência, então a metáfora dos Holzwege se aplica, em última instância, a esta condição prática
    • A existência que se engaja nesses caminhos já é mal julgada quando se lhe pede razões para seu comportamento
      • A máquina do comportamento, das ações em vista de um fim, das avaliações de motivações, pertence a um esquema teleocrático
    • Para realmente encerrar a história epocal, a virada técnica e a desconstrução fenomenológica devem ser acompanhadas por um agir que liberte “toda arte, toda investigação, toda ação e toda escolha” do reino do télos
      • Este é o último tipo de deslocamento operado por Heidegger: o deslocamento ateoleocrático, anárquico
  • O conceito normativo de finalidade e sua crítica
    • Tradicionalmente, o conceito de finalidade serve para regular e legitimar a praxis
      • Um comportamento aceitável depende do estabelecimento de fins considerados bons ou desejáveis
    • Contudo, as aspirações, a eficácia, o rendimento caracterizam a existência apenas na medida em que o ser foi pré-compreendido de maneira calculadora, como calculável
    • A descrição do “cuidado” em Ser e Tempo e a insistência no projeto e no “em vista de que” podem não estar inteiramente livres do quadro teleocrático
      • Mais tarde, este desprendimento se torna explícito
  • A apropriação e restrição do princípio de razão por Heidegger
    • “Uma coisa, tal como a rosa, não está sem razão, e no entanto é sem porquê”
    • Como a metáfora dos Holzwege, o “sem porquê” reduz o campo de aplicação da causalidade final
    • A negação prática da finalidade não significa a abolição de toda representação de fim, mas sua restrição ao único domínio da produção
      • Do ponto de vista botânico, uma rosa atinge sua entelecheia; do ponto de vista da simples presença, ela floresce por nada
  • O propósito anti-teleocrático na interpretação de Nietzsche
    • Heidegger cita Nietzsche: “A 'ausência de fim em si' é nosso princípio de fé”
    • O “fim em si” significa o “sentido”, compreendido por Nietzsche como “valor”
      • Trata-se de uma declaração de fé niilista, que visa afirmar que o mundo não tem nem sentido nem valor
    • Heidegger, porém, propõe não pensar mais o niilismo de modo “niilista”
      • A falta de valor e de fim não deve significar uma falta, um vazio
      • Estas caracterizações niilistas querem dizer algo afirmativo, um modo de desdobramento essencial, uma maneira como o ente em sua totalidade se faz presente
      • A palavra metafísica para isso é: eterno retorno do mesmo
    • A interpretação heideggeriana do eterno retorno como uma “metafísica” é atravessada por passagens onde o deslocamento anárquico se torna patente
      • A ausência de fim designa uma economia da presença
      • Antecipando uma ordem onde não reina nenhum “fim em si”, o eterno retorno traduz a negação econômica da finalidade em sua negação prática
    • Vista desde a economia principial da tecnologia, a negação prática da finalidade pode parecer um “desabrochar de um delírio”
    • No entanto, como Mestre Eckhart já dissera do agir, o homem verdadeiro age porque age, assim como a rosa floresce porque floresce
estudos/schurmann/finalidade-1982-42.txt · Last modified: by mccastro