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estudos:schurmann:affaires-1982-44

§44. A Contestação dos "Negócios" (1982)

RSPA

  • Apresentação do conceito heideggeriano de “affaires” (der Betrieb) e sua relação com os deslocamentos anárquicos
    • Os deslocamentos anárquicos, como a negação prática da finalidade e a transmutação da responsabilidade, prejudicam o bom funcionamento dos “negócios” [affaires]
    • A pergunta que se impõe é como uma sociedade poderia funcionar se fosse permitido ao “sem porquê” eckhartiano, ao “eterno retorno do mesmo” nietzschiano, ao “apelo da diferença” heideggeriano subverter o projeto de objetivação
    • O termo “negócios” indica que a tecnologia instala na totalidade do ente um projeto que, enquanto setorial, era legítimo (e legitimado pela Analítica Existencial)
    • O agir ao qual Heidegger convoca, como condição prática para a questão do ser, acarreta uma certa desarticulação do projeto que fez e faz o universo tecnocrático
    • Se a economia técnica é efetivamente bi-frontal, uma economia de limiar, sua simples situação põe em dúvida o alcance radical da questão aristotélica: Qual é a função do homem?
    • É por seu topos que a tecnologia, ao mesmo tempo, leva o ordenamento ao extremo e o prejudica; que ela subverte o interesse pelo funcionamento ordenado das coletividades
    • Situada no limiar da clausura, a técnica produz e transgride ao mesmo tempo um funcionamento contudo imperturbável e inquietante
  • Gênese do conceito: a descontextualização da obra de arte
    • O conceito de Betrieb designa inicialmente, em Heidegger, a descontextualização das obras de arte
      • Mesmo vendo in loco um templo ou uma catedral, o mundo dessas obras, objetivamente presente, desabou
      • Que seu mundo não mais existe e que na era contemporânea elas são tornadas presentes objetivamente são duas formas de dizer a mesma coisa
    • Heidegger opõe assim o objeto à obra
      • “O ser-objeto não é o ser-obra”
      • O critério dessa disjunção: a obra institui um mundo que é seu, enquanto o objeto, constituído pelo projeto matemático da calculabilidade e contabilidade generalizadas, é desprovido de um mundo próprio
      • A obra projeta um mundo; o objeto nasce do projeto de colocar todas as coisas à disposição do sujeito
    • A obra que se torna objeto é arrancada de seu contexto, torna-se um fator entre outros no universo homogêneo do cálculo
      • “Os negócios” são a consequência do projeto de objetivação, e o afazamento (der Umtrieb), seu sintoma mais visível
      • Fenômenos como o mercado da arte ou a indústria da arte são situados por Heidegger em relação à mathesis universalis
    • O fenômeno da transformação em negócios transborda o domínio da arte e afeta tudo o que está presente na economia moderna e contemporânea
  • Definição e extensão do conceito de “negócios”
    • Os negócios são esse projeto de transformação pelo qual as “coisas” perdem seu “mundo” ao se tornarem “objetos”
      • É o projeto de impor, de fixar tal mudança de ser nos entes mesmos; de estender a todas as coisas a representação, ou seja, o modo de ser dos entes “objetivamente presentes”
    • O setor de objetividade é aquele onde só está presente o que é verificável empiricamente
      • A verificação pela experiência é o método das ciências modernas
      • O et caetera sem fim das hipóteses e de sua verificação, produzindo novas hipóteses, é o que Heidegger chama de negócios
    • Sob esse conceito, ele expõe um traço fundamental da ciência: os resultados de pesquisa anteriores prescrevem as vias e os meios a seguir nas novas pesquisas
      • Essa obrigação de se reorganizar a partir de seus próprios resultados, enquanto vias e meios para avançar nos procedimentos, faz com que os negócios constituam o caráter essencial da pesquisa
    • Os negócios designam o processo pelo qual as ciências experimentais se nutrem e se perpetuam a partir de seus próprios produtos
      • Mas as ciências experimentais estão a serviço da técnica, e não o inverso
      • A técnica, cuja essência é “idêntica à essência da metafísica moderna”, só progride e se mantém comendo, como Cronos, seus próprios filhos
      • “Prioridade do procedimento sobre o ente (Natureza e História)”, que faz com que “a ciência como pesquisa tenha, nela mesma, o caráter dos negócios”
    • No afazamento da pesquisa científica manifesta-se a essência onívora da técnica, que, por sua vez, manifesta a violência inerente à posição fundamental da época-limite da metafísica
  • A contestação heideggeriana: questionar a essência
    • Heidegger contesta a figura totalitária da objetivação que são os “negócios” simplesmente perguntando qual é sua essência
      • Como em Sócrates, levantar a questão da essência já é questionar e protestar
    • Diferente de Sócrates, porém, Heidegger coloca a questão da essência em termos históricos
      • A essência é um modo de desvelamento
      • Por isso ela é alcançada, não por uma intuição, mas desconstruindo as economias de onde nasceu essa “empresa de instalar no ente o projeto do setor de objetividade”
    • Desconstruir as posições fundamentais para apreender a verdade da essência não é nem condená-las nem endossá-las
      • Nem a tecnologia em geral, nem os negócios são objeto de uma condenação por Heidegger
      • A sequência das economias que produziu seu domínio não tem nada de fatal
    • Mas se o questionamento essencial dos negócios é um agir, ele se resume a isto: opor-lhes uma certa prática, impossível de recuperar
  • A prática corolária: o desprendimento (Abgeschiedenheit)
    • O pensamento próprio dos negócios, pensamento que põe e dispõe, tem seu corolário prático: a imposição do projeto de objetivação ao ente em seu conjunto
    • “O outro pensamento”, o pensamento questionante, também tem seu corolário prático: o desprendimento
      • Tal atitude, diz Heidegger, nos torna disponíveis para uma nova dobra na história das economias
    • Heidegger segue Georg Trakl na espera de uma “marca ainda não chegada a termo, que marca a geração vindoura”
      • O que reúne, no desprendimento, preserva a marca ainda não nascida para além do já decidido, em vista de uma ressurreição futura do gênero humano a partir de sua aurora
    • O desprendimento é a protestação prática que pode produzir, a termo, uma raça desprendida da diferença ontológica, desprendida dos princípios epocais
    • Levantar a questão dos “negócios” e de sua essência implica desprender-se dos princípios
    • O Abgeschiedenheit contesta a empresa tecnológica planetária assim como “o outro pensamento” contesta o projeto de objetivação total
      • Ambos desnaturam já a época do cálculo e, com isso, desnaturam já os que habitam essa época
  • Condições da contestação: não uma denúncia ideológica, mas uma questão de essência
    • Vários comentadores viram no processo da objetivação e do pensamento calculante um dos raros “elementos políticos” em Heidegger
      • É preciso entender as condições sob as quais esse processo pode ser intentado
    • Heidegger não denuncia a alienação, não vem em socorro do homem total
      • Se ele incrimina, as condições sobre as quais se apoia lhe são fornecidas pela economia da presença
      • Não há denúncia polêmica sem deslocamento econômico prévio
    • A economia contemporânea da presença é ela mesma o lugar da “polêmica”, do polemos
      • É o enfrentamento da constelação principial e da constelação anárquica
    • O pensamento meditativo não ataca o pensamento calculante, assim como o desprendimento não ataca os negócios
      • Levantar a questão da presença não é “atacar” a tecnologia e o projeto de objetivação
      • Heidegger não ataca, mas pergunta de onde vem esse tipo de desdobramento chamado “negócios”
    • Não há em Heidegger o menor traço de ideologia
      • Sua contestação é uma posta em questão, não uma tomada de posição
      • “O pensamento” não é uma posição de onde se fazem investidas contra a ciência e a técnica
    • O apelo ao pensamento não significa uma escapada à era técnica e um retorno ao modelo grego
      • Isso seria ideológico
      • Heidegger afirma nunca ter falado contra a técnica, mas tentar compreender sua essência
    • Estamos sem modelos; o rechaço dos modelos fabricados historicamente é o sinal da extrema miséria que temos de suportar
      • Não se trata de “renovar” o pensamento originário, nem mesmo de tomá-lo por “modelo”
      • Buscar compreender a essência da técnica não é nem conservador nem progressista; é buscar as categorias segundo as quais a presença se organizou desde os gregos
  • O desprendimento como possibilidade econômica e como agir
    • O desprendimento em relação aos negócios não é uma opção diante do livre-arbítrio, mas uma simples possibilidade econômica
      • Enquanto tal, ele é o potencial da era atual, o poder de “conduzir uma coisa ao lugar que é o seu e de aí a deixar doravante”
    • Qual coisa? Aquela que, no momento da transgressão econômica, mais dá que pensar e que é mais digna de questão
      • Toda coisa, portanto, tal como aparece ao olhar da incidência antecipadora das categorias de transição
      • Toda “coisa” em sua relação com o “mundo”
    • O pensamento capaz de tal desprendimento resta apenas preparar
      • O desprendimento é esse relação possível com as coisas pela qual elas são “deixadas” a seu mundo
    • O desprendimento, tanto quanto o pensamento, designa um agir
      • O pensamento essencial e o agir desprendido juntos fazem a condição prática que se alia ao definhamento dos princípios como condição econômica na transição para a anarquia ontológica
  • A protestação deslocada: atestar uma economia sem princípio
    • Heidegger não protesta contra a tecnologia e a era atômica, mas protesta da economia que as produziu, faz-se seu testemunha
      • Por aí ele protesta a possibilidade de o pensamento tornar-se essencial e o agir, desprendido
    • A “protestação” recupera seu sentido primeiro, que é o de atestar uma verdade
      • A contestação dos negócios é a protestação do desprendimento
      • Este, por sua vez, é a atestação de uma economia sem princípio, de uma entrada na presença essencialmente anárquica
  • O desprendimento como critério na ordem bi-frontal contemporânea
    • Após a negação prática da finalidade e a transmutação da responsabilidade, o desprendimento se propõe como critério-chave para verificar que caminho é aberrante e qual é viável na ordem bi-frontal contemporânea
    • O ponto de impacto da contestação heideggeriana não está nem atrás nem diante de nós; é o hoje enquanto afetado por uma deriva possível, aleatória
    • Mesmo o pensamento preparador constitui antes de tudo um desafio ao domínio, aqui e agora, dos negócios
    • É preciso ser desprendido para que se levante um modo de interdependência das coisas, desprendido dos princípios
    • É preciso afirmar as pôsto-em-presença contingentes para que nasça uma constelação aleiteológica inteiramente contingente
    • É preciso desligar-se dos negócios para conduzir a termo uma geração desmamada dos fundamentos últimos
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