estudos:schurmann:a-priori-pratico-1982-40
§40. O “a priori” prático (1982)
RSPA
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Torna-se necessário um salto para que se dê, de maneira efetiva, a experiência da co-pertença de homem e ser, uma vez que tal experiência não se deixa alcançar por mediações graduais nem por uma passagem assegurada por pontes conceituais.
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O salto é caracterizado como caráter repentino de um ingresso sem ponte na pertença, de tal modo que apenas essa entrada súbita pode conceder a unidade do homem e do ser sob a forma de sua constelação recíproca.
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A co-pertença é apresentada como condição de possibilidade de uma união que não se reduz a soma de dois termos, mas se dá como configuração mútua, na qual homem e ser só se determinam em correlação.
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O passo é explicitado como exigência de saltar para fora da busca de fundamentos, isto é, de abandonar a expectativa de um Grund que estabilize e assegure o pensamento.
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O imperativo prático consiste em soltar os fundamentos, deixando-os ir, porque somente esse desprendimento abre a via para compreender um outro abandono, não humano, pelo qual o vir-à-presença oferece suas economias.
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O abandono humano opera como condição pela qual se torna possível ser tornado partícipe do outro abandono, que é ao mesmo tempo idêntico e diferente do próprio abandono humano, e que constitui o evento do vir-à-presença.
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Um “a priori” prático, assim entendido, fornece ao fenomenólogo a condição para tornar explícita a presença no seu acontecer, isto é, para explicitar o an-wesen como advento e não como dado estático.
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A relação entre antecedente e consequente não se reduz à passagem de uma pertença implícita para uma pertença explícita, pois está em jogo uma articulação mais radical entre fazer e pensar.
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A antecedência não é meramente lógica no interior do discurso, mas metódica e prática, já que o pensar depende de uma disposição prática que o habilita a entrar na região onde a presença advém.
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A caracterização do método fenomenológico como explicitação encontra-se já nos primeiros textos, nos quais a compreensão implícita exige ser tornada evidente.
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Em Que coisa é a metafísica? [GA9], o ser-aí é dito “metafísico” em sua essência por um processo fundamental, porém implícito, de transcendência, e o problema é tornar evidente esse traço essencial.
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A “metafísica”, nesse momento, designa o movimento pelo qual o ser-aí ultrapassa a si mesmo em direção ao mundo, de modo que o ser-aí já sempre transcende implicitamente a si mesmo.
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A fenomenologia é descrita como arrancamento desse movimento do ocultamento ôntico, mostrando-o como pertencente à “natureza do homem”.
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Com o desenvolvimento do anti-humanismo, a estrutura metódica da explicitação permanece, embora o conteúdo mude: após a “virada”, torna-se expresso o recordar da co-pertença de homem e ser enquanto ela varia de época em época.
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O “a priori” prático, entendido como antecedente procedimental do pensamento, não introduz novidade quanto à forma metódica, pois já em Ser e tempo a explicitação depende de uma condição prévia.
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A condição é que o homem se arranque do que ofusca sua “natureza”, e esse obscurecimento é identificado com um modo prático de ser-no-mundo: a inautenticidade.
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O “a priori” prático não é, portanto, uma descoberta tardia, mas a permanência de uma tese: um modo de pensar fica dependente de um modo de viver.
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Após a “virada”, o comportamento requerido a priori recebe outros nomes, entre os quais o decisivo é “abandono”, enquanto “autenticidade” deixa de figurar como termo central, sem que a dependência entre vida e pensamento seja abandonada.
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A articulação da dependência exige distinguir seu funcionamento antes e depois da virada, preservando a prioridade do comportamento sobre o pensar.
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A prioridade sistemática do comportamento aparece no julgamento contra a tradição ontológica, desde Aristóteles, como derivação das ontologias clássicas da existência inautêntica.
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As ontologias clássicas, por reforçarem o ocultamento da transcendência finita, são vinculadas a um modo de existir que encobre o traço decisivo do ser-aí.
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O sentido metodológico do veredito não é apenas condenatório, mas indica que recuperar a questão do ser só pode ocorrer se for precedido por uma modificação existencial.
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O ingresso do “a priori” prático na ontologia fenomenológica é indicado desde a abertura de Ser e tempo pela passagem de uma pergunta cognitiva a uma pergunta pré-filosófica, ligada ao thaumazein, ao estupor.
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A primeira pergunta busca uma resposta sobre o que se entende por “ente” e esbarra na ignorância, permanecendo no registro do conhecer e do não conhecer.
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A segunda pergunta indaga se há ao menos perplexidade diante do não compreender “ser”, deslocando a questão do campo cognitivo para um estado afetivo-prático que deve preceder a tematização do significado do ser.
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A estratégia consiste em despertar primeiro um embaraço pré-filosófico e só depois colocar o problema do ser, estabelecendo prioridade sistemática de uma transformação prática da existência sobre a análise “filosófica”.
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A ordem de prioridade não é simples oportunismo, mas atinge o núcleo do que é dito acerca da praxis: primeiro a apropriação de possibilidades existenciais, depois a ontologia existencial.
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Os termos “autêntico” e “inautêntico” são fixados em sentido terminológico, descrevendo modos de comportar-se em relação ao próprio ser.
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Autenticidade significa comportar-se perante o próprio ser no modo mais próprio, eigen, isto é, apreender o ser como concretamente meu.
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Inautenticidade significa comportar-se de modo não próprio, seguindo o modo de todos os outros, dissolvendo a relação singular com o próprio ser.
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Por determinarem todos os existenciais, essas modificações permanecem operantes ao longo de toda a analítica fundamental e se tornam plenamente inteligíveis pela retomada em Ser-aí e temporalidade.
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Autenticidade e inautenticidade são caracterizadas como modificações da temporalidade, e sua oposição designa a relação extática entre a essência do homem e a verdade do ser, até então oculta pela filosofia.
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Existir propriamente equivale a assumir a possibilidade temporal da resolução antecipadora, enquanto existir impropriamente equivale a reificar as dimensões temporais, convertendo passado em esquecimento, presente em apresentação retencional e futuro em espera.
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A prioridade do “a priori” prático é metódica porque o hodos, o avançar do procedimento, conduz de um modo de viver a um modo de pensar, e não apenas por etapas reflexivas externas.
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A existência inautêntica produz ontologias esquecidas do ser, implicando que o sentido do ser só se torna problema sob condição de existência autêntica.
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Não basta escrever sobre “ser” para satisfazer a condição, pois a exigência não se cumpre por mera atividade teórica nem por prática individual isolada.
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A acusação incide sobre o projeto filosófico de fundamentos tranquilizadores, orientado para um ente dotado de superior solidez, pelo que a filosofia perde de vista profissionalmente a questão da inautenticidade enquanto o ser cai no esquecimento.
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O errar histórico é descrito como errância metódica que deriva de erro quanto ao hodos que vai da vida ao pensamento, erro designado como “supravaliação absurda da consciência”, isto é, a omissão metódica da vida e da praxis para que o espírito fale apenas ao espírito.
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Após a virada, o requisito prático não cessa, mas se despoja de subentendidos existencialistas e se fortalece ao inscrever-se numa fenomenologia das economias, sofrendo tripla transformação.
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Primeiro, a prática requerida para o “pensamento do ser” passa a ligar-se expressamente ao deperimento dos princípios, isto é, ao seu esvaziamento histórico.
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Segundo, o “próprio” do existente perde a função de paradigma de conduta, deslocando o centro da orientação prática.
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Terceiro, as implicações individualistas do “a priori” prático anterior cedem lugar a implicações políticas, de modo que autenticidade e inautenticidade, tomadas como prelúdio, não designam diferença moral nem existencial.
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Ereignis ocupa o lugar de Eigentlichkeit, fazendo depender o pensar de uma ação que não é moral, fundada em dever, nem existencial, fundada em possibilidade própria individual.
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A primeira transformação determina que a praxis exigida para pensar o vir-à-presença é ditada pelo extinguir-se dos princípios epocais, de onde surge o imperativo do abandono.
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O abandono é descrito pelo dizer simultâneo de “sim” ao uso inevitável dos dispositivos técnicos e de “não” à pretensão de domínio exclusivo desses dispositivos sobre o Wesen, de modo a impedir distorção, confusão e cancelamento do desdobramento essencial.
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O imperativo emerge em oposição aos dispositivos modernos, situando o abandono numa hora histórica em que os objetos, enquanto dispositivos, alcançaram máxima presa e a presença constante se tornou tecnológica e hegemônica.
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A pretensão de exclusividade incide sobre o Wesen como termo para o vir-à-presença originário, de modo que a disponibilidade constante técnica sobredetermina o evento pelo qual algo entra em seu mundo.
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A tecnologia, como figura última da cisão sujeito-objeto, tende a apagar o processo único pensado pelos gregos como phyesthai, vir-à-presença.
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Dizer “sim” e “não” à tecnologia implica atenção à raiz fenomenológica comum de objetos técnicos e homens tornados sujeitos técnicos, permitindo uma relação “simples e calma” em que os dispositivos possam repousar em si.
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O repouso não significa reconciliação entre homem e natureza, mas reconciliação do agir com flutuações caóticas do vir-à-presença, e só é pensável quando a constância, ou o princípio de constância, perde prestígio.
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Se “repouso”, desde Aristóteles, significou posse plena do próprio, enquanto para Heidegger a coisa não possui substrato onde repousar, então o repouso aqui é afastado de imobilidade e de inação, sendo ambíguo por nascer do duplo “sim” e “não”.
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A segunda transformação explicita que preparar a co-pertença de homem e ser requer agir, mas tal agir já não se orienta por apropriação do próprio, pois a apropriação é inseparável de expropriação no Ereignis.
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O problema deixa de ser o da posse do ser, porque o ser é pensado como processo e o homem, enquanto mortal, é dessubstancializado.
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Se pertencer, gehören, remete a ouvir, hören, então a pertença implica escuta e assentimento, rompendo a coincidência entre theörein e katechein, entre ver e reter, entre contemplar e manter.
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A ruptura desloca o eixo do conhecer como domínio visual-possessivo para um responder que se define pela escuta do advento.
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A terceira transformação determina que a prática requerida é não individual, pois o Dasein pós-virada designa antes um povo ou uma comunidade, e o político é constituído pela interação pública de palavras, coisas e ações.
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O ser-aí histórico deve, em cada época, aprender a prática destinada a ele, e só corresponderá explicitamente ao destino sob condição de aprendizagens coletivas.
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A dimensão pública do “a priori” prático é articulada segundo três fatores constitutivos: palavras, coisas e ações, cada qual exigindo condições específicas de aprendizagem e transformação.
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Quanto às palavras, torna-se necessário aprender uma sintaxe correspondente à dobra destinal da época, pois as línguas ocidentais são línguas do pensamento metafísico e permanece em aberto se sua essência é metafísica em si ou se comportam outras possibilidades de dizer.
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Se existirem outras possibilidades, elas devem liberar o falar natural da onto-teo-logia e, para isso, desembaraçar-se da gramática ditada pela metafísica.
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A língua a aprender exigiria renúncia ao pros hen fundamental, isto é, ao modelo de atribuir predicado a sujeito, porque tal modelo organiza a inteligibilidade ocidental sob o regime dos princípios.
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Um falar correspondente à economia bifronte insinuaria instabilidade análoga ao declínio dos princípios epocais, dando a esse declínio sua verdadeira amplitude.
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O aprendizado que tornaria “simples e calma” a relação com a tecnologia é necessariamente coletivo, tanto por sua natureza linguística quanto porque responder à essência da técnica não pode ser assunto individual.
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Se a tecnologia permanece ligada aos princípios em altura mas já porta um germe anárquico, então liberar as palavras de seu ordenamento metafísico implica abalar modelos linguísticos basilares da civilização que se descobre deslocada para fora da onto-teo-logia.
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A abertura do Dasein à essência bifronte da técnica impede compreender Dasein como sujeito individual, pois o próprio problema é de ordem pública de escuta e fala.
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A impossibilidade atual de vincular palavras fora do pros hen instrui sobre o tempo necessário para que uma economia pós-moderna se liberte de sobredeterminação por princípios e para preparar uma economia sem princípios.
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Uma tradução essencial, übersetzen, é requerida para entrar na constelação da época, como passagem de uma margem a outra, e a cada época do destino do ser corresponde uma tradução no modo como a língua fala dentro desse destino.
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O “ou… ou” decisivo diz respeito a ouvir as injunções da época de fechamento e desaprender a gramática do pros hen, pois somente assim se alcança, para além do discurso sobre tecnologia, um relacionamento com sua essência.
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A ordem metódica é fixada: primeiro responder à essência da tecnologia, depois indagar se e como o homem pode dominá-la, de modo que a primazia recai no ouvir e no falar, e não em um programa privado.
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A aprendizagem da língua destinal é desenvolvida sobretudo em relação à poesia, na qual o projeto poemático da verdade responde ao potencial lançado em direção de uma comunidade historicamente dada.
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O Entwurf corresponde à economia do Zuwurf, porém nos escritos sobre linguagem e na desconstrução o ser-jogado prevalece sobre o projetar, limitando a iniciativa humana.
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A transformação do relacionamento com a linguagem não pode ser imposta nem inventada, pois se está jogado em uma língua que se determina segundo o destino.
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Só se pode preparar, em alguma medida, a mudança do relacionamento com a linguagem, e essa preparação é determinada pela duplicidade da técnica que abre possibilidade de um duplo modo de falar.
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As transições linguísticas são necessariamente públicas, pois a língua natural não admite privatização essencial.
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Quanto às coisas, as coisas desdobradas pela dobra destinal pedem liberação do reino dos princípios que as transformou em objetos e, mais recentemente, em dispositivos, exigindo que objetos voltem a tornar-se coisas.
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A condição é “deixá-las ser”, mas tal deixar-ser não pode ser subjetivo, pois a liberação consiste precisamente em abolir a cisão sujeito-objeto.
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O abandono não pode ser tarefa meramente individual porque, na soleira do fechamento metafísico, significa luta contra princípios epocais, cujo alcance é econômico.
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A conexão entre liberação e abandono esclarece-se: para que objetos se tornem coisas, é necessário afrouxamento da presa reificante de alcance econômico, coextensivo à comunidade situada sob o princípio de objetividade.
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Liberar o vir-à-presença não se reduz a atitude interior, e se “existência” pertinente ao individual, então o abandono nada tem de “existencial”, tornando o termo e seu correlato “autenticidade” obsoletos por não indicarem o espaço público requerido.
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Como o princípio de objetividade é princípio de representação, de adaequatio como subjetivização e assujeitamento, objetos se tornarão coisas apenas com deslocamento para longe da subjetividade em direção à rede de interconexão fenomenal onde sujeito e objeto se situam.
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O combate ao princípio de subjetividade só é possível na vida pública, política, pois sem libertar o “mundo” de referências ao sujeito como último princípio epocal, a virada econômica do século não se tornará explícita nem reconhecida.
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Um “a priori” político determina o pensamento: a praxis anárquica restitui a coisa sob o objeto, o vir-à-presença sob os princípios, a verdade como liberdade sob a verdade como conformidade.
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Quanto às ações, elas constituem o terceiro fator do político enquanto região fenomenal, exigindo distinguir praxis em sentido estrito da ação em sentido lato.
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A ação em sentido lato possui a mesma “essência” do pensar que é outro da teoria, de modo que uma outra política correspondente dependeria de sintaxe que quebre a supremacia do pros hen, de coisas que entrem no mundo por si, e de ações que tirem medida exclusivamente das injunções econômicas.
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O pensar conserva prioridade sobre o agir porque é o pensar que recebe, escuta, lê, recolhe e desdobra as injunções, especialmente o deperimento dos princípios.
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Contudo, há também prioridade do agir sobre o pensar, pois a aprendizagem de ações anti-principiais e talvez a-principiais é requisito para o pensar enquanto “agir supremo”.
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O recebimento da economia anárquica permanece impossível enquanto as ações não a precederem, assimilando-se a ela e transformando-se em jogo sem fundamento e sem porquê, de modo que a precedência prática condiciona a escuta e o recolhimento.
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Em cada época, há um saber preliminar do que é possível fazer economicamente, e esse caráter prático da precompreensão antecede sua descoberta do caráter histórico.
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O saber provém das mãos e dos instrumentos disponíveis epocalmente, de modo que o possível técnico e político de cada época delimita o imaginável e o factível.
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Exemplos de impossibilidade cruzada ilustram a determinação epocal do possível: não se sonha aço inoxidável na idade da pedra, nem arado de madeira na agricultura mecanizada; não se imagina pressão de interesses federais na polis, nem deliberação direta na democracia de massa.
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A compreensão implícita de uma economia nasce do que se realiza e se faz, e o esforço filosófico de torná-la explícita seria paralisado se não fosse precedido por modificações poiéticas e prático-políticas.
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A explicitação do dado economicamente não pode ocorrer por puros atos de consciência, afirmando-se não que o homem é o que faz, mas que o homem pensa como age, contra a ideia de que se deveria agir como se pensa sob a metafísica da razão legisladora.
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A afirmação de Ser e tempo segundo a qual, sem compreensão existentiva, a análise da existencialidade permanece sem fundamento, é lida como versão hesitante do “a priori” prático, pois ainda situa o requisito no plano da compreensão.
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A formulação sem hesitações torna explícito que, sem praxis anárquica, o deperimento dos princípios tende a permanecer “só teoria”, isto é, sem eficácia de desvelamento.
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O abandono dissolve implicações individualistas que ainda poderiam acompanhar a autenticidade como condição do pensar em Ser e tempo, pois se dirige contra o princípio tecnológico que marca a idade atômica.
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Dizer simultaneamente “sim” e “não” ao emprego inevitável dos dispositivos impede tomar o abandono como atitude interior escolhida em solidão heroica, exigindo concebê-lo como atitude de uma época.
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Caso contrário, a luta contra princípios seria donquixotesca, de modo que a substituição do individualismo torna-se inequívoca no terceiro período: a praxis sem princípios deve conquistar todos os que vivem na economia de transição para que haja ingresso no evento.
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A anarquia ontológica é chamada potencial, e por causa do caráter englobante de qualquer “molde” destinal, contestação marginal por ações individuais não transporta, a rigor, para a economia do Ereignis.
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Abrir-se à injunção possui amplitude social, porque os contra-sinais destinais situam a todos sem exceção, inclusive os que se mascaram para fazer sobreviver uma época passada.
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É impossível dizer simplesmente “não” à própria economia, e a simples negação elimina os negadores, pelo que a praxis que explicita a desagregação dos moldes deve tornar-se, cedo ou tarde, praxis de todos.
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A analogia com a novidade da obra de arte, que desloca e suspende o agir usual, é aplicada à novidade econômica: seguir o deslocamento implica transformar relações ordinárias com mundo e terra e suspender o agir corrente.
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Em todas as etapas, há alusões a um “a priori” prático necessário ao pensamento sem desenvolvimento autônomo dessas alusões, e permanece um desejo de especificações quanto às ações precisas que precedem a entrada no evento.
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Procurar indícios adicionais nos textos é julgado inútil, pois o empreendimento se limita a mostrar o desagregar-se dos fundamentos e as condições que dele decorrem para a vida, não a traçar programa de ação.
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A passagem de “destruição das ontologias” a “escatologia do ser” e a “entrada no evento” cumpre o primeiro encargo, deixando o segundo a outros, e é nesse limite que se situa a crítica de “falsa concretude”.
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O “a priori” prático inverte a sucessão tradicional entre condição e condicionado, deslocando o agir de consequência prática de critérios especulativos para condição de possibilidade do pensamento do ser.
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A inversão transcendental não reabilita o humanismo, porque as economias da presença se desdobram com pouco controle por parte do homem.
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O pensamento pode escolher permanecer implicado na dobra histórica sem problematizá-la, mas não pode escolher desimplicar-se de sua implicação histórica.
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A liberação possível é a passagem de uma implicação muda a uma implicação que começa a perguntar, e as condições desse emergir do sono dogmático consistem em agir expressamente contra vestígios dos princípios para subvertê-los.
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A subversão deve ser coletiva, pois somente assim o agir se torna condição real do pensamento que pode explicitar a desagregação e suas virtualidades.
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estudos/schurmann/a-priori-pratico-1982-40.txt · Last modified: by mccastro
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