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REAL

SCHNELL, Alexander. Wirklichkeitsbilder. Tübingen: Mohr Siebeck, 2015.

  • As duas posições extremas sobre a realidade — uma que a considera como presença imediata e absoluta, implicando um “ter” prévio e irredutível que torna supérflua qualquer pergunta por seu fundamento, e outra que a vê como o que é absolutamente não-presente ou mesmo “impossível”, baseando o ente em uma não-presença inacessível, mas significativa — levam, respectivamente, a um real “inflacionário” e a um real “deflacionário”, ambos culminando na impossibilidade de acesso ao real, ainda que por razões diferentes
    • O exame proposto não constitui um “terceiro caminho”, mas uma investigação da estrutura intencional da consciência em sua dimensão “inconsciente” e “pré-intencional” para fazer emergir a função legitimadora da realidade
      • Realidade se revela, por um lado, como pura factualidade “nua” anterior a qualquer determinação de conteúdo
      • Por outro lado, deve-se poder fornecer a fundamentação da necessidade para que não se trate de mera afirmação de realidade
      • Finalmente, cumpre apresentar a gênese, interposta entre essas duas abordagens, em sua função instituidora de realidade

I. Aspectos fundamentais da concepção de realidade

  • O desiderato de um conceito convincente de realidade reside, de um lado, na convicção de cada um de ter um contato imediato com ela, como Schopenhauer observou ao afirmar que cada um se encontra como o possuidor de toda a realidade, e, de outro, na expressão de que a realidade impõe limites externos que transcendem os desejos e a eficácia
    • Para a determinação da “realidade”, é essencial que uma tensão peculiar entre essas duas visões inseparáveis — uma dimensão do “eu” e uma “dimensão externa”, entre o familiar estar-em-si e a exterioridade que confronta com a alteridade estranha — se torne visível
    • Se essa tensão for radicalizada, pode-se reconhecer a tendência de atribuir o sentido da realidade tanto a uma instância subjetiva quanto a uma dada que se apresenta “de fora”, opondo-se a tal instância
  • Uma das principais dificuldades em apreender a “realidade” reside em uma questão de atitude que exige esclarecimento, podendo-se distinguir duas posturas filosóficas que trazem concepções de realidade totalmente diferentes, como a “natural” e a “transcendental” de Husserl, ou a “funcionalista” e a “fenomenológica”
    • Na atitude “funcionalista”, todos os fenômenos se inscrevem em uma relação causal em um mesmo nível descritível, tornando supérfluos conceitos como “sentido”, “constituição transcendental” e “subjetividade”
    • Apesar de não ser claro como seriam as conexões causais concretas, especialmente com funções cerebrais, para as ciências cognitivas isso se trata de “problemas fáceis”
    • Na atitude “fenomenológica”, admite-se um ponto de vista em outro nível além do funcionalismo, introduzindo um dualismo entre matéria causal-funcionalista e uma consciência qualitativa, que a ciência vê como um “mistério” ou o “problema difícil”, sem que isso abale a fundamentação dessa perspectiva fenomenológica
  • A quintessência desse dualismo, que faz transparecer uma posição “idealista” e uma “realista” no coração da problemática da realidade, é que, para além do alcance do causalismo materialista-funcionalista, pode-se atribuir pleno direito de existência a um reino da “consciência”, correspondente à esfera da gênese e da formação de sentido, que obedece a regras e legalidades próprias
    • A tarefa de uma fenomenologia generativa é justamente elucidar esse domínio, dedicando-se à determinação do conceito de realidade

II. O real e o transcendental

  • Os esforços de Fichte a Fink para refletir e legitimar o sentido e o conteúdo da filosofia transcendental remontam à descoberta fundamental de Kant de que o Absoluto não deve ser concebido como um “em si”, mas como a correlação entre ser e pensar, consciência e objeto
    • Contra os projetos que questionam esse “correlacionismo”, busca-se precisar seu sentido através do prisma da determinação da realidade, indo além das elaborações de Richir sobre uma “Fenomenologia do Real”, que nada têm a ver com uma fenomenologia “realista”
    • Tal elucidação é indispensável para lançar luz sobre a relação entre “realidade” e “factualidade” e para esclarecer o status do conceito de mundo
  • Dado que o status ontológico e epistemológico da correlação intencional não foi convincentemente esclarecido, a crítica do “realismo especulativo” ao “correlacionismo” parece, à primeira vista, não ser totalmente infundada
    • A pergunta é sempre a mesma: o que motiva a consciência intencional a visar o que visa e como o faz, e qual é o status do visado para além da visada
    • Busca-se tratar o problema do status da realidade de modo a responder a essa dupla questão, respondendo assim à pergunta sobre o que confere “realidade” a cada ato intencional e qual status deve ser atribuído à “realidade” do que “ultrapassa” a consciência
  • O real não é o dado, que se caracteriza pela imediatidade e presentidade e é o correlato intrínseco da consciência
    • A tese defendida é que a realidade constitui a “factualidade” que “permanece” na retirada da consciência e, ao mesmo tempo, “estabiliza” o dado consciente
    • A realidade não é pensada apenas como “retirada” ou “ocultação”, pois, embora esteja profundamente aninhada na consciência, seu ser só se revela na autodestruição da consciência, realizada por uma “in-tencionalidade” que não coincide com a consciência empírica, mas constitui o “elemento” de toda referência ao mundo aquém do “funcionalismo”
    • A consciência é o veículo do ser-dado, enquanto a realidade é o perecimento da consciência
  • Isso explica por que a tentativa de apreender a “realidade” exige uma “redução fenomenológica” específica, que elimina o ser-dado na e pela consciência
    • O paradoxo de tal “redução realista” é que a possibilidade de presentificar a realidade exige colocar entre parênteses tudo o que provém e adere ao sujeito
  • O apego rigoroso a essa “redução realista” implica que o “Real” só pode ser investigado em estreita conexão com o “Transcendental”, aproximando-se de um “transcendentalismo objetivo” e levantando a questão da legitimação da necessidade da realidade
    • A justificativa para essa referência reside no fato de que o “Transcendental” nunca é separável do “Constituído” e do “Objetivo”, mas falta uma apresentação convincente dessa relação
    • Como Husserl destacou, o conceito de “Transcendental” deve ser apreendido em sua referência indissolúvel ao “Transcendente”, que não aponta para algo divino, mas pergunta pelo status do “ser” do correlato consciente “fora” das “formas” da consciência
  • A abordagem da fenomenologia generativa, seja pela determinação de seu método, pela questão da fundamentação última, pela verdade ou pelo status do “si mesmo”, parte da concepção de que não há uma perspectiva “principial” que possa estabelecer um ou mais princípios fundamentais
    • Ao colocar a questão do status da realidade, pretende-se também esclarecer o sentido das diferentes modalidades do Transcendental

III. As cinco modalidades do transcendental

  • Uma primeira e fundamental modalidade do transcendental, que serve de base para as outras quatro, é o “transcendental da fenomenalização não aparente”, que não diz respeito a nenhuma “realidade” particular, mas à possibilidade mesma do aparecer e à sua articulação com o aparecente, sem que isso implique uma teoria das faculdades ou uma doxa
    • Essa modalidade é constituída por formas a priori que fundamentam as condições da fenomenalização em geral, correspondendo ao que se pode chamar de “realidade” da fenomenalização, composta pela necessidade que introduz na experiência
  • O “transcendental fenomenalizante aparente” reúne os modos concretos de constituição do aparecente, sendo o domínio da fenomenologia descritiva que investiga os tipos de intencionalidade, incluindo a intencionalidade de horizonte, e determina o que se chama de “transcendental fenomenalizante aparente”
  • O “transcendental genético” genetiza a factualidade do transcendental imanente, operando em um nível “pré-imanente” e envolvendo uma “reflexibilidade transcendental”, sendo responsável tanto pela genetização da factualidade imanente quanto por uma relevância arquitetônica
  • O “transcendental ocorrencial” diz respeito à factualidade dos fatos que constituem o mundo, onde a “Urdoxa” é a tese do mundo em sua estabilidade e realidade, e o “ocorrência” é um fato absolutamente singular, contingente e não apreensível conceitualmente, cuja realidade é chamada de “realidade de ocorrência”, e no qual atua uma “reflexibilidade transcendente”
  • O “transcendental urdóxico” concerne à existência do próprio mundo e à sua constituição transcendental, envolvendo as dificuldades, desde Husserl até Merleau-Ponty, de determinar sua “estabilidade” em vista dos “mandamentos fenomenológicos”
  • O desafio é conceber a relação do “pensamento” com o “ser” sem cair nas insuficiências de um idealismo ou realismo unilaterais, ambos vitimados por uma petição de princípio
    • A referência ao mundo não pode ser estabelecida fora de uma referência à consciência, mas restringir-se a isso leva a um idealismo radical que faz o ser escapar, razão pela qual a relação com o real introduz uma negação e uma aniquilação
  • A aniquilação atua diretamente sobre a realidade, e a resposta à pergunta sobre o que é a realidade em cada referência ao mundo exige arrancar-se do absorvimento em uma percepção singular, revelando uma distância necessária entre o “aparecente” e o “ente”, onde cada determinação é uma negação que se aninha no núcleo do transcendental e da “realidade” que lhe pode ser atribuída

IV. Considerações arquitetônicas

  • A apresentação das cinco “modalidades” do transcendental se desdobra em diferentes níveis, exigindo uma distinção prévia entre um “plano de essência” e um “plano de existência” da realidade, que não corresponde ao antagonismo entre “dado” e “real”
    • Essas modalidades se distribuem segundo uma dupla perspectiva ligada ao modo de constituição: a constituição imanente e o princípio da fenomenalização, e a constituição do mundo e dos ocorrências intramundanos, coordenados entre si pelo princípio da gênese
    • A fenomenalização e a constituição do real imanente buscam responder à legitimação da necessidade da realidade, enquanto a realidade mundana e a realidade de ocorrência esclarecem o significado da “realidade nua”, operando a gênese em um nível aquém da separação entre esses dois planos
  • A constituição transcendental-fenomenológica não é meramente cognitiva, mas tem uma função constitutiva de objetividade, enquanto a questão da “factualidade nua” tem um status “transcendental”, e ambas as perspectivas se cruzam geneticamente no nível da “reflexibilidade transcendental”, que constitui o “ponto mais alto” da fenomenologia generativa
    • Embora cada modalidade do transcendental seja constitutiva de algo, cada uma também é caracterizada por um tipo correlativo de realidade
    • Nas modalidades relativas ao real imanente, aos ocorrências e ao mundo, o que constitui a respectiva modalidade transcendental constitui a própria realidade do que é constituído por ela
    • Nas modalidades da fenomenalização não aparente e da gênese, o que elas determinam e sua respectiva “realidade” são distintos, pois sua realidade se baseia em um certo tipo de necessidade
  • As distinções estabelecidas são: dois tipos de transcendental fenomenalizante (não aparente e aparente) e dois tipos de transcendental factual (ocorrencial e urdóxico), além do transcendental genético, situado aquém de qualquer separação
    • A essas modalidades correspondem: a realidade do transcendental fenomenalizante não aparente, a realidade do transcendental fenomenalizante aparente, a realidade intramundana ou de ocorrência, a realidade “do mundo” e a realidade do Genético

V. As diferentes concepções do real

1. O real do transcendental fenomenalizante não aparente

  • A modalidade do transcendental fenomenalizante não aparente é um transcendental de “algo”, mas não lhe corresponde nenhuma “realidade” exterior e positiva, pois não é constitutivo de um objeto determinado, mas abre a possibilidade de um “encontro” de algo
    • As “formas” da fenomenalização constituem a realidade dessa modalidade transcendental, mas como nenhum conceito de sujeito é pressuposto, não se pode falar de uma doutrina das faculdades ou de uma linguagem particular com suas estruturas próprias
    • A reflexão sobre as condições transcendentais do aparecimento não se situa no quadro de uma doutrina do juízo
  • A exterioridade radical é caracterizada pelo fato de que, em cada “encontro”, algo novo se apresenta, sendo o dado uma ilimitação caótica
    • A estabilidade e regularidade da experiência atestam um “excedente” constituído pelas “formas da fenomenalização”
    • Quatro formas podem ser distinguidas: a espaço-temporalidade como forma fundamental de todo encontro, que não abre o “mundo”, mas a possibilidade do encontro de uma “coisa” em geral
    • A forma fundamental da coisidade de uma coisa é a identidade, a extensionalidade e a qualificabilidade
    • A forma fundamental das relações entre as coisas é a ação recíproca, incluindo o distanciamento, a causalidade e a interação
    • As três formas fundamentais das relações entre o “si mesmo” e as coisas são a existencialidade, a possibilidade e a necessidade
  • A “realidade” do transcendental fenomenalizante não aparente constitui a necessidade da ordem e regularidade da experiência por ele constituída, o que exige o tratamento do real do transcendental fenomenalizante aparente para uma fundamentação mais aprofundada

2. O real do transcendental fenomenalizante aparente

  • Trata-se da modalidade da dadidade intuitiva dos objetos, embora essa “intuição” só seja dada em uma intuição reflexiva, e o conceito de “Transcendental” remeta a uma dimensão eidética da reflexão
    • A realidade dessa modalidade transcendental é o caráter real da esfera da consciência imanente, cujos “componentes” transcendentais não são dados da mesma maneira que o que nela aparece, remetendo a uma dimensão pré-reflexiva, ou seja, a uma autoconsciência pré-reflexiva do ato de consciência em questão
  • A dimensão pré-reflexiva é o excedente fenomenalizante aparente no imediatamente dado, e sua “realidade” é o próprio constituído por ela, caracterizando-se por uma “relação de condicionamento recíproco” entre o “Constituinte” e o “Constituído”, na qual a realidade do transcendental é o que por ele é constituído, e essa realidade, por sua vez, o “funda”
    • Essa relação de condicionamento recíproco é essencial para a constituição da realidade do aparecente
    • Enquanto Kant separou a questão da dedução das categorias da questão de como elas preenchem a experiência com conteúdo, a fenomenologia husserliana busca responder a ambas as questões em sua mediação e entrelaçamento mútuos
    • O “Transcendental” em Husserl não diz respeito apenas à demonstração da fundamentação do conhecimento, mas entra em cada estrutura concreta de experiência, implicando potenciais que nem sempre se apresentam com toda clareza à consciência
  • A renovação do conceito de transcendental inaugura, como Levinas mostrou, uma “nova ontologia”, na qual o ser não é meramente correlato de um pensar, mas funda esse pensar que o constitui
    • A dimensão transcendental que determina a realidade não parte unilateralmente da subjetividade para o objeto, mas há uma relação de condicionamento recíproco entre pensar e ser, sujeito consciente e objeto da consciência
    • Isso vincula Husserl a Schelling, na medida em que a determinabilidade real do transcendental remete à categorialidade lógica do próprio real, constituindo o transcendental através de uma espécie de “retroalimentação” pelo real e assegurando uma “realidade objetiva” literal
    • Somente na medida em que o ser “funda” a consciência pode a consciência “constituir” o ente real em seu sentido, de modo que o conceito de constituição da realidade deve ser entendido de forma que o objeto não sirva apenas como fio condutor abstrato, mas como um concreto que contamina as performances transcendentais

3. O real genético

  • Na fenomenologia, podem-se distinguir três tipos de “fatos”: os “meros fatos” ou “eventos” contingentes da fenomenologia descritiva; os “fatos originários” ou “absolutos” da metafísica; e os fatos particulares da fenomenologia construtiva, que impõem limites à abordagem descritiva, mas são “geneticamente construíveis”
    • Esses limites e sua superação pela “construção” são exemplificados pela análise da constituição da consciência do tempo, onde a “forma” temporal caracteriza tanto o fluxo hilético quanto a intencionalidade constitutiva, sendo ao mesmo tempo “objetiva” e “subjetiva”
    • A pergunta sobre o que constitui o tempo daquilo que constitui o próprio tempo, sem que essa constituição possa ser garantida pelo que foi primeiro constituído, revela uma aporia que a análise puramente descritiva não pode resolver, levantando a questão da legitimação do procedimento fenomenológico diante desses “fatos” irredutíveis
  • O método construtivo na fenomenologia consiste em genetizar esses fatos, caracterizando-se por uma “abordagem” própria e uma “realidade” que lhe é inerente
    • A abordagem não é uma produção subjetiva pura nem um registro passivo de uma realidade preexistente, mas uma espécie de “interrogação” ativa, uma configuração que só “é” na medida em que é descoberta e possui uma necessidade que se manifesta apenas na própria genetização
  • Em relação à relação de condicionamento recíproco que caracteriza o real do transcendental fenomenalizante aparente, o Genético constitui uma (auto)reflexão do sentido fundamental dessa “relação de condicionamento”, na qual cada condição implica uma diferença de nível que traz à tona presença e retirada
    • Não se trata apenas de que o transcendental implique aniquilação e criação por não admitir experiência possível, mas ocorre um “salto entre os registros” que se estende por toda a esfera aquém da consciência imanente, desencadeando um jogo entre “presença” e “não-presença” que influencia retroativamente o status das condições transcendentais da fenomenalização
    • Esse “salto” não é executado de fora, mas realiza, em uma “reflexão da reflexão”, a determinação fundamental do transcendental, que consiste em uma duplicação característica da possibilitação
    • A “reflexibilidade transcendental”, distinta da “reflexibilidade transcendente”, determina o “registro mais arcaico” de toda gênese
  • Enquanto no nível transcendental da fenomenalização a coerência da experiência “sustenta” a necessidade das condições transcendentais, no nível transcendental da gênese nenhum tipo de experiência pode servir como “estabilizador”, razão pela qual a “necessidade” da gênese é uma necessidade puramente interna
    • No nível da gênese, não se fala propriamente de “necessidade”, mas de “realidade”, de realidade geneticada, que “injeta” o “Real” na factualidade para além da qual a abordagem descritiva é ineficaz

4. O real dos ocorrências

  • A questão do “Real” se coloca de maneira diferente no nível da constituição factual do mundo e de sua ocorrencialidade, ou “plano de existência” da realidade
    • Enquanto nas modalidades da fenomenalização e da gênese se trata de uma relação de condicionamento ou de possibilitação, no nível da “realidade de que” a “factualidade” é de outra natureza, perguntando-se o que faz de um ocorrência um ocorrência, ou o que constitui a “factualidade” nua
    • O problema é que o ocorrência, em sua radical contingência, se furta a qualquer tentativa de lhe “prestar contas”, e sua profunda instabilidade revela que a unidade de “reflexão da reflexão” e “realidade” se apresenta em uma outra modalidade de “reflexibilidade”, a “transcendente”, que atua como “princípio de fragmentação” da Urdoxa
  • Enquanto a “reflexibilidade transcendental” diz respeito à lei do refletir-se da reflexão no nível do “princípio”, a “reflexibilidade transcendente” torna possível, graças a uma construção fenomenológica de terceiro gênero, a equiparação entre a “reflexão da reflexão” válida no nível do ocorrência e a “realidade”
    • Trata-se de dois aspectos distintos da reflexibilidade que devem ser rigorosamente separados
  • Na elucidação de como a “reflexibilidade transcendente” pode ser “determinante da realidade” para o aparecente, o “si mesmo” entra em jogo na relação entre o “real intramundano” e o “ocorrência”
    • Quando o “si mesmo” entra em contato com o mundo, ocorre, no registro fenomenológico mais arcaico, uma fragmentação “infinita” do que é sustentado pela Urdoxa, onde cada ocorrência representa uma cristalização ou uma deposição dessa fragmentação, sendo marcado por uma contingência irredutível
    • Essa fragmentação, que precede toda determinação objetiva do aparecente, ocorre no ponto de contato entre o si mesmo e o mundo, sendo, em certo sentido, a “forma a priori” desse contato, “antes” de qualquer “apropriação” e “compreensão”
  • A constituição da experiência exige, segundo Kant, uma reflexão sobre a síntese do múltiplo caótico por formas unificadoras, mas essa multiplicidade não pode ser simplesmente pressuposta, sendo antes o resultado de uma conformação que adere à Urdoxa
    • Essa metodologia permite decidir o conflito entre a abordagem de Heidegger, que atribui a “extaticidade” originária ao sair-de-si do ser-aí, e a de Levinas, que ancora esse sair no mundo em uma relação mais profunda com a “alteridade”: o sair originário do “si mesmo” de si é o da própria “mundo real”, que é posto na e pela Urdoxa, em direção à pluridade fragmentada, que por sua vez se reflete em um multiperspectivismo
    • O si mesmo não é, portanto, a única “fonte” da fragmentação

5. O real mundano

  • No “plano de existência” da realidade, a questão de sua essência revela um princípio de unidade e fragmentação entre a Urdoxa e a fragmentação infinita característica do real do ocorrência
    • A resposta de Richir ao problema da “realidade” do próprio mundo em sua “transcendência” é que ela deve seu caráter “transcendente” à “transposição arquitetônica do 'elemento fundamental' do esquematismo no 'elemento inteligível'”
    • O “elemento fundamental” é o “elemento” da “corporeidade”, identificado com a “chora”, ou o “espaço de transição”, que é a “hyle” em sentido fenomenológico, sendo uma condição arquitetônica do “pensamento” que produz a distância irredutível necessária para que ele não perca toda a dinâmica
  • A “realidade” não se limita ao excedente do ente perceptível sobre o atualmente “percebido”, pois, se assim fosse, não se poderia distinguir entre o ente “real” e o meramente imaginado
    • O elemento do inteligível impede que o olhar se converta no imaginário, mas essa resposta traz a dificuldade de justificar a “transposição arquitetônica” e de saber se esse apego ao “elemento” do inteligível não implica uma forma de “eideticidade” pré-estabelecida
  • Não se trata de questionar a necessidade de examinar a relação entre a “realidade do mundo” e uma dimensão “inteligível”, mas de preservar o mandamento fenomenológico de eliminar todo recurso a teses metafísicas e de considerar o vínculo entre a factualidade peculiar da “realidade do mundo” e a dimensão genética da inteligibilidade que a “sustenta”
    • O que confere “realidade” ao Genético é a factualidade, e vice-versa, e a possibilidade de se situar em um nível aquém da separação entre epistemologia e ontologia se justifica por essa nova “relação de condicionamento recíproco”, situada em um nível constitutivo mais profundo
    • A estabilização do real mundano é garantida tanto pelo real urdóxico quanto pelo genético, sendo o Genético, em sentido estrito, a razão fundamental para que o real não se converta em imaginário

VI. Conclusão

  • A questão a que se respondeu foi a do ser “da” realidade em geral, onde se cruzam as dimensões do eu e do externo, e os planos de essência e existência da realidade, levantando duas questões de legitimação distintas: a da determinação do real por categorias de pensamento a priori e a de um excedente de estabilidade em relação à consciência como “possuidora” da realidade
    • A realidade entra em jogo na apreensão das categorias fundamentais da fenomenalização, que trazem para suas performances instituidoras de realidade uma relação de condicionamento recíproco com o constituído, refutando um idealismo unilateral
    • O “ponto mais alto” da problemática da realidade na “fenomenologia generativa” é a identificação de realidade e “reflexão da reflexão”, pois essa relação pode ser geneticada graças à “reflexibilidade transcendental”, enquanto a “reflexibilidade transcendente” se apresenta como princípio reflexivo da fragmentação do sustentado pela Urdoxa
    • O “real mundano” é caracterizado por uma segunda relação de condicionamento recíproco, mais profunda, entre gênese e factualidade
  • A “Realidade” traz à tona vários aspectos da “não-dadidade” aquém da dadidade: a “não-aparência” e a dimensão “pré-reflexiva” na fenomenalização, a “pré-imanência” na gênese e a “aniquilação” da consciência no real mundano
    • O aspecto fundamental comum das diferentes modalidades da “retirada” que caracteriza a “realidade” é o fato de a consciência “trabalhar” sobre o dado
  • A tese de Markus Gabriel de que “o mundo não existe”, baseada na impossibilidade de conhecer o todo e na retomada do motivo heideggeriano de um antecipar a possibilidade da impossibilidade de existir como condição da possibilidade de toda possibilidade finita, é fundamentalmente acolhida
    • O objetivo das considerações aqui apresentadas seria o de precisar o status desse limite, mostrando que o Real é constituído por uma espécie de “factualidade” que confere concretude aos “mandamentos fenomenológicos” e assegura ao aparecente uma infraestrutura ur-ontológica
  • Três observações finais dizem respeito ao “construtivismo”, ao “ceticismo” e à crítica do “realismo especulativo”
    • A orientação “construtiva” da fenomenologia generativa não deve ser confundida com o construtivismo usual, que é uma teoria do conhecimento para a organização da experiência subjetiva, não para o conhecimento de uma realidade objetiva, e que defende a impossibilidade de acesso à realidade, substituindo-a por ideias de “viabilidade” ou “autopoiese”
    • Embora o construtivismo tenha razão em preferir a perspectiva coerentista à correspondente, a ideia de “viabilidade” pressupõe um mínimo de determinação “mundana” e uma realidade para além do construído, de modo que não há realidade “por trás” da construção, mas apenas nela ou junto a ela
    • A necessidade da realidade só se revela em sua própria execução, o que exclui qualquer tomada de posição abrangente
  • Quanto ao ceticismo, se sua atitude é fundada e necessária, não é porque a dadidade do mundo poderia ser legitimamente posta em dúvida, mas porque o fato de a realidade ser a aniquilação do fenomenalizado encerra uma incerteza, uma vez que toda referência consciente foi aniquilada
    • O ceticismo não tem um papel “impulsionador”, mas mergulha na profundidade da realidade, sendo uma figura subsequente e indestrutível, pois “para além” da referência consciente não há um “estabilizador” transcendente para assegurar
  • Por fim, a crítica do “realismo especulativo” ao “correlacionismo” é refutada a partir do que foi exposto
    • O realismo especulativo afirma que as proposições “ancestrais” tornam absurda qualquer constituição da consciência, mas o fenomenólogo contra-argumenta que, para que uma proposição ancestral expresse um conhecimento verdadeiro, é preciso que lhe seja atribuída realidade, o que se deve ao modo como nos relacionamos com seu conteúdo e estabelecemos as conexões que decidem quais proposições são “verdadeiras”
    • A ancestralidade é, portanto, o explicandum da boa fundamentação do correlacionismo
  • O correlacionismo não afirma que o visado em uma proposição tem uma consciência correlativa como pressuposto, mas que isso vale para o sentido do visado “conscientemente”, ou seja, graças a uma formação de sentido
    • O fenomenólogo afirma que as proposições ancestrais são capazes de verdade, e isso só é possível “através” da “consciência” formadora de sentido e da relação de condicionamento recíproco que lhe é característica
    • Sem essa “consciência”, não se pode decidir qual proposição ancestral é verdadeira, nem mesmo compreender o sentido de qualquer proposição desse tipo
  • A ancestralidade funciona como uma alavanca para um argumento ontológico invertido ou “anancológico”: a existência da ancestralidade implica a necessidade da possível dadidade para e pela “consciência” formadora de sentido e, consequentemente, a realidade do visado ancestral
    • A “generatividade” designa a essência da formação de sentido na medida em que determina o conteúdo de sentido de uma proposição ancestral
    • Assim, pela afirmação bem fundada da ancestralidade, o correlacionismo — não mais o de um sujeito constituinte e seu objeto, mas o do processo de formação de sentido e do sentido objetual que nele se cristaliza e estabiliza — é não apenas reafirmado, mas posto em sua dignidade por esse argumento invertido
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