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Hölderlin e a "Política no Sentido Mais Alto": O Poeta como Fundador (1934-1935)

RSH

  • A partir do semestre de inverno de 1934-35, Hölderlin torna-se uma referência constante no pensamento de Heidegger, servindo como ponto de apoio para investigar o que acontece com o divino que nos falta e para conceber uma “política” que esteja acima dos negócios cotidianos.
    • Para Heidegger, Hölderlin é um “poder na história de nosso povo”, um poder ainda não verdadeiramente desvelado, cujo reconhecimento ocorrerá quando o povo alemão quiser encontrar-se a si mesmo; ajudar nisso é “política no sentido mais alto e próprio”, que dispensa até mesmo falar sobre “o político”.
  • O engajamento de Heidegger com Hölderlin coincide com um renascimento da recepção do poeta, que desde o Círculo de George (especialmente Norbert von Hellingrath) deixou de ser visto como um lírico interessante para ser considerado um “poeta líder” e um pensador com exigências existenciais, um gênio do coração que se partia pela Alemanha e um precursor de novos deuses.
    • A loucura posterior de Hölderlin conferia uma autenticidade adicional à sua poesia, interpretada como sinal de que ele se adentrara nas zonas perigosas e misteriosas da vida.
  • A exegese heideggeriana de Hölderlin articula-se em três eixos principais, que refletem as preocupações de Heidegger após o fracasso de seu engajamento político imediato.
    • Em primeiro lugar, trata-se de investigar a essência do poder e a hierarquia dos poderes da existência, estabelecendo a relação entre poetizar, pensar e a política fundadora.
    • Em segundo lugar, busca-se em Hölderlin um linguajar comum para nomear nossa carência (“noite dos deuses”) e para vislumbrar sua superação, tomando-o como testemunha e precursor.
    • Em terceiro lugar, através do “poeta do poetizar”, Heidegger quer compreender sua própria ação de pensar o pensamento, projetando indiretamente uma imagem de si mesmo como aquele que, como Hölderlin, chegou cedo demais e sofre um destino similar.
  • Comentando os hinos tardios “Germânia” e “O Reno”, Heidegger parte do aforismo de Hölderlin de que os poetas se formam no início ou no fim de uma época do mundo, ascendendo e retornando com cantos.
    • A palavra do poeta é o meio pelo qual, em um período histórico, “se abre pela primeira vez tudo aquilo que depois falamos e fazemos na linguagem cotidiana”; os poetas são os autênticos inventores da cultura de um povo, os que trazem seus deuses e instauram seus usos e costumes.
    • Heidegger coloca essa ação fundadora do poetizar em relação com outras grandes ações fundadoras: a abertura filosófica do mundo (pelo pensamento) e a criação de um Estado (pelos criadores do Estado); juntas, poetizar, pensar e política são “obras” de grande poderio que podem transformar a existência inteira de um povo.
  • O acesso a esse poder transformador da poesia (e, por analogia, da política revolucionária ou do pensamento) exige uma decisão de se expor ao seu “turbilhão”, abandonando as “táticas de distância de segurança” que a interpretam como mera expressão de vivências, superestrutura ideológica ou função biológica necessária.
    • Heidegger qualifica pejorativamente essa atitude de distanciamento objetificante como atitude fundamental “liberal”, no sentido de uma resistência a se deixar arrebatar ao interior da coisa mesma.
  • A crítica à atitude “liberal” conecta-se diretamente com o diagnóstico hölderliniano da “noite dos deuses”: os “atuais” são muito especialistas no conhecimento científico, mas perderam a capacidade de perceber a plenitude e a vitalidade das coisas, da natureza e das relações humanas.
    • O “divino” em Hölderlin não é um além, mas a realidade transfigurada da vida aberta, intensa e jubilosa no mundo; sua perda significa a dessecação da significatividade imanente das relações.
  • Heidegger traduz esse “divino” como a “relação com o ser” (Seyn), usando a forma arcaica *Seyn* para denotar a relação explícita e “própria” que diviniza o ser-aí, abrindo-o para o abismo e o prodígio do mundo.
    • Essa abertura tem agora uma dimensão histórica e coletiva mais acentuada: há épocas de “escurecimento do mundo” que dificultam tal relação, e Hölderlin é grande por existir justamente em um momento de ruptura, entre deuses que se foram e deuses que ainda não chegaram.
    • O poeta, como aquele que é “atingido pelo raio de Apolo” e se expõe às “tempestades de Deus”, sofre em solidão, antecipando para o povo um “ser” (Seyn) que este ainda não pode acolher, pois se aferra à “indigência da falta de necessidades”.
  • Nesta figura do poeta precursor e incompreendido, Heidegger projeta claramente um autorretrato: também ele se abriu para as “tempestades” do ser, também foi “atingido”, também lida com a surdez do povo, também “fundou” uma obra ainda não bem recebida.
    • A citação de Hölderlin — “Mas eles não podem necessitar de mim” — é usada por Heidegger em duplo sentido, aplicando-a tanto ao poeta quanto a si mesmo em relação à revolução nacional-socialista, que deveria ser o “grande giro” que tornaria os alemães clarividentes para escutar tais fundadores.
  • No entanto, após o fracasso do reitorado, Heidegger reconhece que a ação política imediata (“organizar e administrar”) não é seu assunto; sua tarefa é servir à reabilitação “através de outra metafísica”, ou seja, através de uma nova experiência fundamental do ser (Seyn).
    • Nas lições de “Introdução à Metafísica” (1935), ele diagnostica as forças que ameaçam essa reabilitação: a redução do espírito à “inteligência” instrumental a serviço de ideologias, seja o marxismo, a obsessão técnica ou o racismo popular, todos conduzindo a um “escurecimento do mundo”.
    • A mobilização total, econômica, técnica e racial, ameaça extinguir os melhores impulsos da revolução, entregando-a ao “frenesi desesperante da técnica desencadeada e da organização sem fundo do homem normal”, perigo que vem tanto de fora (América e Rússia) quanto de dentro (pelo racismo).
  • Diante desse panorama, a filosofia assume uma tarefa intempestiva e solitária: conservar e defender a verdade originária da reabilitação revolucionária, preparando silenciosamente o “manifestar-se do ser” (Seyn) que, para irradiar na sociedade, exigirá um “longo tempo” de indigência.
    • Heidegger começa, assim, a desvincular sua fantasia filosófica do envolvimento concreto com o nacional-socialismo realmente existente, que se torna para ele cada vez mais um sistema da “revolução traída”.
    • O autêntico nacional-socialista, na visão de Heidegger, transforma-se então em um “pensador em tempo de indigência”, um arauto que chegou cedo demais e, como Hölderlin, corre o risco de ser triturado e rejeitado por sua época, inscrevendo-se assim em uma história do ser como precursor solitário.
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