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Compreensão

(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999, §11)

A compreensão enquanto evental

1. A compreensão designa o caráter mais fundamental da relação que o adveniente (l'advenant) mantém com o mundo, consistindo toda a sua aventura em compreender o que lhe acontece — aventura essa que é ela mesma hermenêutica —, cabendo-lhe um mundo, em sentido eventual, apenas na medida em que é capaz de interpretar fatos à luz de seu contexto, remontar suas causas, apontar suas filiações e projetar fins à luz dos quais esse mundo ganha figura, primado da compreensão que não exclui, antes implica, a possibilidade de permanecer, na maior parte do tempo, na incompreensão mais profunda a respeito do que se passa.

2. Antes de ser ato gnosiológico, modalidade do face a face teórico entre um sujeito e um objeto, a compreensão constitui uma modalidade da aventura, um evental (événemential), maneira pela qual o adveniente advém a si a partir dos puros prelúdios da aventura que são seus momentos cruciais ou críticos, não requerendo atitude privilegiada nem recuo teórico ou reflexivo, mas configurando-se como atitude primeira e pré-reflexiva, prelinguística e preconceitual, na qual o adveniente se mantém constantemente e sobre cuja base toda teoria expressa pode se erigir, precedendo assim toda formulação temática do sentido dos fenômenos que visa.

3. Distinções essenciais articulam a compreensão do fato e a compreensão do evento, cabendo indagar em que medida a compreensão se declina diferentemente conforme se relacione a um ou a outro, e quais diferenças daí decorrem para o sentido evental da compreensão ela mesma.

4. O evental comporta, em sua articulação, vários momentos, e a partir deles se coloca a questão de saber o que ocorre com a compreensão de um evento na medida em que este se revela irredutível a seu contexto e se anuncia, livre de todo condicionamento causal, como sua própria origem.

  • O fenômeno a compreender, a orientação prévia segundo a qual se cumpre o próprio projeto de compreender, o fenômeno do sentido enquanto visado por esse projeto e o universo dos possíveis a partir do qual o projeto compreensivo pode se elevar até seu sentido constituem os momentos que permitem definir a compreensão, em geral, como um projeto dirigido a algo, tendo em vista pôr a descoberto um sentido, segundo orientação prévia conforme a um horizonte de possibilidades interpretativas ou contexto.
  • Se compreender um fato a partir de um contexto prévio é sempre explicá-lo, apreendendo seu sentido à luz de causas ou fins que lhe preexistem no mundo, permanece em aberto o que ocorre com a compreensão de um evento irredutível a seu contexto e com o sentido de um evento necessariamente irredutível a toda explicação mundana.

5. A distinção entre a simples apreensão explicitante de um fato à luz de seu contexto — a compreensão em sentido eventual — e a interpretação do evento, que não pode mais se cumprir conforme um horizonte de sentido prévio pois o evento é justamente esse puro prelúdio a si mesmo livre de todo horizonte — a compreensão em sentido evental —, revela que, no caso dos eventos, a interpretação não se desdobra mais no horizonte de um contexto prévio, mas recebe do próprio evento as possibilidades a partir das quais o projeto compreensivo se cumpre, o que se ilustra tanto pela interpretação de uma obra de arte, verdadeiramente compreensível apenas a partir da posteridade a que dá lugar, quanto pelo evento de uma decisão, exemplificado pela passagem de Joseph Conrad em The End of the Tether, em que a venda de um veleiro por um capitão idoso, embora explicável por seu contexto histórico e técnico, revela-se, para quem a vive, evento de sentido singular e indeclinável que faz desabar um mundo inteiro, sentido esse aberto unicamente a uma compreensão em primeira pessoa, indissociável de uma experiência e indecifrável à luz de um contexto mundano.

6. Compreender não pode mais significar, aqui, projetar-se rumo a um sentido conforme um contexto, uma vez que o contexto prévio a partir do qual esse sentido se esclareceria é precisamente o que falta ao evento enquanto tal, de modo que o projeto compreensivo, sempre antecipação que supõe um horizonte de possíveis interpretativos prévios, encontra-se, no caso do evento, sempre já precedido pelos possíveis que este mesmo possibilita, não acedendo ao sentido do fenômeno senão compreendendo primeiro em que sentido ele é inexplicável, o que torna essa compreensão necessariamente retardatária e retrospectiva, na exata medida em que é o próprio evento que é prospectivo, em precessão sobre si e acessível apenas a partir de seu porvir.

7. Com a compreensão evental, que não é mais a apreensão explicitante apoiada num contexto, o vínculo primeiro entre o adveniente e o mundo aparece profundamente transformado, pois o contexto mundano que explica um fato é justamente aquilo a partir do qual o sentido de um evento se revela rigorosamente incompreensível, incompreensibilidade que não marca uma falha da compreensão mas reveste significação positiva, já que o horizonte de sentido a partir do qual todo projeto interpretativo se torna possível não é mais o mundo como contexto, mas unicamente aquele que o próprio evento abriu, configurando o mundo em seu sentido evental, único conceito de mundo capaz de articular essa compreensão.

8. Há, portanto, uma compreensão que não é da ordem da apreensão explicitante de um sentido, pois, diferentemente de toda explicação, não versa sobre aquilo que pode ou não ser dotado de sentido — o fato — mas sobre o próprio sentido em sua origem, no evento, onde advento do mundo e evento do sentido se confundem, movendo-se essa compreensão evental no entremeio de dois mundos, o entremundo que o evento abriu, e só podendo aí se mover segundo um atraso que lhe pertence constitutivamente, atraso esse que só se explica sob a condição de que o próprio evento faça mundo, isto é, de que o adveniente esteja originariamente exposto, antes de todo projeto seu, a possíveis que o excedem e dos quais ele não é a medida, condição essa que somente o evento precursor do nascimento permitirá esclarecer.

9. Duas questões devem doravante guiar a análise: o que se deve entender, fenomenologicamente, por mundo, e como se opera a transição do sentido eventual ao sentido evental do mundo, de um lado; como o mundo se origina no evento precursor de um nascimento e qual o sentido evental originário deste, de outro.

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