estudos:ricoeur:tempo-relato:eclipse-relato

Eclipse do Relato

RICOEUR, Paul. Temps et récit I. Paris: Éd. du Seuil, 1983.

O eclipse do relato

  • A historiografia de língua francesa e a epistemologia neopositivista pertencem a universos discursivos muito diferentes, marcados respectivamente por uma desconfiança constante em relação à filosofia da história e por um cuidado normativo em medir a explicação histórica pelos modelos do saber científico, sendo a força da primeira a aderência ao ofício do historiador e a da segunda a preocupação epistemológica, cada qual com fraquezas correspondentes.
  • Apesar de heterogêneos, os dois correntes convergem na negação do caráter narrativo da história tal como se escreve hoje, procedendo essa convergência de argumentos distintos: na historiografia francesa, do deslocamento do objeto da história do indivíduo agente para o fato social total; no positivismo lógico, da ruptura epistemológica entre explicação histórica e compreensão narrativa.
  • O fio condutor deste capítulo é o destino do acontecimento e da duração histórica em ambas as perspectivas, destacando a convergência dos dois ataques.

O eclipse do acontecimento na historiografia francesa

  • O conceito de acontecimento histórico é escolhido como pedra de toque por ser a crítica da história factual equivalente, na historiografia francesa, à rejeição da categoria do relato, envolvendo pressupostos ontológicos e epistemológicos não criticados.
    • No sentido ontológico, o acontecimento histórico implica três traços: o caráter absoluto de ter-já-acontecido, comum aos acontecimentos físicos e históricos; a delimitação ao campo dos agentes semelhantes a nós; e a ideia de uma alteridade absoluta que desafia nossa competência comunicativa, na linha do que Habermas situa na pragmática universal.
    • No sentido epistemológico, corresponde-se a essa tríplice pressuposição ontológica a oposição entre singularidade não repetível e universalidade da lei, entre contingência prática e necessidade lógica, e entre alteridade e desvio em relação a todo modelo construído.
  • O livro de Raymond Aron, Introduction à la philosophie de l’histoire, contribui decisivamente para dissolver a suposição do caráter absoluto do acontecimento, proclamando a dissolução do objeto, segundo a qual a compreensão histórica é sempre reconstrução e nunca intuição direta, deslocando a probabilidade histórica do plano das coisas para o do espírito e aproximando a apreciação do historiador da do juiz.
  • H.-I. Marrou, em De la connaissance historique, reforça esse argumento ao afirmar que o conhecimento histórico não é ciência propriamente dita, mas conhecimento de fé, no qual subjetividade e objetividade se somam ao invés de se combaterem, e ao mostrar que a história não pode reatualizar o passado, pois este só existe como postulado, análogo ao noumeno kantiano, sendo a iniciativa em história da questão do historiador, e não do documento.
  • A contribuição da escola dos Annales, distinta da problemática alemã do Verstehen, corresponde à metodologia de historiadores de ofício, iniciada por Marc Bloch em Apologie pour l’histoire, obra inacabada que privilegia a crítica do testemunho sobre as questões de causa e lei, mas que também abre caminho, no capítulo sobre análise histórica, para a discussão da nomenclatura e do descompasso entre os planos político, econômico e artístico do fenômeno histórico.
  • Fernand Braudel, em La Méditerranée et le Monde méditerranéen à l’époque de Philippe II, torna-se o manifesto da escola ao contestar que os acontecimentos sejam o que indivíduos fazem acontecer, ligando essa contestação ao primado do indivíduo e ao dos acontecimentos pontuais, e produzindo o terceiro corolário implícito segundo o qual toda história de acontecimentos seria necessariamente uma história-relato — associação nunca questionada por si mesma, nem mesmo por Lucien Febvre.
    • À noção de acontecimento como salto temporal, Braudel opõe a de um tempo social hierarquizado em camadas — conjuntura, estrutura, tendência —, denunciando a história de batalhas e a história factual como corolários da primazia da história política, e propondo em seu lugar o conceito de longa duração, ilustrado por metáforas que depreciam o tempo curto enganoso e valorizam o tempo longo, anônimo e silencioso das civilizações.
    • Duas apercepções adversas mantêm-se em equilíbrio no pensamento de Braudel: de um lado, a longa duração confere à história uma inteligibilidade e estabilidade próprias; de outro, o historiador resiste à absorção da duração em modelos matemáticos quase intemporais, como os de Lévi-Strauss, mantendo-se sempre atento à ruptura e à mudança dentro da própria longa duração.
  • A escola dos Annales prolonga-se na história quantitativa ou serial, fundada na constituição de séries homogêneas de itens repetíveis, redefinindo conjuntura e estrutura em bases seriais, sendo Ernest Labrousse, seguindo François Simiand, o primeiro a incorporar essas noções à história econômica e social, distinguindo três níveis — econômico, social e cultural.
  • A metodologia da história econômica prolonga o combate antipositivista de Bloch e Febvre contra a fascinação pelo acontecimento único, a identificação da história com a crônica do Estado, e a ausência de critério na seleção dos fatos, sendo a demografia histórica um exemplo notável dessa conquista quantitativa por suas implicações temporais de longa duração.
  • A história antropológica, ilustrada por Jacques Le Goff em Pour un autre Moyen Age, transfere para a distância histórica o distanciamento que o antropólogo obtém pela distância geográfica, sendo o conflito entre o tempo da Igreja e o tempo dos mercadores tratado como um dos eventos maiores da história mental medieval, o que sugere a hipótese de quase-acontecimentos como forma de a história permanecer histórica ao abreviar mutações lentas.
  • A história das mentalidades, apoiada na sociologia das ideologias, na psicanálise e na semântica estrutural, devolve a palavra ao homem cotidiano, exigindo documentos apropriados como cadernos de queixas e testamentos, sendo Georges Duby exemplo de historiador que retoma a definição althusseriana de ideologia sem perder de vista a transformação histórica das estruturas de valor.
  • Os trabalhos sobre a relação do homem com a morte, especialmente a tipologia de Philippe Ariès em L’Homme devant la Mort, exemplificam de modo notável a reconquista do qualitativo pelo quantitativo, articulando um modelo conceitual em quatro tempos verificado pela frequência estatística dos estudos seriais de Vovelle e Chaunu.

O eclipse da compreensão: o modelo nomológico na filosofia analítica de língua inglesa

  • Ao passar da metodologia dos historiadores franceses para a epistemologia derivada do positivismo lógico, muda-se de universo de pensamento, pois o plaidoyer pela unidade da ciência, herdado do Círculo de Viena, é incompatível com a distinção windelbandiana entre método idiográfico e nomotético, sendo o estatuto narrativo da história posto em jogo apenas mais tarde, na disputa em torno do modelo nomológico, do qual Paul Veyne é o único historiador francês a se ocupar diretamente.
  • O artigo de Carl G. Hempel, The Function of General Laws in History, sustenta que as leis gerais desempenham funções análogas na história e nas ciências naturais, retirando do acontecimento histórico seu estatuto narrativo e alinhando-o a um conceito geral de acontecimento que inclui ocorrências físicas, sendo a explicação a dedução lógica da ocorrência de um evento a partir de condições iniciais e de uma lei de forma universal.
    • Três traços caracterizam esse modelo, chamado modelo nomológico ou de subsunção: a coincidência entre lei, causa e explicação segundo a ideia humeana de regularidade; a simetria entre explicação e previsão; e a exigência de que os eventos considerados sejam de tipo repetível, e não singulares, sendo o caráter único do acontecimento tratado como um mito a afastar do horizonte científico.
  • Hempel admite que, na melhor das hipóteses, a história oferece apenas um esboço de explicação, apontando na direção de regularidades ainda não formuladas, e recusa qualquer valor epistemológico próprio à empatia, à compreensão ou à interpretação, considerando a definição lógica do acontecimento como uma ocorrência singular sem relação intrínseca com o relato — posição também partilhada, na definição do evento, por Charles Frankel.
  • Os partidários do modelo nomológico dedicaram-se sobretudo a enfraquecer o modelo forte para preservar sua viabilidade, admitindo que as explicações históricas empregam leis já estabelecidas em vez de as formularem, como mostra Patrick Gardiner ao aceitar explicações do tipo disposicional, e reconhecendo que o leitor de obras históricas aceita um leque variado de expectativas explicativas correspondentes à diversidade de perguntas do tipo por quê.
  • O debate sobre a seletividade em história, no qual se destaca a réplica de Ernest Nagel, decompõe a objeção subjetivista em argumentos distintos — escolha de domínio, limitação da matéria, seleção de hipóteses, preconceitos coletivos — mostrando que cada um é compatível com a possibilidade de objetividade histórica, ainda que a atribuição de importância relativa às causas exija uma pesagem sujeita a debate.
  • O artigo de Charles Frankel representa o ponto extremo do enfraquecimento do modelo, admitindo a interpretação, próxima do Verstehen, como momento necessário do conhecimento histórico, distinto da explicação causal, mas ainda subordinado a ela, de modo que a interpretação mais discutível é aquela que julga uma sequência de eventos em função de suas consequências terminais, apreciadas em termos de valor, como no caso da leitura marxista da emergência do proletariado industrial.
  • O ponto crítico de toda a discussão é a hipótese de base segundo a qual a explicação em história não difere fundamentalmente da explicação nas demais ciências, hipótese que os defensores do modelo nomológico se esforçam por salvar reportando ao estado de fato da ciência histórica os traços discordantes de sua metodologia, de modo que o defender pela objetividade e o defender pelo modelo nomológico tendem a se tornar indiscerníveis.
estudos/ricoeur/tempo-relato/eclipse-relato.txt · Last modified: by 127.0.0.1