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O MUNDO COMO QUADRIPARTIÇÃO [Geviert]

OPPMH

  • O mundo como o autêntico próprio para o qual o pensamento de Heidegger é liberado
    • O pensamento heideggeriano, ao tentar penetrar naquilo que é, libera-se para o mundo como aquilo que é autenticamente próprio
    • Este mundo não é uma totalidade de objetos, mas a estrutura originária dentro da qual o desvelamento do ser ocorre
  • A definição do mundo como quadripartição (Geviert)
    • O mundo é pensado como a unidade dos quatro (das Vier): a terra, o céu, os divinos e os mortais
    • Estes quatro não existem isoladamente, mas somente em sua mútua pertença e jogo recíproco
  • Caracterização dos quatro momentos do Geviert
    • A terra é aquilo que suporta e edifica, que frutifica e nutre, que cuida das águas, rochas, plantas e animais
    • O céu é o curso do sol e da lua, o brilho das estrelas, as estações do ano, a luz e o crepúsculo, a escuridão e a claridade da noite, os benefícios e rigores da atmosfera, a fuga das nuvens e a profundidade azulada do éter
    • Os divinos são os mensageiros da divindade que dirigem sinais; o deus emerge do poder oculto da divindade e aparece em sua essência, que o subtrai a qualquer comparação com o presente
    • Os mortais são os homens; chamam-se mortais porque podem morrer; morrer significa ser capaz da morte como morte
  • A morte como abrigo do ser e relação essencial dos mortais
    • A morte, como arco do nada, encerra o que faz a essência do ser e é assim o abrigo do ser
    • Os mortais são verdadeiramente mortais quando têm seu ser no abrigo do ser e são a relação essencial com o ser enquanto ser
  • A unidade do Geviert como jogo e dança
    • Céu e terra, divinos e mortais nunca existem sozinhos, mas somente em comum uns com os outros
    • Eles existem na simplicidade, na dança e na roda dos quatro, no jogo do mundo
  • A retomada de ideias antigas e a ponte com a experiência mítica
    • Pensar o mundo como quadripartição é retomar, através do pensamento, ideias muito antigas
    • O homem na experiência mítica do mundo experimentava-o como o casamento da terra e do céu, e a si mesmo como mortal sob a reivindicação do deus
    • Platão, em sua maneira, ainda está próximo da ideia do mundo como ordem, assembléia do céu e da terra, dos deuses e dos homens
  • A poesia de Hölderlin como incitação decisiva
    • Heidegger estabelece uma ponte de sua concepção do mundo para a experiência mítica de Hölderlin
    • A poesia de Hölderlin foi a incitação decisiva para pensar o mundo como quadripartição
  • O desafio de reinserir a sabedoria do mito no pensamento
    • Talvez tenha chegado o momento de reintegrar no pensamento a sabedoria mais antiga do mito
    • Para isso, o pensamento, partindo de um início autônomo, deve desenvolver a questão sobre o que o mito nomeia
    • O pensamento não pode simplesmente tomar respostas do mito para si, sem renunciar a si mesmo como pensamento
  • A dificuldade em apreender conceitualmente os quatro
    • Quando questionamos sobre o mundo, o saber sobre o que é o céu e a terra escapa-nos das mãos
    • As indicações de Heidegger, por vezes escassas, podem mais mascarar do que desenvolver o que deve ser pensado
    • A definição do homem como mortal pressupõe um saber sobre quem é o homem, algo que o próprio Heidegger afirma não possuirmos mais
    • Sobre o divino, Heidegger sugere que é preferível guardar silêncio na zona do pensamento
  • A necessidade de um caminho meditativo para alcançar o Geviert
    • Nenhuma indicação pode dizer imediatamente como pensar o mundo como quadripartição
    • É necessário seguir o caminho pelo qual o próprio Heidegger chegou a esse conhecimento
  • O ponto de partida: a questão do ser como abertura
    • A via começa com a questão do ser; o ser é a abertura do ente
    • Um ente chega ao seu ser quando é tomado nele mesmo pelo que é
    • Ao ser tomado como ente, produz-se nele uma ruptura; sua imanência fechada é aberta à força, o ente é distinguido de si mesmo
  • A diferença ontológica e o intervalo
    • A ruptura abre abruptamente a diferença entre ser e ente; ela gera o intervalo pelo qual o ente advém à abertura do ser
    • Para esta abertura é necessária a pensamento, que concebe o ente como ente
    • É apenas o intervalo que faz do ser o ser do ente; ele é o que desdobra sua essência no ser como seu fundamento e sua verdade
  • A verdade do ser como simultaneidade de descobrimento e encobrimento
    • A questão é como se desdobra realmente este entre-dois, a verdade do ser
    • Ela é conhecida como a simultaneidade do descobrir e do encobrir, como o acontecimento do desvelamento
  • A multiplicidade de nomes para o desvelamento
    • O desvelamento é pensado de muitas maneiras: como liberdade do esclarecimento, como proximidade (Nahnis), como dimensão de todas as dimensões, como região
    • Ele é o movimento mais originário, o caminho mesmo (Tao), o movimento que abre todos os caminhos do pensamento, da ação e do discurso
    • O movimento vem do repouso, concebido não como imobilidade rígida, mas como imanência que reúne em si todos os movimentos
  • O mundo como nome decisivo para a estrutura do desvelamento
    • Entre os nomes para o que vigora como desvelamento, um é decisivo: mundo
    • Este nome designa a estrutura na qual se situa o desvelamento
    • O que reina no mundo é o encobrimento descobridor do desvelamento, um proveniente
  • O estatuto não-ente do ser e do mundo
    • Ser e mundo não existem como um ente, pois não são um ente entre outros
    • Por isso Heidegger diz que eles desdobram sua essência (wesen) ou vigorecem (walten)
    • O desdobramento deve ser concebido como este advir que se abriga na presença
  • O destino como proveniente de descobrimento e encobrimento indissociáveis
    • Como no advir do descobrimento, o encobrimento pertence permanentemente ao descobrimento, este advir não deve ser concebido como um processo teleológico
    • Um proveniente onde descobrir e encobrir se unem indissoluvelmente é chamado por Heidegger de destino
  • A essência do tempo como temporalidade eqüi-original
    • No destino vigora a essência do tempo; este tempo não é o tempo intramundano, mas a temporalidade, o horizonte transcendental do sentido do ser
    • É a maneira como tem lugar o desvelamento
    • Heidegger busca quebrar a dominação do presente na tradição metafísica
  • O tempo como engrenagem das três dimensões
    • O tempo é pensado como eqüi-temporalidade do passado, presente e futuro, ou ser-passado, ser-presente, vir-ao-encontro (Gegen-Wart)
    • A eqüi-temporalidade é a engrenagem das três dimensões temporais, algo como uma quarta dimensão que seria a primeira e inicial
    • As três dimensões são de igual importância; não toleram a predominância do presente
  • A negação da eternidade como presente extra-temporal
    • O presente não é o constante, a partir do qual passado e futuro seriam concebidos como sua negação
    • O presente (como instante) só é produzido quando há a engrenagem do passado e do futuro
    • Heidegger não supera o tempo rumo a um presente extra-temporal e eterno; ele corta definitivamente essa rota
    • A eternidade conhecida a partir da eqüi-temporalidade reside na unicidade do instante
  • A concepção originária do espaço e sua união com o tempo
    • O tempo como eqüi-temporalidade vigorece em conjunto com o espaço, pensado em seu sentido originário
    • Espaço originário não é o conjunto de lugares, mas o que abre a separação dos emplacamentos, lhe dá espaço
  • O espaço-de-jogo-temporal (Zeit-Spiel-Raum) como domínio do desvelamento
    • O tempo como eqüi-temporalidade e o espaço nesse sentido formam o espaço-de-jogo-temporal, o domínio movente do desvelamento
    • Este se abre como destino ao retirar-se em seu encobrimento
  • A derivação do tempo e espaço mensuráveis
    • O tempo como sequência mensurável de instantes e o espaço como separação mensurável resultam de abstrair o jogo originário do espaço-de-jogo-temporal
    • Nessa abstração, o encobrimento é recoberto em favor do presente mensurável
  • Os limites do saber objetivo sobre espaço e tempo
    • O espaço submetido ao cálculo não esgota o espaço-de-jogo-temporal; não pode dar conta, por exemplo, da proximidade ou do afastamento do deus
    • Se espaço e tempo são postos apenas em vista do mensurável, o mundo como espaço-de-jogo-temporal é destruído
    • Interpretar espaço e tempo a partir do espaço-de-jogo-temporal não torna falso o saber científico, mas o insere no domínio restrito de sua exatidão, mostrando que são inesgotáveis em sua essência
  • A ordenação do desvelamento na estrutura do Geviert
    • O desvelamento se ordena, como dispensação do espaço-de-jogo-temporal, na estrutura do mundo, erigindo-se em quadripartição
    • O encobrimento, enquanto traço fundamental do desvelamento, se manifesta sob o aspecto da terra, que só se abre fechando-se
    • O descobrimento, outro traço fundamental, é especialmente proporcionado sob a forma do céu, que se estende, indisponível, sobre a terra
  • O mundo como conflito íntimo e união
    • O mundo é o conflito da terra e do céu, conflito entendido como união íntima onde um não pode ser sem o outro
    • O mundo nunca é um mundo em si, mas o advento da abertura do ente no homem
  • O homem como necessário para o advento do desvelamento
    • O homem é, com sua essência, utilizado para o advento do desvelamento
    • É necessário como aquele mortal ao qual a vigência da verdade e do mundo só se dá ao recolher-se no apelo do totalmente outro, do divino
  • A ausência de fundamento exterior ao mundo
    • O mundo como quadripartição não precisa ser explicado a partir de um fundamento exterior a ele
    • Também não se pode isolar um de seus momentos estruturais para fundamentar o todo
    • O descobrimento encobridor que vigora no mundo permanece um fundamento sem fundo
  • O mundo como jogo de espelhos e unidade dinâmica
    • O mundo é o quadriparti como jogo de espelhos, onde cada um reflete a essência dos outros e assim se reflete em sua própria essência
    • A reflexão não é pensada platonicamente, mas como velamento esclarecedor que, como advento, traz àquilo que é próprio
    • A unidade que mantém juntos os quatro, como simplicidade da quadratura, não é identidade rígida, mas roda e dança animadas
  • A infinidade do mundo como relação infinita
    • A unidade dos quatro é a intimidade de uma relação infinita
    • Infinito não é o que não tem fim, mas o movimento do mundo que remete para fora de si tudo que é finito e o traz de volta a si
    • Esta infinidade não é o ser em si de um ente supremo, mas o fundamento sem fundo, descobrimento que encobre e assim acontecimento
  • O mundo como concessão do próprio e da pátria
    • Como relação infinita, o mundo faz entrar o que é naquilo que lhe é próprio
    • Na experiência do mundo ocorre esta entrada no ser próprio, onde o próprio existe como próprio, como o historicamente único
    • O mundo concede a possibilidade de estar em casa no que é próprio, com base no que permanece estrangeiro e indisponível; concede o próprio como pátria
  • A mútua pertença do mundo e das coisas
    • O mundo apropria o ente àquilo que lhe é próprio, liberando-o para ser ele mesmo
    • Esta guarda não ocorre como se, de um lado, houvesse um ente e, de outro, um desvelamento, e ambos fossem reunidos
    • Verdade e mundo se abrigam no ente quando o ente se abriga neles: o mundo concede coisas, enquanto as coisas fazem morar e reúnem o mundo
  • A via de acesso ao mundo a partir do ente
    • Em um tempo onde verdade e mundo se recusam, Heidegger busca conduzir primeiro à essência da verdade e do mundo
    • Ele questiona sobre as vias pelas quais verdade e mundo se abrigam no ente, para seguir o estreito caminho que conduz ao seu conhecimento
    • Se o mundo só vigora ao abrigar-se no ente, o caminho inverso também deve ser possível: mostrar, a partir do ente, como ele está, em sua diversidade, abrigado no mundo
  • A retomada modificada da teoria das categorias
    • Nesse caminho, o objetivo da teoria universal das categorias e da ordem ontológica do ente é retomado sob uma forma modificada
    • Trata-se da questão dos níveis segundo os quais o ente é abrigado na verdade e em sua estrutura, o mundo
  • A separação das vias de pensamento
    • No entanto, questionar assim é fazê-lo no sentido contrário ao que determina as questões de Heidegger
    • Os Beiträge sugerem que aqueles que assumem a ressonância do evento como recusa e aqueles que fundam a liberdade do ente em si podem permanecer separados
    • Uma maneira de re-executar o pensamento de Heidegger, partindo de outros pontos de partida, talvez possa despertar melhor a questão sobre o que deve ser pensado
  • A ausência de um telos para uma gradação do ente
    • Se questionamos sobre os níveis de abrigo do ente, renovamos aparentemente a questão platônico-neoplatônico-idealista sobre a gradação do ente
    • No entanto, se o mundo é o acontecimento onde todo fundamento se abisma, falta o ponto de mira para tal gradação
  • O encontro histo-rial como ordem não supratemporal
    • Se verdade e mundo são destino indisponível, a abertura na qual o ente se coloca é sempre um encontro histo-rial do destino, e não uma ordem supratemporal
    • A questão é como Heidegger desenvolve este encontro e como o ente se decompõe na variedade de seus domínios para seu conhecimento do mundo
  • A crítica à concepção objetificante da natureza
    • Sein und Zeit não interroga especialmente sobre a natureza, mas afasta a opinião de que a natureza seria identificável à coisidade natural dada e disponível
    • Distingue a natureza que nos envolve (no sentido romântico) da natureza como objeto das ciências naturais
  • A natureza a partir da disposição (Befindlichkeit) do ser-aí
    • A natureza é originariamente manifesta no ser-aí pelo fato de este existir como disposto e situado no meio do ente
    • Como a disposição pertence à essência do ser-aí, a analítica do ser-aí forneceria a base para o desdobramento do problema da natureza
  • A terra como chave para a questão da natureza
    • Se a disposição do ser-aí é concebida como o momento estrutural terra no Lá do ser do mundo, a questão da natureza deve ser posta a partir da terra
    • Os Beiträge refletem sobre como a natureza foi primeiro physis, morada dos deuses, depois antítese da graça, e hoje é apenas objeto para a técnica
  • A terra como mais originária que a natureza
    • A natureza só se torna terra em virtude de seu conflito com o céu, conflito que o homem deve sustentar
    • Se sua abertura é concebida como o conflito da terra que se fecha e do céu que a eleva para o aberto, então a natureza se torna terra
    • A terra é, em certos aspectos, mais originária que a natureza, pois tem uma relação com a história
  • A física como um modo específico de manifestação da natureza
    • A física provoca a natureza como objeto e fundo (Bestand)
    • O que é provocado é a natureza mesma, mas apenas como domínio de objetos cuja objetidade é determinada pela elaboração da física
    • A física abstrai de uma multiplicidade de traços da natureza; o que ela apreende é apenas uma maneira que a natureza tem de se manifestar
  • Os limites da explicação física
    • A objetividade da física nunca pode abraçar toda a plenitude de ser da natureza
    • A física não pode decidir, com seus próprios meios, daquilo de que abstrai
    • A questão de saber se a natureza não se retrai em sua plenitude oculta é assunto de uma reflexão que busca explicitar os modos de descobrimento
  • A superação da aparência de um em si último
    • Se recordamos que a natureza se encobre ao mostrar à pesquisa física um certo modo de desvelamento, não pode mais surgir a aparência de que o descoberto pela física é um em si último e certo
    • Valores estéticos, por exemplo, não podem ser superpostos como algo adicional a esse em si
  • A relação recíproca entre homem e natureza
    • Se a natureza se descobre ao mesmo tempo que se encobre, ela não pode ser apenas produto elaborado por um sujeito, nem simples objeto e fundo da tecnologia
    • O desvelamento, tal como eclode no homem, é condição para que a natureza seja conhecida em seu eclodir e em seu fechar
    • Por outro lado, o homem deve, como condição para ser ele mesmo, reconhecer a natureza que se encobre em sua estranheza
  • A inquietação da parentesco corporal com o vivente
    • O fato de seu ser-aí ser portado por algo que não é no modo do ser-aí, que é do gênero da natureza, inquieta o homem
    • Essa inquietação se dá sobretudo na parentesco que ele tem, por sua corporalidade, com aquilo que é apenas vivente
  • A ontologia do ser-aí como pré-ordenada à ontologia da vida
    • Sein und Zeit afirma que a ontologia do ser-aí é pré-ordenada à ontologia da vida
    • Na realidade, a natureza precede o homem, mas em verdade ela não existe (ex-siste) sem ele, pois existir só há onde há um dizer-que-uma-coisa-existe
    • A prioridade da ontologia do ser-aí diz respeito à ordem da verdade e do saber: o homem que sabe precede o saber sobre a natureza
  • A interpretação privativa da vida
    • A biologia é fundada na ontologia do ser-aí, ainda que não de modo exclusivo
    • A ontologia da vida se realiza por via de interpretação privativa; ela determina o que é necessário para que algo como simplesmente viver possa ser
    • A vida não é privação do ser-aí no sentido da decadência; a autonomia imanente do modo de ser vida se perderia em tal via
  • A interpetação privativa como esclarecimento prévio dos conceitos
    • A interpretação é privativa na medida em que pressupõe absolutamente um esclarecimento do que significam ser, ser-aí, realidade, etc.
    • Não se deve tomar a vida como uma privação do ser-aí, pois o homem não deve ser posto como telos da natureza
  • As sugestões dos Beiträge para uma interpretação da vida
    • A vida é compreendida como o começo da abertura do ente em vista do ente, onde o si mesmo ainda é guardado
    • O vivente se encontra num entorpecimento, dentro do qual se realiza toda excitação e irritabilidade
    • Mostra diversos graus de um obscurecimento, a guarda do si e a prioridade da espécie, que não reconhece nenhum indivíduo como ipsidade
  • A distinção radical entre homem e animal na Carta sobre o Humanismo
    • Os seres vivos não precisam do ser, não suportam a verdade do ser, não têm a guarda da essência de seu ser, não têm mundo (apenas um meio), e lhes falta a linguagem, a capacidade de dizer é
    • Esta interpretação privativa não deve fazer ver o animal a partir do ser-aí, mas conduzir-nos diante do abismo que nos separa do animal, a cuja essência somos no entanto aparentados por nosso corpo
  • A exclusão do antropomorfismo pelo ponto de partida no ser-aí
    • Tomar o ser-aí como ponto de partida não deve dar garantias a uma interpretação antropomórfica, mas excluir o antropomorfismo
    • Isso ocorre ao tomarmos consciência de que somos sempre nós que compreendemos, e que nossa autocompreensão ainda está em jogo diante do incompreensível
  • A insuficiência da explicação mecanicista
    • A explicação mecanicista da vida não é uma saída do antropomorfismo, pois permanece inadequada à vida, ainda que possa esclarecer alguns traços de sua essência
    • Nela, o vivente é pensado a partir das obras que o homem realiza; o vivente é distinguido por ser definido como aquilo que se faz a si mesmo
  • A estranheza fundamental do animal
    • O animal, que parece tão próximo, nos resta profundamente estranho, porque o ente já se abre para ele, sem que ele mesmo assuma o desvelamento
    • Desvelar-se e velar-se estão unidos no animal de uma maneira tal que nossa interpretação humana mal encontra uma saída, evitando tanto a explicação mecanicista quanto a antropomórfica
  • A diferença essencial: compreensão do ser
    • O homem não é apenas um ente como os outros; ele é o lugar onde ser, verdade e mundo se produzem
    • A diferença entre homem e o resto do ente deve ser estabelecida como a diferença entre o que se distingue pela compreensão do ser e o que não tem tal compreensão
  • O homem como tema a partir de sua função no desvelamento
    • O homem constitui um tema pelo fato de que sua essência é necessária para que o ente possa entrar em seu ser, para que o ser possa se produzir e se ordenar como desvelamento na estrutura do mundo
    • Em Heidegger, há poucas indicações sobre o homem como unidade de corpo, alma e espírito, ou sobre a ordem da comunidade
  • A reorientação das questões antropológicas para a questão do ser
    • Heidegger acolhe essas problemáticas, mas elas se transformam na questão de saber como é experimentado o desvelamento do ser quando o homem é assim definido
    • O que é dito sobre o um (das Man) em Sein und Zeit não fornece uma contribuição para a filosofia social, mas indica como, para um homem cujo pensamento é rebaixado às evidências do Um, a questão da verdade do ser não pode surgir
  • A tarefa de encontrar o terreno para as questões antropológicas
    • Quando Heidegger pensa o homem como o lugar, o Lá, do ser, e toma a peito transformar o homem nesta essência que é sua, as questões da unidade corpo-alma-espírito e da ordem da sociedade não são excluídas
    • É preciso precisamente encontrar o terreno sobre o qual estas questões devem ser postas
  • A morte como medida da possibilidade mais extrema
    • O homem toma a medida da mais extrema possibilidade do ser-aí quando assume a morte como morte
    • A morte confia o ser-aí à sua profundidade abissal irredutível e o faz assim o lugar momentâneo para o desvelamento
  • A deformação da essência da morte
    • A essência da morte também pode ser mascarada: um morrer experimentado como simples extinção deforma a morte, assim como uma interpretação metafísica que a toma por passagem para uma vida eterna assegurada
  • A morte essencial como encontro com o que permanece
    • Na morte experimentada segundo sua essência, aquilo pelo qual o homem é sustentado em seu ser vem a ele: a realidade originária que recolhe em si tudo o que é e que é assim o que permanece, o advento do desvelamento e do mundo
    • A morte atribui o homem ao acontecimento da verdade e do mundo, e o transforma assim em sua essência de pertencer, como mortal, ao quadriparti
  • O homem como mortal diante dos deuses
    • É como mortal que o homem se coloca diante dos deuses
    • O mundo ao qual ele pertence é o entre-dois entre os deuses e ele, o acontecimento que consagra uns aos outros os divinos e os mortais
  • A verdade e o mundo como reivindicação suprema
    • Verdade e mundo não se dão ao homem diretamente, mas sempre reunidos numa reivindicação suprema, que cria um compromisso
    • Se esta reivindicação torna familiar ou faz experimentar o desenraizamento como tal, ela é a reivindicação daquilo que concede ou recusa a salvação, do sagrado que chega ou se desvia
  • A manifestação do divino
    • O divino se esconde no sagrado como aquilo que concede ou recusa a salvação
    • Este divino se manifesta, de uma vez a outra, como reivindicação, como o deus ou os deuses
  • A presença da questão de Deus desde o início
    • A questão de Deus paira desde a origem sobre o caminho do pensamento de Heidegger
    • Este caminho começa por um ponto de partida metafísico que encontra seu acabamento ao retornar a Deus como seu fundamento último, numa teologia especulativa
  • O ataque à teologia metafísica
    • Heidegger dirige seus ataques contra essa teologia metafísica: o Deus que a metafísica busca apreender e compreender, e do qual busca fazer a base do pensamento, não é o Deus vivo da fé
  • Sein und Zeit e a expulsão dos resíduos teológicos
    • Sein und Zeit não se funda mais numa teologia especulativa, mas quer expulsar radicalmente da filosofia os remanescentes da teologia cristã
    • Com isso, a relação do homem com Deus não é negada, mas trata-se de criar um lugar para uma teologia renovada, inspirada em Lutero
  • A historicidade da revelação
    • A Fenomenologia e Teologia refuta toda tentativa de reduzir a cristandade da fé cristã a um princípio geral de filosofia religiosa
    • Deus se atesta para a crença no Cristo crucificado em sua historicidade; uma revelação que é história não pode ser tornada universalmente inteligível
  • A abertura para uma pensamento preparatório
    • A possibilidade de um pensamento preparatório para a essência de Deus está aberta em Sein und Zeit
    • A parte não publicada deveria traçar uma delimitação da diferença ontológica em relação à diferença teológica
  • A experiência nietzschéana da morte de Deus como decisiva
    • Nos anos posteriores a Sein und Zeit, a experiência nietzschéana da morte de Deus tornou-se decisiva
    • Para Heidegger, não é Deus mesmo que morre, mas o Deus tal como foi conhecido na história ocidental determinada pela metafísica
  • A refutação apenas do Deus moral
    • A palavra de Nietzsche significa para o pensamento meditativo: o Deus pensado como valor, mesmo que seja o maior, não é um Deus
    • Portanto, Deus não está morto, pois sua divindade vive; está mesmo mais próxima do pensamento que da fé, se a divindade recebe sua origem da verdade do ser
  • O Deus moral como equívoco da humanidade
    • O Deus moral é o equívoco da humanidade que se nega a si mesma e nega a vida
    • Quando esta humanidade é superada, o equívoco, o Deus moral, é refutado
  • A crítica ao Deus metafísico
    • Heidegger concebe o Deus moral como o Deus metafísico, limitando a palavra de Nietzsche sobre Deus à experiência metafísica
    • A crítica ao Deus ético-metafísico é conduzida a novas profundezas: Deus entra na metafísica quando a essência originária do desvelamento é esquecida e o ser é assegurado como presença constante
  • A liberação para o Deus divino
    • Deus é exigido pelo pensamento metafísico como fundamento último e valor supremo, mas assim não é conhecido em sua verdadeira essência
    • O pensamento só pode encontrar o caminho do ser verdadeiro de Deus se, superando a metafísica, alcançar a essência originária da verdade
    • É só quando o pensamento abandona o Deus metafísico que se liberta para o Deus divino
  • Hölderlin como garantia de uma nova possibilidade
    • Hölderlin, que retoma transformada a experiência pré-metafísica de Deus da tragédia grega, pode ser o garantidor da possibilidade de uma theologia que, mesmo num tempo de retirada de Deus, se sabe sob a invocação do divino
  • A questão de Deus como encerramento necessário dos Beiträge
    • Os Beiträge terminam com a questão de Deus, necessariamente
    • Neles, o ser é pensado como ele mesmo, portanto como o advento do desvelamento
    • O desvelamento se concentra em que uma reivindicação divina, que determina e transforma tudo, se exprime nele e pode tocar o homem
  • O homem à disposição dos deuses
    • O homem transformado no ser-aí e que assim se sabe utilizado para o advento do desvelamento, está à disposição dos deuses
    • Isso significa manter-se longe e fora da banalidade do ente e de suas interpretações; pertencer ao mais distante
  • O ser como tremor do tornar-se-deus
    • O ser como acontecimento do desvelamento confia o deus ao homem ao atribuir o homem ao deus
    • Assim, ele é o tremor do tornar-se-deus, a antecipação da decisão divina sobre seu deus
  • A indeterminação na fala sobre o divino
    • Como nunca é o homem que pode decidir se e como Deus o interpela, o pensamento prévio deve deixar essa decisão indecisa
    • Por isso, Heidegger fala de maneira indefinida tanto do deus quanto dos deuses
  • A recusa do ser aos deuses
    • Ele recusa o ser aos deuses, embora o deus possa ser pensado tão pouco como não sendo quanto como sendo
    • Recusar o ser a Deus significa que o ser não está acima dos deuses, nem estes estão acima do ser
    • Os deuses precisam do ser para pertencerem a si mesmos graças a este ser, que não lhes pertence; o ser é aquilo de que os deuses precisam
  • O último deus como começo da história futura
    • Se o divino é conhecido a partir do acontecimento do desvelamento, a essência do divino é elevada ao que tem de último e supremo
    • O deus aqui chamado último não representa um fim no sentido daquilo que cessa; conhecê-lo como último é antes o começo da história futura
    • O último deus não é simplesmente um outro deus diante dos deuses passados; ele os reúne na essência última e suprema do divino
  • A essência do último deus no signo (Wink)
    • O deus conhecido pelo acontecimento como o último só passa: não se pode forçá-lo a parar e assegurá-lo como o fundamento que tudo funda
    • Ele tem sua essência no signo, assalto e falta da chegada, bem como na fuga dos deuses que foram e sua transformação secreta
    • Nesta essência do signo, o ser mesmo amadurece; a maturidade é disposição para tornar-se fruto e doação
  • A relação entre o acontecimento e o deus
    • Contudo, o ser e sua essência, o acontecimento do desvelamento, não é ele mesmo o deus, mesmo que seja o elemento de que o deus precisa para aparecer
    • O acontecimento é a rede onde o deus se toma a si mesmo, para rasgá-la e deixá-la se consumar no que tem de único, divino e estranho
  • A histo-rialidade como pertencente à essência do divino
    • O divino conhecido pelo acontecimento do desvelamento não pode mais ser posto como o fundamento que tudo funda
    • Ele se encobre na profundidade sem fundo; só se mostra de vez em quando na dispensação e permanece o outro em relação ao humano
    • A historicidade pertence a sua essência, na medida em que é pensada a partir do advento que, ao descobrir, encobre
  • A mortalidade dos deuses
    • Se o divino é assim experimentado, não se pode afastar a ideia de que uma reivindicação do divino também tem seu tempo
    • Os deuses também podem morrer; morrer aqui não significa acabar no vazio de um nada, mas retirar-se no único e no irremplaçável
    • A morte é concebida como o testemunho supremo a favor do ser e do advento da verdade
  • A superioridade do homem em relação aos deuses
    • Como o homem é capaz de assumir a morte especificamente como morte e de ser assim atribuído ao acontecimento, ele supera os deuses
    • Esta superação significa que os deuses estão inteiramente reunidos nos limites de uma reivindicação histo-rial
  • O deus como interrogado
    • Se tempo e história são reconhecidos a partir do advento do desvelamento, o deus não deve mais ser pensado como aquele que é sem tempo nem história
    • Ele só pode ser objeto de interrogação a partir do movimento trágico da história, do instante
    • Talvez ele só esteja aí, diz Heidegger, como o interrogado, ou seja, o chamado
  • As questões abertas sobre a unidade e eternidade do divino
    • Se o divino só se mostra numa reivindicação cada vez histo-rial, como pode ainda ser pensado em sua unidade?
    • Pode-se representar a eternidade de Deus como temporalidade infinita?
    • A plenitude do divino pode ser resumida na noção do último deus, ou esta omite a experiência histo-rial do divino?
  • A revogação da expressão passagem do último deus
    • Antes que estas questões possam ter resposta, seria preciso perguntar mais exatamente como pensar que o deus seja último e que ele passe
    • Em seus trabalhos posteriores, Heidegger revoga a expressão passagem do último deus, apresentada nos Beiträge
    • Ele fala agora com mais reserva dos divinos, dos mensageiros da divindade que fazem sinais
  • Os divinos como anjos
    • Heidegger (com Hölderlin) chama também os divinos de anjos
    • Os anjos são os mensageiros que colocam os homens sob a reivindicação do sagrado e do divino e assim apaziguam o advento sem fundo do desvelamento num ser-salvo
    • Sendo tais mensageiros, os divinos pertencem ao mundo, à estrutura do desvelamento
  • A necessidade da questão de Deus para o pensamento
    • A questão de Deus se coloca quando se pergunta como uma reivindicação que obriga pode reunir nela o advento da verdade e do mundo
    • Ela é indispensável para um pensamento que questiona sobre a estrutura da verdade e do mundo
  • A tarefa do pensamento e seus limites
    • O pensamento reconhece como sua tarefa reservar o domínio de uma reivindicação divina que traz a salvação; tenta mesmo reabrir este domínio
    • Contudo, ele não tem o poder de decidir por si mesmo se e como tal reivindicação toma a palavra e encontra o homem
    • O pensamento, ao qual a questão de Deus pertence com necessidade, não é ele mesmo teológico ou mitológico, resposta a uma reivindicação efetiva
  • A presença constante da questão de Deus
    • Desde o início de seu itinerário, o pensamento de Heidegger traz consigo a questão de Deus
    • Este pensamento realiza, refazendo-o, o traçado da experiência ocidental de Deus e deve assim passar pela experiência nietzschéana da morte de Deus
  • Os desvios e armadilhas do caminho
    • Para finalmente voltar ao seu próprio caminho, ele deve percorrer os desvios mais consideráveis
    • A realidade contemporânea, que tem o aspecto de um novo começo e é na realidade a destruição do advento originário do desvelamento, jaz como uma armadilha no caminho
  • A exigência trágica do pensamento
    • É preciso manter o questionamento sobre Deus num tempo de extremo desvio; por isso, sobre o caminho deste questionamento, está colocada a palavra consternada do coro do Rei Édipo
    • O pensamento deve trabalhar para extirpar de si o que atrapalha a preparação da disponibilidade para os deuses
    • Como Édipo, deve trazer à luz, com uma paixão de saber única, a culpa oculta que se encontra na via própria, a via ocidental
  • A ruína como entrada no advento
    • Assim, o pensamento é chamado a uma via trágica, para esta ruína que não é o vazio do aniquilamento, mas entrada no advento do desvelamento
    • Esta entrada se consuma ao determinar e produzir na sua pertença recíproca o deus e o homem, a terra e o céu, e se põe assim como a estrutura do mundo
  • A superação das categorias humanas de julgamento
    • Se o pensamento se liberta para este advento, ele não pode mais creditar a um tempo bom ou mau, ou a uma sorte ou azar humanos, a via ou o desvio, a proximidade ou o afastamento do divino
    • Ele também é agora dominado pela palavra final do último poema do último poeta do helenismo originário, o Édipo em Colono de Sófocles
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