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estudos:nancy:2014:gozo-solitario

2 Gozo solitário?

VAN REETH, Adèle; NANCY, Jean-Luc. La Jouissance. Québec: Librairie Plon, 2014.

Estamos Sós no Gozo?

  • A dissolução da subjetividade constituinte e o colapso da representação
    • Adèle Van Reeth formula a questão primordial: se o gozo como vivência concreta acarreta a perda do controle sobre si e a impossibilidade ontológica de apropriar-se do objeto, torna-se problemático determinar com precisão quem é o agente ou o sujeito que efetivamente goza.
    • Jean-Luc Nancy esclarece que o gozo opera um rompimento direto com a estrutura do ego cogito e da representação; o sujeito cartesiano ou kantiano, entendido como mero polo formal que sintetiza e unifica as experiências conscientes, desvanece por completo.
    • A dinâmica fenomenológica do fruir vincula-se etimologicamente à exuberância — imagem latina do transbordamento corporal e da abundância do leite materno — e à noção de êxtase em Heidegger e Schelling, compreendida não como abstração mística, mas como arremesso real do ser para fora de suas fronteiras estáveis.
    • Conclui-se que o núcleo do acontecimento reside justamente na perda provisória ou radical da capacidade de o indivíduo dizer e sustentar um “eu” reflexivo e soberano.
  • O paroxismo destrutivo em Sade e a proximidade assintótica com a dor
    • Diante da objeção de que a fala cotidiana ainda enuncia “eu gozo”, Nancy recorre aos romances do Marquês de Sade para ilustrar que essa afirmação não expressa o comando de uma vontade livre, mas sim uma confissão arrancada à força pelo próprio arrebatamento físico.
    • Na dramaturgia sadiana, o ato de gozar inscreve-se em um duplo vetor de aniquilação: uma pulsão possessiva que destrói o objeto para abrir um abismo no lugar onde ele repousava, articulada a um movimento inverso em que o próprio executor arrisca a sua integridade corpórea.
    • A ilustração dos libertinos que se submetem ao enforcamento ritual para atingir o clímax da ejaculação evidencia que a fala extática e a imprecação blasfema ocorrem no ápice do descomedimento e do desvario.
    • A dor não surge como oposto exterior do prazer, mas o acompanha de modo tangencial ou assintótico; a vertigem do gozo nasce precisamente no limiar crítico em que o acúmulo intolerável da tensão nervosa excede a si próprio e atinge o colapso.
  • As insuficiências da tradução e a incomensurabilidade do desejo
    • Analisa-se a singularidade do vocábulo francês jouissance, cuja polissemia raras vezes encontra correspondentes diretos em idiomas vizinhos; em inglês, o ato é designado pela dinâmica espacial do vir (come), ao passo que o alemão Genuss apoia-se predominantemente na ideia de satisfação (Zufriedenheit).
    • Nancy rejeita a redução do gozo à mera satisfação de carências: enquanto a satisfação pressupõe uma medida objetiva, finita e prévia — análoga à capacidade aquisitiva de recursos materiais —, o gozo opera intrinsecamente na ausência de qualquer medida, teto ou contenção métrica.
    • Essa ausência de limite quantitativo explica a proximidade orgânica entre o gozo e a criação estética: a humanidade não cessa de produzir obras artísticas porque a arte não visa cobrir uma falta delimitada nem resulta de mera repetição mecânica, brotando do anseio perene de abrir novas sensibilidades perceptivas.
    • O que se renova incessantemente no ato estético e no apetite erótico é a exigência ontológica de engendrar sentido, mostrando que o ímpeto humano de significar o mundo é inextinguível.
  • A desconstrução do sujeito moderno: a pulsão e o mito
    • Confrontado sobre se a busca por sentido não exigiria afinal a presença de um sujeito intencional, Nancy propõe inverter a perspectiva clássica: não é o eu individual que rege o desejo, mas é o próprio desejo que opera como sujeito da experiência.
    • Essa primazia ecoa o aforismo de que é a linguagem que nos fala, assim como a tese audaciosa de Sigmund Freud ao equiparar a teoria das pulsões a uma mitologia necessária à compreensão das potências que nos movem.
    • O termo pulsão (Trieb) é resgatado em seu sentido originário de empurrão ou impulsão primordial; da mesma forma que Martin Heidegger concebe a existência lançada (Geworfenheit) no próprio fato de ser, o gozo traduz essa mesma força propulsora que escapa à justificação reflexiva.
  • O falso isolamento do autoerotismo e o quiasma corporal
    • Nancy refuta veementemente a crença na existência de um gozo rigorosamente solitário, pontuando que o indivíduo que vivencia a intensidade erótica não se encontra fechado em si, mas assujeitado a um apelo que procede da exterioridade e do conjunto dos viventes.
    • Mesmo nas condutas masturbatórias comumente tidas como fechadas, instala-se uma cisão interna incontornável, operada ora pela mediação dos fantasmas psíquicos, ora pela duplicação cinestésica do próprio organismo físico.
    • Mobilizando o clássico entrelaçamento fenomenológico formulado por Maurice Merleau-Ponty, constata-se que a mão que toca a si mesma vivencia a simultaneidade insuperável de ser corpo senciente e corpo sentido, situando a consciência do sujeito irrevogavelmente fora de suas defesas solipsistas.
    • O corpo vivente desarticula a oposição abstrata entre o ter e o ser: ser um corpo impede tratá-lo como mera ferramenta externa, ao mesmo tempo em que ter um corpo impede a redução da existência a um espírito puramente desencarnado.
  • A alteridade real contra o reducionismo do fantasma
    • Embora a psicologia analítica costume postular a onipresença de construções imaginárias no intercurso corporal, Nancy enfatiza a primazia do corpo empírico e singular da outra pessoa, o qual se apresenta como presença externa radical e irredutível ao meu horizonte psíquico.
    • O verdadeiro gozo compartilhado não reside em uma sincronia mecânica de orgasmos nem na subordinação funcional de um parceiro pelo outro, repousando na reciprocidade sensível de ser afetado pelo estremecimento que atravessa o outro corpo.
    • A leitura feita por Maurice Blanchot do texto de Marguerite Duras (A Doença da Morte) é examinada a partir da figura do homem que assiste perplexo à entrega de uma mulher sem conseguir penetrar na essência daquela experiência, ilustrando que a satisfação reside paradoxalmente naquilo que recusa a apreensão objetiva.
    • O instante de arrebatamento liga-se indissociavelmente ao vocativo da conclamação e da resposta mútua (“vem!”), demonstrando que o abandono de si sempre demanda a destinação a outrem.
  • A interpretação da jouissance feminina segundo Jacques Lacan
    • Debate-se a postulação lacaniana a respeito da especificidade do gozo feminino, a qual não deve ser lida a partir de determinismos anatômicos rígidos, mas como um registro ontológico aberto ao Grande Outro.
    • Enquanto o gozo masculino tende frequentemente a se degradar na busca obsessiva por reparação fálica e tentativa de estancar a falta castratória, a dinâmica dita feminina situa-se na exposição desarmada àquilo que transcende os limites formais da linguagem discursiva e da posse instrumental.
    • Essa polaridade não exclui a presença cruzada de ambas as dimensões no interior de qualquer pessoa, reafirmando a compreensão freudiana de que traços masculinos e femininos coexistem de maneira intrincada e fluida em cada indivíduo singular.
  • O corpo sem órgãos, a pulsão de morte e a carícia perigosa
    • No desenrolar do contato íntimo mais denso, as funcionalidades anatômicas convencionais do corpo orgânico são suspensas em favor da constituição de um corpo sem órgãos — nos termos formulados por Antonin Artaud —, engendrado unicamente pelo calor das intensidades desejantes.
    • Essa desfiguração funcional desloca o primado da visão especular e remete os amantes a uma tateabilidade limite, onde a carícia facilmente avança sobre o contorno do ferimento físico, como ilustrado no filme Trouble Every Day, de Claire Denis, no qual a aproximação erótica culmina na mordida canibal.
    • O desejo de abraçar uma finitude comum revela-se um tema universal nas dramaturgias amorosas de civilizações diversas — do imaginário trágico ocidental aos cantos andinos recolhidos na obra musical Harawi, de Olivier Messiaen —, evidenciando o perigo mortal que cerca a fantasia de uma consumação terminativa.
    • A busca doentia por uma saciedade terminal rebaixa e inverte o próprio dinamismo afirmativo do gozo, transformando o que deveria ser abertura ilimitada à vida em uma pulsão mortífera de autoaniquilação estéril.
  • A impossibilidade da fusão e a conquista da absolitude
    • O célebre juízo de Lacan de que “não existe relação sexual” não decreta a inviabilidade biológica do acasalamento, mas denuncia a inexistência de uma fórmula harmônica, conclusiva ou redutível a proporções numéricas estáveis entre dois seres irremediavelmente separados.
    • A incomensurabilidade e a recusa de uma síntese acabada constituem a garantia indispensável para a manutenção viva do vínculo afetivo, visto que a consumação totalitária resultaria no abafamento da alteridade ou na extinção completa do próprio espaço do desejo.
    • Dialogando criticamente com as teses de Georges Bataille sobre a impossibilidade da comunhão extática perfeita, Nancy adverte que a almejada fusão destruiria os próprios termos que anseiam por unir-se, reafirmando que o erotismo lida com o acesso permanente a um território que permanece sem acesso objetivável.
    • O ápice do gozo não desemboca em isolamento autista nem em diluição panteísta, instaurando antes o estado de absolitude: uma condição vertiginosa na qual o sujeito, irremediavelmente apartado de suas certezas substanciais, descobre-se absolutamente despojado e exposto à solidão infinita do outro.
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