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estudos:nancy:2006:4

4 Seja escrever ao corpo

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.

29. É assim que a ontologia se revela como escrita, querendo dizer “escrita” não a monstração nem a demonstração de uma significação, mas um gesto para tocar o sentido, um toque, um tato que é como um endereçamento: quem escreve não toca no modo da apreensão, da tomada em mão (do begreifen = agarrar, apoderar-se, palavra alemã para “conceber”), mas toca no modo de se endereçar, de se enviar ao toque de um fora, de um subtraído, de um afastado, de um espaçado.

30. Escrever se endereça assim: escrever é o pensamento endereçado, enviado ao corpo, isto é, àquilo que o afasta, que o estranha, mas é desde meu corpo que sou endereçado ao meu corpo, é desde os corpos que o “eu” da escrita é enviado aos corpos, sendo desde meu corpo que tenho meu corpo como a mim estrangeiro, expropriado — o corpo é o estrangeiro “lá longe” (lugar de todo estrangeiro) porque está aqui.

31. A escrita se endereça (nos endereça) de cá para lá, no mesmo aqui, sendo isso o que também está escrito em hoc est enim: se não é a transubstanciação (isto é, a encarnação generalizada, a imanência da transcendência absolutamente mediatizada), é ao contrário esse afastamento das substâncias ou dos sujeitos que sozinho lhes deixa suas chances singulares, nem imanentes nem transcendentes, mas na dimensão do endereçamento, do espaçamento — assim os corpos dos amantes não se entregam à transubstanciação, mas se tocam e renovam infinitamente seu espaçamento.

32. A “ontologia do corpo” equivale à excrição do ser: existência endereçada ao-fora — ali não há endereço nem destinação, e no entanto (mas como?) há destinatário: eu, tu, nós, os corpos enfim — sendo os corpos o próprio existir, o ato mesmo da ex-istência, o ser, e escrever aos corpos (o que mais faz o escritor?) será enviado ao ser, ou ainda, o ser se enviando (o que mais pensa o pensamento?).

33. É desde os corpos que temos, para nós, os corpos como nossos estrangeiros, nada tendo a ver com dualismos, monismos ou fenomenologias do corpo, não sendo o corpo nem substância, nem fenômeno, nem carne, nem significação, mas o ser-excrito, exigindo isso uma medida infinita sempre retraçada desse afastamento, passando a excrição pela escrita e certamente não por êxtases da carne ou do sentido.

  • “Se escrevo, faço efeitos de sentido — coloco cabeça, ventre e cauda — e me afasto, portanto, dos corpos. Mas justamente: é preciso isso, é preciso uma medida infinita, sempre retraçada, desse afastamento.”
  • “Se escrevo, esta mão estrangeira já está deslizada em minha mão que escreve.”

34. Daí não ser possível escrever “ao” corpo, ou escrever “o” corpo, sem rupturas, reviravoltas, descontinuidades, discrição, nem mesmo sem inconsequências e contradições no próprio discurso, sendo preciso jogar-se, através desse “sujeito”, e o próprio vocábulo corpo impõe uma dureza seca e nervosa que estala as frases em que é empregado.

35. Talvez corpo seja a palavra sem emprego por excelência, a palavra em excesso de toda a linguagem, mas esse “em excesso” ao mesmo tempo não é nada, não se assinalando por desencadeamentos urrantes ou cantantes de fora-da-língua, nem por abismos de silêncio, mas fazendo apenas uma ínfima saliência, uma excrescência minúscula jamais reabsorvida, trazendo consigo a iminência sempre possível de uma fratura e de um extravasamento da palavra sozinha para fora das veias de sentido em que circulava com as outras.

36. Algo apela, portanto, ao fragmento, aqui mais do que em qualquer outro lugar, respondendo de fato a fragmentação da escrita, onde quer que tenha lugar, a uma instância repetida dos corpos na — contra a — escrita: uma interseção, uma interrupção, essa infração de toda linguagem onde a linguagem toca o sentido.

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