User Tools

Site Tools


estudos:nancy:2003:start

Noli me tangere

NANCY, Jean-Luc. Noli me tangere. Paris: Bayard, 2003

Prólogo

1. Toda a iconografia cristã e pós-cristã, tanto oriental quanto ocidental, representou os episódios da história ou lenda de Jesus de Nazaré, e uma sociedade e uma cultura inteiras identificaram-se, na vigência dessas imagens, como “Cristandade”, tendo pintores, escultores e, em menor medida, músicos tomado cada momento desse relato exemplar como motivo de sua obra, desde o anúncio da concepção de Cristo até sua partida deste mundo.

2. O relato evangélico apresenta-se como sucessão de cenas cujo fio narrativo é frouxo, sendo os episódios menos momentos de uma progressão do que estações de ilustração espiritual combinadas na forma da parábola, de modo que a vida inteira de Jesus constitui a representação da verdade que ele próprio afirma ser, não como ilustração de uma verdade invisível, mas como a vida que é exatamente a verdade que se apresenta ao se representar, tornando-se a própria verdade parabólica e identificando-se o logos com a figura ou a imagem.

  • A parábola é designada nos textos evangélicos como o modo próprio do ensinamento de Jesus, ao menos de suas pregações públicas.
  • A fé crê não apenas em verdades significadas ou traduzidas por um profeta, mas sobretudo na apresentação efetiva da verdade como vida ou existência singular.
  • “Quem me viu a mim viu o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?”
  • A revelação constitui a identidade entre o revelável e o revelado, entre o divino e o humano ou o mundano, implicando a identidade entre a imagem e o original e, por conseguinte, entre o invisível e o visível.

3. O relato evangélico, tomado como parábola de parábolas, oferece-se simultaneamente como texto a ser interpretado e como história verdadeira, sendo a verdade e a interpretação idênticas entre si, sem que essa identidade signifique que a verdade apareça ao fundo da interpretação nem que ela seja tão infinita e múltipla quanto as interpretações sempre recomeçadas, devendo antes ser compreendida a partir do pensamento próprio da parábola.

4. Ao ser interrogado pelos discípulos sobre o uso das parábolas, Jesus responde que elas se destinam àqueles a quem não foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus, cumprindo-se nesses ouvintes a palavra de Isaías segundo a qual ouvirão sem entender e verão sem perceber, de modo que o objetivo da parábola é antes sustentar a cegueira dos que não veem do que esclarecer por meio de figuração, procedendo de uma recusa ou de uma negação da pedagogia, e não de uma pedagogia da figuração.

  • “a quem não foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus”
  • “Aqueles que, vendo, não veem; e ouvindo, não ouvem nem entendem”
  • “Ouvindo, ouvireis, e não entendereis; e vendo, vereis, e não percebereis”
  • “A quem tem, mais lhe será dado, e terá em abundância; mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado”

5. A expressão “os que, vendo, não veem” é a mesma empregada em outros textos do Antigo e do Novo Testamento para designar tanto os ídolos quanto seus adoradores, sendo o culto dos ídolos condenado não como relação com imagens, mas na medida em que esses deuses e os olhos que os cultuam não acolheram previamente em si a visão anterior a tudo o que é visível, do que decorre ser preciso já ter para poder receber, pois a disposição receptiva só pode ela mesma já ter sido recebida, o que constitui a condição da receptividade, da sensibilidade e do sentido em geral.

6. A parábola não vai da imagem ao sentido, mas da imagem a uma visão ou a um ver que já está dado ou não está, falando apenas àqueles que já a compreenderam e mostrando apenas àqueles que já viram, ocultando dos demais o que há para ver e até mesmo o fato de que algo há para ver, o que não deve ser interpretado, contra a leitura religiosa comum, como reserva da verdade a poucos eleitos nem como visão provisória que impulsiona uma busca posterior, devendo antes pensar-se a presença ou a ausência da visão espiritual como direta e imediatamente correlativas, de modo que Jesus, ao traduzir por vezes suas parábolas aos discípulos, apenas lhes restitui a visão que já possuíam.

  • “Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque veem”
  • “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”

7. A parábola não deve ser situada na relação entre a figura e o próprio, entre a aparência e a realidade, ou na relação mimética, mas na relação entre a imagem e a visão, de modo que a imagem é vista quando é visão, e a visão só vê quando é dada com a imagem e nela, havendo entre ambas não imitação, mas participação e penetração, sendo a participação da visão no visível e do visível no invisível nada além do próprio ver, no que a méthexis presente na mímesis constitui um dos termos do quiasma greco-judaico em que se configura a invenção cristã.

8. Por essa razão a parábola está longe de se reduzir à fórmula da alegoria, participando do dom de ver e desse “mais” assegurado àqueles que já têm, de modo que nela há mais do que uma figura, mas também, inversamente, mais do que um sentido primeiro ou último, configurando-se um duplo excesso de visibilidade e de invisibilidade.

9. As parábolas conservaram sua força muito além da esfera religiosa, de modo que em expressões como “o joio”, “o bom samaritano”, “o filho pródigo” ou “os trabalhadores da undécima hora” ressoa um brilho singular e um suplemento de significação irredutível, válido tanto para a religião cristã quanto para a moral secularizada que um europeu instruído ainda associa a essas figuras, as quais, embora enquanto depósitos culturais pouco se distingam de figuras mitológicas como “Hércules na encruzilhada” ou as ninfas dos bosques e das fontes, diferem destas por permanecerem obstinadamente “tautegóricas” - isto é, exprimindo-se a si mesmas e não outra coisa, segundo o termo cunhado por Schelling para caracterizar precisamente o mito em sua força própria -, valendo o mesmo para as fábulas quanto para as parábolas, cuja verdade excede sempre o sentido que lhes confere uma “moralidade”, situando-se o além-do-sentido bem no meio da figuralidade visível, ainda que, de Fedro a La Fontaine, a fábula corresponda apenas a uma verdade caracteristicamente desencantada, avesso do mito enquanto lição sem grandeza sagrada.

  • Há mais em “A cigarra e a formiga” do que a oposição entre a despreocupação e a laboriosidade da previdência.

10. A parábola cristã abre uma outra via, à qual toda a literatura moderna - e talvez toda a arte moderna - possivelmente guarda uma relação essencial, sendo o excesso de sua verdade não da ordem de uma lição geral desproporcionada a cada caso particular, mas ligado primeiramente à sua proveniência e ao seu endereçamento, de modo que não há mensagem sem que haja antes, ou nela mesma, um endereçamento a uma capacidade ou aptidão para escutar, constituindo antes uma advertência do que uma exortação: se não se compreende, não se deve buscar a razão numa obscuridade do texto, mas somente em si mesmo, na obscuridade do próprio coração, havendo mensagem para quem quer e sabe recebê-la, e nada para o ouvido fechado, mas mais do que uma lição para o ouvido aberto.

  • “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”

11. Antes de seu sentido próprio, ou infinitamente além dele, o texto ou a palavra exige primeiramente seu ouvinte, aquele que já entrou na escuta própria desse texto e que, por isso mesmo, já entrou no texto mesmo, em seu movimento mais íntimo de sentido ou de passagem além do sentido e de seu desobramento, exigência que também significa que a parábola espera o ouvido que sabe escutá-la e que somente ela pode abrir o ouvido para sua própria capacidade de ouvir, tal como mais tarde se dirá que um autor deve encontrar seus próprios leitores ou, o que é o mesmo, que é o autor quem cria seus próprios leitores, tratando-se sempre do surgimento súbito do sentido ou do além-do-sentido, de um eco singular no qual me ouço a mim mesmo me dirigindo e respondendo a mim mesmo na voz do outro, ao ouvido do outro como ao meu próprio ouvido, mais próprio.

12. Distinguir a fé da crença, sem possível reconciliação entre as duas, corresponde a distinguir a religião da literatura e da arte, entendidos estes termos em toda a sua verdade, pois enquanto a crença estabelece ou pressupõe uma mesmidade do outro com a qual se identifica e na qual encontra consolo, a fé se deixa endereçar por um apelo inquietante vindo do outro, lançada numa escuta que eu mesmo desconheço, tratando-se, de fato, de ouvir o próprio ouvido escutando, de ver o próprio olho olhando, mesmo naquilo que o abre e naquilo que se eclipsa nessa abertura.

estudos/nancy/2003/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1