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estudos:merleau-ponty:1948:1.2

1.2

MERLEAU-PONTY, Maurice. Sens et non-sens. Paris: Nagel, 1948. (Collection Pensées).

1. A obra de um grande romancista é sempre sustentada por duas ou três ideias filosóficas, como o Eu e a Liberdade em Stendhal, o mistério da história como aparição de um sentido no acaso dos acontecimentos em Balzac, o envolvimento do passado no presente em Proust. Cabe ao romancista não tematizar essas ideias, mas fazê-las existir diante de nós como coisas. Surpreende, porém, que os escritores reconheçam tão mal seus parentescos quando se voltam deliberadamente para as filosofias, como se houvesse entre filosofia e literatura não apenas diferenças técnicas, mas uma diferença de objeto.

  • Stendhal elogia os ideólogos, Balzac formula suas visões sobre as relações expressivas da alma e do corpo na linguagem do espiritismo, Proust traduz sua intuição do tempo ora em relativismo cético, ora em esperanças de imortalidade, e Valéry desautoriza os filósofos que queriam anexar sua Introdução ao método de Leonardo da Vinci.

2. Desde o fim do século XIX, filosofia e literatura estreitam suas relações, como mostram formas híbridas entre diário íntimo, tratado e diálogo, das quais a obra de Péguy é exemplo. Abriu-se uma nova dimensão de pesquisa: “todo mundo tem uma metafísica, patente ou latente, ou então não existe”, e trata-se expressamente de fixar uma posição em relação ao mundo, de que literatura, filosofia e política são expressões diferentes.

3. Isso atesta a necessidade histórica da filosofia existencial, tomada de consciência de um movimento mais antigo que ela. A metafísica clássica pôde passar por especialidade alheia à literatura porque funcionava sobre um fundo de racionalismo incontestado e pretendia explicar o mundo por um arranjo de conceitos. Platão falava do mesmo e do outro, Descartes de Deus, Kant da consciência, e não do outro que existe diante de mim nem do eu que sou: os filósofos acabavam representando a própria existência num teatro transcendente, numa dialética ou em conceitos, e o metafísico se sobrepunha a uma robusta natureza humana nunca posta em questão.

4. Tudo muda quando uma filosofia fenomenológica ou existencial se propõe não explicar o mundo nem descobrir suas “condições de possibilidade”, mas formular uma experiência do mundo anterior a todo pensamento sobre ele. O metafísico no homem já não se refere a um além de seu ser empírico, Deus ou a Consciência, mas está em seus amores, ódios e histórias, e a metafísica não é mais, como dizia Descartes, questão de algumas horas por mês, mas está presente, como pensava Pascal, no menor movimento do coração.

5. A tarefa da literatura e a da filosofia já não podem ser separadas: para fazer falar a experiência do mundo, a expressão filosófica assume as mesmas ambiguidades da literária, se o mundo só pode ser exprimido em “histórias” e como que apontado com o dedo. O romance e o teatro serão metafísicos de ponta a ponta, mesmo sem vocabulário filosófico, e uma literatura metafísica será, em certo sentido, amoral, pois não há mais natureza humana em que se apoiar, e a invasão do metafísico faz explodir o que era apenas um “velho costume”.

6. O desenvolvimento de uma literatura metafísica e o fim de uma literatura “moral” é o que significa A convidada, de Simone de Beauvoir, e, diante das acusações de imoralidade dirigidas a seus personagens, cabe ver se não há uma “verdadeira moral” além da “moral” de que eles zombam.

II

1. Há na condição de ser consciente um mal-estar perpétuo: a coisa percebida já estava ali antes, cercada por um horizonte infinito de coisas, espetáculos dados a ninguém, como revelam o apito de uma locomotiva na noite ou a sala de teatro vazia. Um velho paletó numa cadeira, tomado como se apresenta, é um enigma, pois ocupa seu espaço como nenhuma consciência poderá ocupar um lugar, é em si, e cada coisa afirma seu ser despojando a consciência do seu. Habitualmente, porém, retém-se desse saber apenas o que tranquiliza: a coisa precisa de um olhar para existir, a paisagem só se torna paisagem quando descoberta, e a consciência se toma por puro testemunho, sem lugar nem idade, capaz de igualar o mundo.

2. Assim se sublima a experiência do Outro, cuja transcendência resiste mais que a das coisas: se outrem é consciência, é preciso consentir em ser para ele um objeto finito, visível num lugar do mundo. Tenta-se, então, adormecer a inquietante existência de outrem, e Françoise permanece o centro do mundo, espectadora indestrutível, imparcial e generosa, sem corpo e sem vida privada, em quem coexistem todos os outros.

  • “Os pensamentos deles”, diz Françoise, “são para mim como suas palavras e seus rostos: objetos que estão no meu mundo.”
  • “Françoise sorriu: não era bonita, mas gostava de seu rosto; era sempre uma surpresa agradável encontrá-lo num espelho. Normalmente, não pensava que tinha um.”
  • “No centro do dancing, impessoal e livre, eu estou aqui. Contemplo ao mesmo tempo todas essas vidas, todos esses rostos. Se me afastasse deles, logo se desfariam como uma paisagem abandonada.”

3. A certeza de Françoise é reforçada porque o próprio amor não a fez tocar seus limites: Pierre não é para ela objeto nem Outro, e ambos construíram uma sinceridade e uma máquina de linguagem que lhes permite permanecer juntos no que vivem separadamente. “Havia uma única vida e, no centro, um ser de que não se podia dizer nem ele nem eu, mas apenas nós”, e Pierre é para Françoise uma conduta tão clara quanto para ele mesmo, num mundo comum aos dois.

4. Há, desde o início, fissuras nessa construção: o livro começa com um sacrifício de Françoise, que renuncia a Gerbert, e o alhures e o outro são apenas recalcados. O mundo comum que suas conversas recriam talvez seja um meio artificial, que troca as complacências da vida interior pelas da vida a dois, e, como as crianças, Françoise recua diante do novo que ameaça seu meio. Os outros sentem-se excluídos por esse prodígio de duas cabeças, e o amor de Pierre e Françoise só resiste às outras aventuras de Pierre se ele as contar e nunca se engajar; ambos são livres para ser amados, mas não para amar, e Françoise busca em Xavière uma posse que a confirme.

  • “Olhou os belos olhos verdes sob os cílios curvos, a boca atenta: se eu tivesse querido… Talvez não fosse tarde demais. Mas o que podia ela querer?”
  • Pierre diz: “Sabes bem que nunca me sinto comprometido pelo que se passa em mim”; e: “Fazer-me amar por ela é impor-me a ela, introduzir-me em seu mundo e triunfar nele segundo seus próprios valores… Sabes que é o tipo de triunfo de que tenho uma necessidade maníaca.”
  • “O que a encantava sobretudo era ter anexado à sua vida essa pequena existência triste; nada dava a Françoise alegrias tão fortes quanto essa espécie de posse; os gestos de Xavière, seu rosto, sua própria vida precisavam de Françoise para existir.” Como a Europa sentia o imperialismo francês sob a política “universalista” da Convenção, os outros adivinham sob a generosidade do casal uma empresa calculada, e o outro só é admitido como convidado.

5. A presença de Xavière revela o drama metafísico que Pierre e Françoise haviam esquecido por uma renúncia geral: ela “não nasceu resignada”, recusa pôr sua vida em palavras e exige um silêncio que pode ser o dos equívocos, mas também o da adesão verdadeira. O drama poderia ser exposto em termos psicológicos, coquetismo, desejo e ciúme, mas seria superficial: o coquetismo é necessidade de valer para outrem com medo de engajar-se, o desejo é querer ocupar um ser, e o ciúme de Françoise diz que Pierre vive enfim um amor que nenhuma comunicação verbal reintegra ao universo dela. Françoise quis ligar-se a Pierre deixando-o livre, como no reino dos fins kantiano, e descobre a inerência individual, o si hegeliano que persegue a morte do outro.

  • “Não tenho uma alma pública”, diz Xavière, e a Pierre: “Esta noite vocês pareciam viver as coisas, pela primeira vez, e não apenas falar delas.”

6. Françoise assiste à ruína de seu mundo artificial: há um centro do mundo de que está excluída, as coisas recuam, o tempo se fragmenta, e ela descobre situações incomunicáveis que só se compreendem ocupando-as. O amor parece uma construção verbal, e Françoise, vista pelo casal, torna-se objeto: uma mulher de trinta anos, que nunca saberá dançar bem, que sente pela primeira vez ser seu corpo e passa a odiar a pureza e a moralidade que faziam parte da mesma ficção. Com a consciência alienada, que já não pode crer em si mesma, a morte torna-se a única verdade, e a doença surge como solução provisória, refúgio no mundo natural onde encontra uma paz gelada, sem que ela saiba jamais se a crise foi violenta pela doença que começava: toda vida é ambígua.

  • Na clínica, a temperatura e a primeira refeição tornam-se o grande assunto do dia, a garrafa de laranjada e a parede pintada recuperam valor, e os amigos surgem do nada como personagens de teatro.

7. Quando Françoise retoma seu lugar, Pierre e Xavière já se declararam, e ela decide não ceder ao sofrimento equívoco, talvez só se tenha sentido abandonada por se manter à parte, e poderia viver o trio assumindo-o como empresa sua. Perdeu as ilusões da comunicação sem obstáculos, da felicidade dada e da pureza, mas talvez a liberdade consista em ultrapassar as inerências terrenas aceitando-as, e Xavière os tenha libertado da escolástica em que seu amor morria.

  • “Se ela se decidisse enfim a lançar-se para a frente com todas as forças, em vez de ficar parada, de braços caídos e vazios… Era tão simples; esse amor que de repente lhe enchia o coração de doçura sempre estivera ao alcance da mão: era só estendê-la, essa mão medrosa e avara.”

8. Françoise estende a mão e acompanha Pierre em sua paixão ciumenta por Xavière, mas o trio fracassa, não por ser trio, pois o casal humano tampouco é realidade natural e só se faz por tarefas comuns. O amor é total, e um terceiro introduz uma segunda intenção em cada amor; o trio só existiria se cada um amasse os dois outros com o mesmo coração e vivessem a três, e não dois a dois em cumplicidades alternadas. Xavière é ciumenta, perversa e egoísta, nunca sai do instante e nunca se dá a um projeto, mas o juízo moral não vai longe: o amor antigo de Pierre e Françoise, que permite a esta aceitar o de Pierre por Xavière, é o que impede Xavière de aceitá-lo e talvez a torne incapaz de amar.

  • “Xavière não buscava o prazer dos outros; encantava-se egoisticamente com o prazer de dar prazer.”

9. Não é culpa de Xavière, de Françoise ou de Pierre, e é culpa de cada um: cada um é totalmente responsável, pois, se tivesse agido de outro modo, teria sido tratado de outro modo, e cada um pode sentir-se inocente, pois a liberdade dos outros lhe era invisível. Não há Juízo Final: não só não se conhece a verdade do drama, como não há avesso das coisas onde o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto se separem, e estamos misturados ao mundo e aos outros numa confusão inextricável.

10. Xavière vê Françoise como mulher abandonada, ciumenta, “armada de uma paciência azeda”, e Françoise já disse baixinho cada palavra desse juízo, que no entanto não é simplesmente verdadeiro. Nossas ações são, como diz Freud, “sobredeterminadas”, e seu sentido não está só nas intenções, mas nos efeitos que produzem fora e que também são, de certo modo, queridos: ao amar Gerbert, Françoise aceitou que isso aparecesse a Xavière como vingança. Os outros são as coordenadas permanentes da vida, e reconhecer-lhes o poder de nos ver é engajar-se a ser também o que pensam de nós, daí o crime que termina o livro, que não é solução, pois Xavière morta eternizará a imagem de Françoise que trazia consigo.

  • “Você tinha ciúme de mim porque Labrousse me amava. Você o desgostou de mim e, para se vingar melhor, tirou-me Gerbert.”
  • “Rígida como uma ordem. Austera e pura como um pedaço de gelo. Devotada, desdenhada, obstinada em morais ocas. E ela dissera: Não!”

11. Uma confissão de Xavière arrependida ou moribunda não teria resolvido nada, pois a exaltação do arrependimento ou dos últimos momentos não tem privilégio e nada prova que o convertido compreenda melhor a si e aos outros. Só resta agir segundo os juízos formados com toda a honestidade possível, como se fossem incontestáveis, sem jamais sentir-se absolvido pelo juízo alheio, pois um momento do tempo não apaga outro.

III

1. Não há inocência absoluta nem culpa absoluta, pois toda ação responde a uma situação de fato não inteiramente escolhida, como ter trinta anos diante de uma jovem de vinte ou ter nascido. Essa culpa original, imposta ao nos fazer nascer num tempo, num meio e com um rosto, ultrapassa toda culpa particular, e, como nossas ações mudam de sentido ao sair de nós e somos sempre vistos de outro modo, as acusações de fora parecem não nos concernir. Toda conduta seria absurda num mundo absurdo, e sempre se poderia declinar a responsabilidade, pois, pelo centro de nós mesmos, “não estamos no mundo” (Rimbaud).

  • Os momentos de Françoise com Gerbert no albergue são, em sua lembrança, radiantes e puros, e o mesmo amor mostra a Xavière um rosto ignóbil.

2. Permanecemos livres para aceitar ou recusar a vida, e, ao aceitá-la, assumimos as situações de fato e firmamos um contrato com o mundo e com os homens. Essa liberdade, condição de toda moralidade, funda também um imoralismo absoluto, pois permanece inteira após cada falta e nos torna novos a cada instante: quer se insista no condicionamento, quer na liberdade absoluta, não haveria valor intrínseco das ações, porque não há graus no absurdo nem na liberdade.

3. Os personagens de A convidada são desprovidos de “senso moral”: não encontram o bem e o mal nas coisas nem creem que a vida humana traga sua regra como a das árvores ou das abelhas, e tomam o mundo, com a sociedade e o próprio corpo, como “obra inacabada”, segundo Malebranche. O que se lhes censura não são seus atos, pois adultério e crime enchem os livros e todo lugar conhece algum ménage à trois, mas o fato de ignorarem a lei natural do casal e tentarem honestamente formar um trio. A sociedade admite o pecador porque ele não questiona os princípios, mas não suporta essa recusa ingênua da moral, sem vertigem nem remorso, de quem pensa como age e age como pensa.

4. Essas qualidades não vêm do ceticismo, e o imoralismo absoluto não é a última palavra da filosofia existencial. Há um existencialismo cético que conclui, da opacidade da linguagem e da falta de sentido dos atos isolados de seu contexto, que nada pode ser dito com certeza e toda conduta é insensata, como os gestos de alguém visto sem ser ouvido através da vidraça de uma cabine telefônica ou o procedimento de Voltaire em Micrômegas. Resta compreender a outra maravilha de que, num mundo absurdo, linguagem e condutas têm sentido para quem fala e age, e o existencialismo francês é sempre ameaçado de recair numa análise “isolante” que fragmenta o tempo em instantes descontínuos.

5. Simone de Beauvoir escapa a essa censura: seu livro mostra a existência entre dois limites, o imediato fechado sobre si, que é Xavière, e a confiança absoluta na linguagem e nas decisões racionais, existência que se esvazia à força de transcender-se, que é Françoise no início. Entre o tempo fragmentado e a falsa eternidade está a existência efetiva, que se desdobra em ciclos de conduta como uma melodia e atravessa o tempo sem deixá-lo; não há solução para os problemas humanos, mas a existência total é a decisão de entrar no tempo para criar a própria vida. Todo projeto é contraditório, e o amor só conta se o reconhecimento for sempre livre, nunca adquirido, mas há o amor e há comunicação, se não nos furtarmos a ela por má-fé, e a verdadeira moral não consiste em seguir regras exteriores, mas na boa-fé, na fidelidade às promessas, no respeito a outrem, na generosidade e na seriedade dos dois personagens principais: ser ativamente o que somos por acaso e estabelecer a comunicação com outrem e consigo de que a estrutura temporal oferece a chance e a liberdade é apenas o esboço.

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