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estudos:merleau-ponty:1945:1.4

1.4 Corpo próprio

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

A SÍNTESE DO CORPO PRÓPRIO

1. A análise da espacialidade corporal mostra, pela primeira vez a propósito do corpo próprio, o que vale para todas as coisas percebidas: a percepção do espaço e a percepção da coisa não são dois problemas distintos. Enquanto a tradição cartesiana e kantiana explica a coisa pelo espaço, a experiência do corpo enraíza o espaço na existência. Sob o espaço objetivo há uma espacialidade primordial que se confunde com o próprio ser do corpo, e a espacialidade do corpo é o desdobramento de seu ser de corpo.

  • O anosognósico que descreve o braço como “serpente longa e fria” sabe onde ele está, pois é ali que o procura; há uma presença e uma extensão afetivas das quais a espacialidade objetiva não é condição suficiente, como mostra a anosognosia, nem necessária, como mostra o braço fantasma.

2. A unidade do corpo tem a mesma estrutura de implicação do espaço: seus segmentos e seus aspectos visuais, táteis e motores não são coordenados passo a passo, mas envolvem-se uns nos outros num gesto único. O sujeito não está diante do corpo, é o próprio corpo, que se interpreta a si mesmo como “lei eficaz” de suas mudanças. O corpo não é comparável ao objeto físico, mas à obra de arte: um nó de significações vivas em que não se distingue a expressão do expresso.

  • Para alcançar o telefone, os movimentos da mão, do tronco e das pernas distribuem-se por si a partir de uma significação comum, e a criança, ao pegar, olha o objeto, e não a mão.
  • Não se reconhece a própria mão numa fotografia, mas reconhece-se de imediato a silhueta ou o andar filmados; na heautoscopia, o sujeito sabe absolutamente que o duplo é ele mesmo.
  • Um quadro, uma música, um poema ou um romance são indivíduos cujo sentido só se alcança por contato direto; o poema, embora ultrapasse a gesticulação vital, permanece preso às palavras sobre um papel frágil e existe como coisa, não como verdade eterna.

3. O hábito em geral esclarece a síntese do corpo próprio, pois todo hábito é ao mesmo tempo motor e perceptivo e reside na função que delimita o campo de visão e o campo de ação. A bengala do cego não é objeto percebido, mas instrumento com o qual se percebe, extensão da síntese corporal, e o objeto exterior não é o invariante de perspectivas, mas uma coisa de que as perspectivas são aspectos. O corpo, sistema de potências motoras e perceptivas, é um conjunto de significações vividas que tende ao equilíbrio e às vezes forma um novo nó de significações.

  • O intelectualismo concebe a passagem do signo à significação como interpretação, separando um conteúdo sensível já prenhe de sentido de um núcleo invariante que é coisa, e não lei, e mascarando a transcendência ativa da consciência.
  • A criança que aprende a distinguir azul de vermelho estende o ganho às demais cores, mas a categoria “cor” precisa enraizar-se na maneira como cada cor vibra e atinge o olhar; aprender a ver cores é adquirir um estilo de visão e reorganizar o esquema corporal.
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