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estudos:merleau-ponty:1945:0.4

0.4 Campo fenomenal

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

1. O sentir volta a ser uma questão. Longe de ser a posse de uma qualidade morta, é uma comunicação vital com o mundo que confere à qualidade um valor para o corpo e torna o mundo presente como lugar familiar da vida. A partir dele é preciso redefinir a associação, a passividade e o próprio entendimento, e a reflexão só atingirá o centro do fenômeno perceptivo se esclarecer ao mesmo tempo sua inerência vital e sua intenção racional.

  • A experiência comum e o uso romântico, como em Herder, conhecem um sentir que apreende propriedades ativas: a roda que sustenta um peso não é vista como a roda pousada no chão, e a chama da vela torna-se literalmente repelente para a criança que se queimou.
  • Distinguidos o sentir e a qualidade, a associação, ou melhor, a “afinidade” em sentido kantiano, torna-se o fenômeno central da vida perceptiva, constituição sem modelo ideal de um conjunto significativo.
  • Mutilar a percepção por baixo, esquecendo seu fundo instintivo e afetivo, é também mutilá-la por cima, pois se passa em silêncio o momento decisivo do surgimento de um mundo verdadeiro e exato.

2. Sensação e juízo perderam juntos sua clareza aparente, que só existia graças ao preconceito do mundo. A crítica da hipótese de constância e a redução da ideia de “mundo” abrem um campo fenomenal a ser circunscrito e situado em relação ao saber científico, à reflexão psicológica e à reflexão filosófica.

3. Ciência e filosofia foram sustentadas durante séculos pela fé originária da percepção num ser em si, cuja tese muda é a de uma experiência coordenável sem lacunas. Prolongando sem crítica esse ideal de conhecimento, chegou-se a uma filosofia em que o corpo vivo se torna exterior sem interior e a subjetividade interior sem exterior. A percepção passa a valer como ciência incipiente, e a ciência como percepção metódica e completa.

  • A ciência, amplificação do movimento constitutivo das coisas percebidas, fixou o ser em conceitos como o espaço geométrico indiferente a seus conteúdos e o deslocamento puro, sem saber que trabalhava sobre um pressuposto.
  • A fisiologia mecanicista converteu a expressão, o comportamento, a afetividade e a motricidade em processos causais em terceira pessoa, reduzindo o sentir à recepção de uma qualidade.
  • O corpo de outrem tornou-se uma máquina cuja consciência só é inferida, e o eu empírico, mistura bastarda de em si e para si, ficou sem estatuto diante do Eu constituinte, espectador imparcial.

4. Essa filosofia se destrói diante dos próprios olhos, pois o objeto natural, o organismo e a ideia de um universo de pensamentos ou de valores revelam seus limites. A ciência clássica é uma percepção que esquece suas origens e se crê acabada, e o primeiro ato filosófico consiste em retornar ao mundo vivido aquém do mundo objetivo, reencontrando o sistema “Eu-Outrem-as-coisas” em estado nascente.

  • A física precisou remanejar seus conceitos puros, e o organismo opõe à análise físico-química a dificuldade de princípio de um ser significativo.
  • A natureza só parece geométrica a quem se atém ao macroscópico, e a sociedade só pareceu comunidade de espíritos racionais em países favorecidos e por algum tempo; a experiência do caos exige compreender o surgimento da razão num mundo que ela não fez.

5. O campo fenomenal não é um mundo interior, e a experiência dos fenômenos não é introspecção nem intuição bergsoniana, mas explicitação da vida pré-científica da consciência, uma análise intencional. O imediato deixa de ser a impressão que coincide com o sujeito e passa a ser o sentido, a estrutura, o arranjo espontâneo das partes, que se “compreende” por apropriação.

  • Definido pela impressão, o interior escapava a toda expressão, e o imediato tornava-se uma vida solitária, cega e muda, incomunicável até ao próprio filósofo.
  • Afastado o preconceito das sensações, um rosto, uma assinatura ou uma conduta tornam-se conjuntos impregnados de significação imanente, e o psiquismo de outrem, como o próprio, é dado pelo sentido imanente dos comportamentos.
  • A consciência só esquece os fenômenos porque pode relembrá-los, já que eles são o berço das coisas, e a própria ciência toma deles seus modelos sem tematizá-los.

6. A psicologia fenomenológica difere em princípio da psicologia de introspecção, que, sem questionar a existência absoluta do mundo, realizava a consciência como “fato psíquico” e setor do ser. Ao tomar a Gestalt como tema, o psicólogo rompe com o psicologismo, pois o sentido do percebido determina as sensações em vez de resultar delas. Toda descrição fiel já implica a atitude transcendental e conduz ao problema da constituição do mundo.

  • Bergson, ao opor a “multiplicidade de fusão” à “multiplicidade de justaposição”, ainda descreve dois gêneros de ser em terceira pessoa, trocando a energia mecânica por uma energia espiritual.
  • Uma psicologia positiva da percepção, mesmo aceitando a consciência encerrada no corpo, é levada a perguntar se o mundo imediatamente presente não é o único de que se pode falar.

7. A reflexão psicológica ultrapassa-se a si mesma, e o campo fenomenal torna-se campo transcendental. Esse campo, porém, opõe à explicitação total uma dificuldade de princípio, pois a forma é o próprio aparecimento do mundo e o nascimento de uma norma, e não a realização de uma razão preexistente. A reflexão deve ser compreendida como operação criadora que participa da facticidade do irrefletido e reconhece como problema fundamental a presunção da razão.

  • A filosofia transcendental clássica visa um Ego meditante que possuiria sem resto sua experiência, mas jamais se pergunta se essa explicitação total é possível e julga o que é pelo que deve ser.
  • O Ego meditante não suprime sua inerência a um sujeito individual: continua a ver o sol “nascer” e a pensar com os instrumentos culturais de sua história; por isso o criticismo nunca pergunta “quem medita?” nem põe o problema de outrem.
  • O centro da filosofia está no começo perpétuo da reflexão, onde uma vida individual se põe a refletir sobre si, como reflexão-sobre-um-irrefletido e mudança de estrutura da existência.
  • Bergson erra ao crer que o sujeito possa fundir-se com o objeto, e as filosofias reflexivas ao crer que possam absorvê-lo sem resto; o individual só se alcança pela variação imaginária e pelo procedimento bastardo do exemplo.

8. A investigação da percepção precisava começar pela psicologia para seguir metodicamente o caminho que leva da atitude natural ao problema transcendental, sem supor uma dimensão transcendental eternamente dada. Também não podia começar apenas por ela, pois a descrição psicológica, purificada de todo psicologismo, só se torna método filosófico se ancorada em referências que mostrem de onde parece verdadeira: a experiência antecipa uma filosofia, e a filosofia é apenas experiência elucidada.

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