DESTRUIÇÃO (2018)
William McNeill. “The Fate of Phenomenology : Heidegger’s Legacy”, in FRIED, G.; POLT, R. (EDS.). After Heidegger? London ; New York: Rowman & Littlefield International, 2018
Como vimos, Heidegger desenvolveu sua concepção de destruição muito antes de Ser e Tempo. Embora a primeira aparição do termo Destruktion seja uma menção no curso sobre Problemas Básicos da Fenomenologia do semestre de inverno de 1919-1920 (GA58, 139), o tema já é antecipado no semestre anterior, em seu curso sobre Filosofia Fenomenológica e Transcendental do Valor no semestre de verão de 1919, onde Heidegger insiste na importância crítica da fenomenologia. A ideia de crítica fenomenológica, que logo seria entendida como destruição, não deveria, porém, ser tomada em sentido negativo, insistia Heidegger. Embora Heidegger aqui apresente o conceito de crítica fenomenológica em termos husserlianos — seu critério é “a compreensão evidencial das experiências vividas, de viver em e para si mesmo no eidos” —, ele não se preocupa com provas e refutações lógicas, nem com critérios impostos teoricamente, mas sim com questões históricas de proveniência (Herkunft) e motivação (GA56-57, 125–26). No semestre de verão de 1920, em seu curso sobre Fenomenologia da Intuição e da Expressão, a ideia de crítica fenomenológica tornou-se o que Heidegger chamou explicitamente de “destruição fenomenológico-crítica” (GA59, 29). Alguns anos mais tarde, em seu tratado Interpretações Fenomenológicas a Respeito de Aristóteles (Indicação da Situação Hermenêutica) (1922), Heidegger esclareceu ainda mais sua noção de crítica histórica intrínseca à fenomenologia em termos da necessidade de uma “crítica do presente”: “A crítica da história é sempre apenas crítica do presente. . . . A história é negada não porque seja ‘falsa’, mas porque ainda permanece eficaz no presente sem, no entanto, poder ser um presente autenticamente apropriado” (GA62, 350–51). A hermenêutica fenomenológica da facticidade, insiste Heidegger no mesmo texto, só pode ocorrer “no caminho da destruição”; e esta última é concebida como essencialmente regressiva, como um “regresso desconstrutivo” (abbauenden Rückgang) que penetrará nas “fontes motivacionais originais” subjacentes aos conceitos e categorias tradicionais usados para interpretar a vida factual (GA62, 368). A destruição é “o conhecimento ‘histórico’ (‘historisches’ Erkennen) no sentido radical do termo”; é o “confronto destrutivo (destructive Auseinandersetzung) da filosofia com sua própria história (Geschichte)”. Como tal, não é um retorno ao passado, mas “o caminho autêntico no qual o presente precisa se encontrar em seus próprios movimentos fundamentais (Grundbewegtheiten)”, ou seja, no que se move e está em ação no próprio acontecimento do presente em seu nível mais fundamental (GA62, 368).
