ALÉM DA ONTOLOGIA (1991:I-IV)
LEVINAS. Totalité et infini. Essai sur l’extériorité, 1961; Poche « biblio », 1971 / Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1988.
Além do em-si e do para-si do desvelado, eis a nudez humana, mais exterior que o fora do mundo das paisagens, das coisas e das instituições, a nudez que clama sua estranheza ao mundo, sua solidão, a morte dissimulada em seu ser ela clama, no aparecer, na vergonha de sua miséria oculta, ela clama a morte na alma; a nudez humana me interpela ela interpela o eu que sou ela me interpela de sua fraqueza, sem proteção e sem defesa, de nudez; mas ela me interpela também de estranha autoridade, imperativa e desarmada, palavra de Deus e verbo sem face humana.
Este livro contesta que a síntese do conhecimento, a totalidade do ser abrangida pelo eu transcendental, a presença capturada na representação e no conceito e o questionamento sobre a semântica da forma verbal do ser, etapas inevitáveis da Razão, sejam as instâncias últimas do sentido. Elas trazem ou conduzem à capacidade de garantir a harmonia de um mundo e, assim, manifestar a Razão até o fim? A razão até o fim ou a paz entre os homens. Para essa paz, talvez não seja suficiente desvelar todas as coisas e afirmá-las e confirmá-las, em seu lugar em si e para si na verdade onde elas aparecem em original, em casa como garantias, e onde, em sua própria exterioridade, elas já se mostram, mas, por isso, ficam à mão e são tomadas e compreendidas e disputadas entre os homens e possuídas e trocadas e podem ser úteis uns aos outros. Mas como uns chegam aos outros? O problema da paz e da razão é abordado em Totalidade e Infinito a partir de uma conjuntura diferente e, sem dúvida, mais antiga.
Além do em si e do para si do revelado, eis a nudez humana, mais exterior do que o exterior do mundo das paisagens, das coisas e das instituições, a nudez que grita sua estranheza ao mundo, sua solidão, a morte dissimulada em seu ser, ela grita, ao aparecer, a vergonha de sua miséria oculta, ela grita a morte na alma; a nudez humana interpela-me, interpela o eu que sou, interpela-me com a sua fraqueza, sem proteção e sem defesa, com a sua nudez; mas interpela-me também com uma estranha autoridade, imperativa e desarmada, palavra de Deus e verbo no rosto humano. Rosto, já linguagem antes das palavras, linguagem original do rosto humano despojado da contenção que ele se dá ou que suporta sob os nomes próprios, os títulos e os gêneros do mundo. Linguagem original, já pedido, já, como tal precisamente, miséria, para o ser em si, já mendicância, mas já também imperativo que do mortal, que do próximo, me faz responder, apesar da minha própria morte, mensagem da difícil santidade, do sacrifício; origem do valor e do bem, ideia da ordem humana na ordem dada ao humano. Linguagem do inaudível, linguagem do inédito, linguagem do não dito. Escrita!
Ordem que toca o eu em sua individualidade de ainda estar encerrado no gênero ao qual pertence segundo o ser, ainda sendo intercambiável na comunidade lógica da extensão do gênero, mas já despertado para sua singularidade de insubstituível, ordenado à singularidade, logicamente indiscernível, de mônada, a uma singularidade de eleito, na responsabilidade irrecusável que é o amor, fora de toda concupiscência, mas amor que liga ao amado, isto é, ao “único no mundo”.
Da singularidade à singularidade transcendência; fora de toda mediação de toda motivação que possa ser extraída de uma comunidade genérica, fora de toda parentesco prévio e de toda síntese a priori amor de estrangeiro a estrangeiro, melhor do que a fraternidade no seio da própria fraternidade. Gratuidade da transcendência-ao-outro interrompendo o ser sempre preocupado com esse mesmo ser e com sua perseverança no ser. Interrupção absoluta da ontologia, mas no um-para-o-outro da santidade, da proximidade, da socialidade, da paz. Socialidade utópica que, no entanto, comanda toda a humanidade em nós e onde os gregos perceberam a ética.
Comando na nudez e na miséria do outro, que ordena a responsabilidade pelo outro: além da ontologia. Palavra de Deus. Teologia que não procede de nenhuma especulação sobre o além dos mundos posteriores, de nenhum conhecimento que transcenda o conhecimento. Fenomenologia do rosto: ascensão necessária a Deus, que permitirá reconhecer ou recusar a voz que, nas religiões positivas, fala às crianças ou à infância de cada um de nós, já leitores do Livro e intérpretes da Escritura.
A pesquisa em que se engaja Totalidade e Infinito não consiste, certamente, em questionar a fenomenologia do objeto abrangido por sua ciência, da presença que se presta à sua apreensão, do ser refletido em sua ideia do pensado sempre à medida de seu pensamento, correlação e correspondência do rigoroso paralelismo neótico-neomático da intencionalidade que anima a consciência transcendente na admirável obra husserliana. E, sem dúvida, o teórico que, em todas as formas dessa consciência (pensamentos, segundo o testamento filosófico de Brentano), permanece o fundamento indispensável ou o modo privilegiado de toda consciência, seja ela afetiva, axiológica ou volitiva. Mas no discurso de Totalidade e Infinito não foi esquecido o fato memorável de que, em sua terceira Meditação da primeira filosofia, Descartes encontrou um pensamento, uma noese, que não estava à altura de seu noema, de seu cogitatum. Uma ideia que deslumbrava o filósofo em vez de se alojar na evidência da intuição. Pensamento que pensava mais ou pensava melhor do que pensava de acordo com a verdade. Pensamento que também respondia com adoração ao Infinito, do qual era o pensamento. Para o autor de Totalidade e Infinito, isso foi uma grande surpresa após a lição sobre o paralelismo neótico-neomático no ensino de seu mestre Husserl, que se dizia discípulo de Descartes! Ele então se perguntou se ao amor do “amor pela sabedoria”, se ao amor que é a filosofia vinda dos gregos — era querida apenas a certeza dos conhecimentos que investem o objeto ou a certeza ainda maior da reflexão sobre esses conhecimentos; ou se essa sabedoria amada e esperada pelos filósofos não era, além da sabedoria do conhecimento, a sabedoria do amor ou a sabedoria como forma de amor. Filosofia como amor ao amor. Sabedoria que ensina o rosto do outro homem! Não foi ela anunciada pelo Bem além da essência e acima das Ideias do livro VI da República de Platão? Bem, em relação ao qual aparece o próprio ser. Bem, do qual o ser tira a iluminação de sua manifestação e sua força ontológica. Bem, em vista do qual “toda alma faz o que faz” (Rep. 505 e).
