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Ser e Tempo (1927)
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Caráter singular e inaugural de Ser e Tempo, cujo surgimento, publicação e recepção imediatamente configuram uma época, estabelecendo um diálogo com sua destinação historial.
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Contexto de sua gênese: Heidegger chega a Marburgo em 1923 sem publicações desde 1916, mas sua reputação como professor atrai estudantes.
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A pressão para obter a cátedra titular, diante da ausência de publicações, força-o a preparar para publicação o manuscrito no qual trabalhava desde 1922.
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O projeto inicial (1922) era uma explicação fundamental com os conceitos básicos de Aristóteles no horizonte de uma hermenêutica da “vida factiva”.
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Entre 1922 e 1926, o trabalho sofre transformações, deslocando o foco de Aristóteles para a questão do ser.
Publicação e recepção imediata: O livro aparece em 1927 nas Annalen de Husserl e Scheler e em separata pela editora Niemeyer.-
É dedicado a Husserl e apresentado como “Primeira Parte”, indicando um inacabamento.
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Obtém sucesso imediato e considerável, resultando na nomeação de Heidegger como professor titular em outubro de 1927.
Deslocamento do projeto: Da hermenêutica da vida factiva inspirada em Aristóteles para a elaboração concreta da questão do sentido do “ser”, pensado no horizonte do tempo.-
A primeira frase do §1 declara o esquecimento dessa questão, um esquecimento constitutivo e não meramente reparável.
Inacabamento essencial: O “tempo” como sentido do ser, em Ser e Tempo, não é uma resposta, mas o nome de uma questão, o “pre-nome” da “verdade do ser”.-
O livro é um “desastre” (Unglück) no sentido de uma catástrofe que revela uma virada destinal (Kehre) em seu próprio coração.
Mal-entendidos e recepção pública: A celebridade do livro mascarou sua incompreensão generalizada.-
Heidegger lamenta o “amontoado de mal-entendidos” em torno do conceito de Dasein, especialmente sua redução a uma antropologia ou “humanismo”.
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Contrariamente, Ser e Tempo visa desalojar o ser humano do lugar central, abalando todo o papel desempenhado pela subjetividade.
Distinção entre o “tratado” Ser e Tempo e o “caminho” ou “tarefa” de “Ser e Tempo”.-
O tratado, com sua arquitetônica singular, é uma “catedral fenomenológica” completa em si, que Heidegger continuamente releu e reinterpretou.
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O “caminho” de “Ser e Tempo”, porém, não foi mais percorrido; Heidegger não planejou uma “segunda parte” e afirmou nunca mais ter escrito um livro no mesmo sentido.
Estrutura planejada e partes “faltantes”: O tratado publicado corresponde à Primeira Parte (seções 1 e 2) de um plano original mais amplo.-
A seção crucial e realmente “faltante” é a Terceira Seção da Primeira Parte, intitulada “Tempo e Ser”.
Supressão da Seção “Tempo e Ser”: Heidegger havia redigido e até feito provas tipográficas desta seção.-
Em janeiro de 1927, sob o impacto da notícia da morte de Rilke, decidiu suprimi-la por considerá-la insuficientemente trabalhada e inaudível.
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Destruiu posteriormente todo o material relacionado.
Significado da supressão: Ela livra o projeto do “mal-entendo ontológico” fundamental: confundir a questão diretriz da ontologia (“o que é o ente?”) com a questão fundamental pelo sentido do ser.-
A fundação da ontologia não é uma ontologia, mas uma “lâmina de fundo” que prepara o deslocamento e a superação da questão diretriz.
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Em 1927, Heidegger ainda não podia pensar plenamente a dimensão de abrigamento (Bergung) onde se ordena a fundação do ente, mas o reconhecimento “a tempo” dessa insuficiência abre a fenda (a Kehre) que ele nunca mais cessará de interrogar.
Ser e Tempo como abertura para o Ereignis: A partir dessa fenda, Ser e Tempo, escapando de seu autor, vem nomear a acontecência (Ereignis) do ser e do tempo no ser-o-aí (Da-sein).-
O “defeito radical” (Grundmangel) do livro – ter-se aventurado “cedo demais” e “longe demais” – é a catástrofe que abre o pensamento da acontecência.
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Esse “cedo/longe demais” permanece a própria possibilidade do pensamento; Heidegger nunca foi “mais longe” que isso.
Necessidade permanente de Ser e Tempo: Será sempre necessário “passar por” Ser e Tempo, fazer o “salto no Dasein”, entendendo que o Dasein não é o ser humano, mas o ser-o-aí de onde o ser humano brota historialmente em seu pertencimento à verdade do ser.-
Em 1941, Heidegger afirma que não foi “mais longe”, pois não lhe era permitido, mas que se aproximou um pouco mais do que foi empreendido com Ser e Tempo, comparando o livro à escalada de uma montanha inexplorada, com desvios e precipícios às vezes imperceptíveis para o leitor.
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