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estudos:ldmh:pensar

Pensar (denken)

LDMH

  • Distinção entre das Denken (atividade de pensar) e der Gedanke (conteúdo pensado), separando processo e resultado, onde a modernidade reduz o pensar a uma faculdade consciente que objetiva o ser em representações, tanto em francês (“penser”) quanto em alemão (*denken*)
  • Em O que se chama pensar? [GA8] (1951-1952), Heidegger reconceitua radicalmente o verbo, conforme destacado em correspondência com Hannah Arendt (12/04/1968) e na entrevista ao Spiegel (1966), onde lamenta a subestimação da obra, considerada por ele fundamental para as novas gerações
    • A pergunta Was heißt Denken? desdobra-se em quatro dimensões interligadas:
      • Significado essencial do verbo “pensar”
      • Interpretação tradicional da atividade de pensar
      • Condições necessárias para a capacidade de pensar
      • O que propriamente convoca ao pensar — questão central que confere unidade e direção às demais
  • A Carta sobre o humanismo [GA9] (1946) posiciona o pensar além da dicotomia teoria/prática, herdada de Platon e Aristoteles, que o reduz a um instrumento pedagógico, depois escolarizado e, finalmente, a mero exercício cultural, desvinculado de sua origem existencial
    • O pensar não é uma faculdade isolada, mas um modo de ser que engaja a existência em sua totalidade, afastando-se tanto do intelectualismo estéril — com suas sutilezas bizantinas — quanto do sentimentalismo difuso, que se dissolve em um pathos nebuloso e sem contornos
    • Desaprender a noção tradicional de pensar como representação exige um exercício contínuo e infinito: aprender a pensar é um Handwerk (ofício) e um Werk der Hand (obra manual), que demanda prática prolongada e refinamento constante, comparável ao trabalho do marceneiro, onde a mão não apenas manipula ferramentas, mas se ajusta ao ser do material, revelando as formas que nele repousam
  • A analogia com o ofício manual não evoca nostalgia por uma “idília aldeã”, mas demonstra como o gesto mais simples torna-se pensante quando a mão, em vez de dominar a matéria, harmoniza-se com seu ser, permitindo que o invisível venha à presença, assim como o pensador não manipula palavras como signos, mas escuta o que se diz no silêncio, tornando sua fala — oral ou escrita — um eco desse não-dito
    • Em carta à esposa (15/03/1946), Heidegger revela a hesitação da mão que escreve diante do “cliquetis das máquinas de escrever”, onde a palavra mal ousa enunciar-se, expressando a tensão entre o pensar e sua expressão linguística, aproximando o pensador do poeta, sem com ele confundir-se: enquanto o poeta faz surgir, nas palavras cotidianas, uma fala que indica o inenarrável, o pensador recolhe-se à origem da linguagem, onde o dizer torna-se resposta ao que se oculta no silêncio
  • O que convoca ao pensar (das Bedenkliche) não é uma impulsão ocasional, mas o que, em nossa época, mais urge ser pensado (das Bedenklichste): o fato de que ainda não pensamos, não porque tenhamos deixado de pensar, mas porque o que dá a pensar retira-se desde sempre, velado por um esquecimento originário que não se reduz a falhas psicológicas da memória
    • Esse “ainda não” não implica um declínio cultural, mas um chamado a responder ao destino do ser ocidental, não como decreto fixo, mas como envio do que nos é próprio: a questão da relação entre ser e pensar, que moveu toda a tradição de Parmênides (fragmentos 3 e 8 do Poema: “Pensar pertence ao Ser”) a Hegel (Preface à la Phénoménologie de l’Esprit: “O Ser é o Pensar”), onde a história não se desdobra como sucessão de épocas, mas como uma única proximidade do Mesmo, que não é o idêntico
  • Nas Contribuições à Filosofia [GA65] (1936-1938) e em Meditação [GA66] (1938-1939), Heidegger desenvolve o pensar como Erdenken: não se trata de inventar (criar ex nihilo) nem de descobrir (remover um véu sobre um dado pré-existente), mas de tornar-se porta-voz daquilo que, anterior a todo nome próprio, não depende da autoridade de um autor, assim como o canto só advém plenamente quando cantado por quem se põe a seu serviço
  • A etimologia de Gedanc (forma medieval de Gedanke) remete a Gedächtnis (memória), não como faculdade psicológica de reter o passado, mas como recolhimento das três dimensões temporais em uma presença una, onde o Andenken (re-pensar) descobre o impensado e o Vordenken (pré-pensar) projeta-se a partir desse impensado, tornando o pensar inseparável de danken (agradecer), pois responder ao que inesgotavelmente dá a pensar é um ato de gratidão
    • Heidegger expressa essa riqueza em versos finais:
      • Was heißt Denken? Heißt es: Bringen den Dank? (“Pensar, que quer dizer? Quer dizer: trazer o agradecimento?”)
  • Em Gelassenheit (1955), Heidegger distingue duas formas de pensar, cada uma com sua legitimidade:
    • Das rechnende Denken (pensar calculante): opera não apenas com números, mas aspira a dominar tudo, buscando resultados úteis e multiplicando pesquisas sem cessar
    • Das besinnliche Nachdenken (pensar meditativo): detém-se, espera que amadureça o que não pode ser forçado, e não tem utilidade imediata, liberando-se da metafísica e da lógica formal para tornar-se um mögen (preferir), que, ao vermögen (tornar possível), remove obstáculos para que o ser advinha em sua plenitude
  • Esse outro pensar, mais simples por não se reduzir à filosofia ou às ciências, é também mais difícil: ninguém pode hoje pretender dominá-lo, como expresso por Heidegger em 1969, citando Kleist: “Apago-me diante de alguém que ainda não está aqui e inclino-me, mil anos adiante, diante de seu espírito” (GA16, 210), sublinhando que o pensar autêntico é sempre um porvir, nunca uma posse.
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