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estudos:ldmh:eu

eu (Ich)

LDMH

  • Crítica ao fundamento cartesiano e moderno do pensamento no “eu”, visto como lugar de presença imediata a si e ponto de acesso privilegiado à interioridade, uma suposta evidência que a própria fenomenologia husserliana mantém em última instância.
  • Em Ser e Tempo, uma aparente fidelidade à primazia da subjetividade é radicalmente subvertida.
    • O Dasein, o ente exemplar para a questão do ser, é aquele que eu mesmo sou.
    • Contudo, a análise existencial revela que o relacionamento consigo mesmo tem o estilo não de uma introspecção, mas de um “entretien passionné avec nous-mêmes”, possível porque nossa existência está primordialmente au monde (no mundo).
  • O ser humano está desde sempre e primordialmente “fora” (schon draußen), junto ao ente com o qual se ocupa, com os outros, em um horizonte de desvelamento compartilhado.
    • Nesse compartilhamento, a diferença entre um “eu” e um “tu” apenas se perfila.
    • Somos “tu” ou “nós” tão fundamentalmente quanto “eu”.
    • A ideia de uma esfera do eu isolada e prévia é uma falsa evidência, tão carregada de pressupostos teóricos quanto a de um mundo de objetos “externos”.
    • O “retorno radical ao eu” na filosofia apenas obstrui a possibilidade de ver fenomenologicamente o sentido de dizer “eu”.
  • O parágrafo 25 de Ser e Tempo abandona definitivamente a linguagem da interioridade e da consciência.
    • O “eu” não é “dado” em uma “reflexão simplesmente percipiente”.
    • Pertence ao modo de ser do Dasein não ser, na maioria das vezes, si mesmo, pois sua existência se deixa absorver pelo movimento daquilo que o ocupa.
    • É precisamente nesta tensão entre a tendência a não ser si mesmo e a possibilidade de vir a si que estamos sempre em questão para nós mesmos.
    • Ser si mesmo (Selbst) não é recuperar uma suposta identidade autêntica, mas sustentar resolutamente a abertura (Erschlossenheit) para o que se apresenta, dando-lhe lugar em toda a amplitude de seu sentido.
    • Este é o movimento próprio do cuidado (Sorge), que confere ao si mesmo sua constância possível, radicalmente distinta da permanência de um “eu” substancial e idêntico a si.
  • O verdadeiro ser si mesmo opõe-se à “misère du moi je”; é habitado pelo cuidado de se voltar inteiramente para aquilo que o concerne, vindo a si apenas ao deixar através de si desdobrar-se livremente o espaço do aí (da).
  • O si mesmo (Selbst) não pode ser compreendido a partir do eu.
    • Inversamente, a determinação da possibilidade essencialmente aberta e ecstática do si permite a Heidegger captar o sentido existencial do “eu” (não do “mói” substantivo) de maneira radicalmente nova, expressa pelo termo Jemeinigkeit.
    • Jemeinigkeit é o fato de, a cada vez, caber-me em próprio fazer face ao que se apresenta.
    • O ser-aí é a cada vez “meu” (je meines), no sentido exatamente inverso da posse: existir é tornar-se livre para aquilo que, de modo único, diz respeito em primeira pessoa a mim.
  • Contra a tradição metafísica, o “eu” heideggeriano não se afirma nem se põe; tem incessantemente que responder.
estudos/ldmh/eu.txt · Last modified: by mccastro