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Compreensão
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Entente / Entender (das Verstehen)
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Assim como muitos termos decisivos de Ser e Tempo, a noção de entente ou de entender (das Verstehen) nasce inicialmente do esforço de Heidegger em traduzir conceitos gregos, em especial de Aristóteles, aparecendo já no Relatório Natorp (1922) e no curso de 1924-1925 sobre o Sofista a partir da Ética a Nicômaco (GA 19).
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Nesse contexto preparatório, a entente traduz a sophia aristotélica, como se confirma ainda no § 7 da Introdução à filosofia de 1928-1929 (GA 27), de modo que, assim como a sophía é “a mais alta possibilidade de ser”, a entente torna-se uma das possibilidades de ser mais eminentes do Dasein.
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A entente é a possibilidade em que o modo de ser do Dasein assume o sentido existencial de poder-ser e descobre a possibilidade como sua determinação ontológica mais originária (ETFV, 143).
Entente como estrutura existencial e não faculdade intelectual-
O acento heideggeriano desloca-se radicalmente em relação à tradição, pois a entente não é uma faculdade isolada do sujeito, mas algo sempre já afinado por uma tonalidade afetiva, desdobrando-se co-originariamente com a disposicionalidade.
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Não há mais distinção entre alma e corpo, mas modos diversos pelos quais o ser-le-lá se abre ao seu “lá”, de modo que a entente atravessa tanto o corpo — como em uma carícia ou em um gesto verdadeiro — quanto o espírito disposto em ressonância.
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A entente é, portanto, inteiramente existencial e, sendo o próprio movimento da existência (GA 3, 227), não é jamais algo fixo ou estabilizado.
Das Verstehen como verbo: tensão para o ser-
É por isso que Heidegger emprega um verbo, das Verstehen: entender é tender para o ser, num movimento em que o Dasein, estando em entente com o ser, abre e descobre a abertura do “lá” que ele tem cada vez de ser (ETFV, § 31).
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Nessa tensão, o ser humano descobre-se como projeção (Entwurf), não no sentido de lançar um plano ou projeto, mas porque, a partir do lançamento (Wurf) que o ser lhe abre, se esboça o impulso fático de seu próprio ser como possibilidade.
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Descobrir-se como ser de possibilidades significa liberar a finitude em si mesma, pois somente porque a entente do ser é o que há de mais finito no finito ela pode tornar possíveis até mesmo as chamadas faculdades “criadoras” do ser humano (GA 3, § 41).
Formas da entente e distinção em relação à compreensão-
O vínculo ententivo do ser humano com seu ser como possibilidade assume múltiplas formas, desde a criação até a entente pré-ontológica, imediata e primária, que precede qualquer tematização conceitual.
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Mesmo quando não apreende conceitualmente suas possibilidades, o ser humano, enquanto sempre tensionado para o ser na entente, é essa possibilidade.
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Por isso é essencial distinguir entente (Verstehen) de compreensão (Erfassen ou Begreifen): há ententes do ser que não são compreensões do ser, distinção que se perde quando se traduz Verstehen simplesmente por “compreensão”.
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A compreensão, associada à explicação (Erklären), é apenas um modo derivado e teórico da entente primordial que constitui o ser-no-mundo.
Entender como relação com o inexplicável-
Um dos textos mais decisivos sobre essa distinção aparece no curso sobre Hölderlin (1934-1935), onde Heidegger afirma que, onde algo é explicado, já não há mais nada a entender.
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Entender, em seu sentido originário, é saber o inexplicável como inexplicável, não para suprimi-lo por uma explicação, mas para mantê-lo como tal.
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Quanto mais originária é a entente, mais amplo e manifesto se torna o inexplicado e o inexplicável.
Mutação da noção de sentido-
Essas afirmações implicam uma transformação profunda da noção de sentido em Ser e Tempo (§ 32): o que é entendido nunca é o próprio sentido, pois não entendemos algo “como sentido”, mas sempre “no sentido de…”.
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O sentido não é o tema da entente, e a questão do sentido do ser não visa uma explicação última, mas mantém-se como questão que deixa desdobrar o inexplicável em sua plenitude.
Entente do ser e medida da finitude-
O que Heidegger chama de “entente do ser” (Seinsverständnis) dá à finitude humana sua medida mais íntima e ocupa o lugar mais eminente, pois nela se anuncia a potência na qual a possibilidade essencial de ser do Dasein encontra seu fundamento.
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É a partir dessa possibilidade que o Dasein é incessantemente no seu “lá” triplicemente aberto aos outros, ao mundo e a si mesmo, já que não pode haver relação com o mundo sem entente do ser.
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O Verstehen é ao mesmo tempo um Vorstehen, um “estar diante”, uma maneira de sustentar aquilo diante do qual o ser humano se encontra.
Da entente em Ser e Tempo à entente nos Apontamentos à filosofia-
Em Ser e Tempo, Heidegger ainda não percebe plenamente que o ser humano só pode portar uma entente porque ele mesmo é sempre já portado pelo ser e, de certo modo, entendido por ele.
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É porque o ser se abre e se descobre ao ser humano que este pode ter entente de qualquer coisa, movimento que já aflora em Ser e Tempo como “abertura do ser em geral”.
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Nos Apontamentos à filosofia, Heidegger repensa a entente a partir do lançamento pelo qual o ser se abre ao ser humano, fazendo da entente o elemento em que a verdade do ser encontra seu fundamento (GA 65, 259).
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Assim, ao ser conduzido para o Aberto por sua entente do ser, o ser humano advém a si mesmo e ao mundo para além de toda subjetividade, sustentando sua ek-sistência como permanência insistente na abertura do ser (GA 65, 303).
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