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Agir (Handeln)
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Carência de uma medida verdadeira para o sentido do agir humano (das Handeln), apesar da familiaridade mundial com a ação, seja na exaltação da vontade livre, seja na operação discreta dos dispositivos técnicos.
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Ambas as representações, aparentemente opostas, repousam na mesma base: a compreensão exclusiva da ação como produção de um efeito (Wirkung).
A representação da ação como Wirkung, embora eficaz, é extremamente pobre e impede pensar a verdadeira amplitude do agir humano.-
Sua evidência aparente oculta sua origem numa inflexão singular: a interpretação técnica do pensar, com origens em Platão e Aristóteles, ou seja, nas fontes da metafísica.
Relação decisiva, mas obliterada, entre a concepção da ação e a interpretação do pensar: onde a ação é concebida como produção de efeito, esse vínculo torna-se invisível.-
Nenhuma “filosofia da ação” pode retornar ao ponto decisivo; apenas a destruturação do pensamento metafísico, iniciada em Ser e Tempo, libera o caminho para outra compreensão do agir.
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Avanço nesse caminho revela uma referência mútua cada vez mais estreita entre pensar e agir.
A interpretação técnica do pensar inicia-se com Platão, quando o pensar passa a ser entendido sob a única perspectiva da visada que questiona e assegura o ente em seu ser.-
Consequência: tudo o que o ser humano faz passa a ser apreensível apenas como realização dessa visada, como execução de um projeto por meios adequados.
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Estabelece-se assim a dualidade familiar entre conhecimento e vontade, sendo esta última concebida – mesmo quando erigida em prova de superioridade – a partir do modelo do efeito de um ente sobre outro.
A ideia de vontade constitui o obstáculo mais resistente para compreender o sentido originário do agir humano.-
Esse sentido é uno com a singularidade de um modo de ser, o nosso, que abre a possibilidade de manter-se numa relação com o ente em sua totalidade.
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Essa relação de abertura (Erschlossenheit) só aparece em seu fenômeno próprio resistindo a toda tentativa de reduzi-la a algo ente, e muito menos à imagem de uma ação (Wirkung) sobre algo.
O sentido do agir humano, nascendo cada vez dessa relação de abertura, é irredutível à ideia de uma ação sobre algo; trata-se cada vez do que temos inteiramente a ser que está em questão.-
O fenômeno essencial aqui em jogo (e ainda audível na práxis grega, antes que sua tradução pelo latim agere obstruísse o acesso a seu significado inicialmente não técnico) é o da facticidade.
Facticidade como nosso modo de ser: aquilo que faz nossa vida, temos (de um modo que cabe a cada um descobrir) de responder a isso fazendo-o.-
O sentido desse “fazer” situa-se aquém da efetuação.
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Todo gesto humano, toda iniciativa, e sobretudo toda palavra, traz consigo a possibilidade de responder àquilo que nos diz respeito e nos concerne, de modo a dar-lhe lugar em toda a amplitude de sua manifestação.
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Essa possibilidade é o agir humano em seu essenciar (Wesen).
O ser humano é aquele que está incessantemente em via de levar o que é à sua plenitude (Vollbringen), conduzindo-o ao seu ser, e que, concomitantemente, está sempre sob a ameaça de deixar escapar tal possibilidade.-
O pensamento de Heidegger mantém-se aqui próximo das manifestações mais concretas da ação, como atesta a referência a René Char: agir verdadeiramente é fazer face a uma situação de modo que dela se esclareça subitamente a significação singular e venham à luz as possibilidades que ela reservava.
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A lei da ação, porém, é a de recobrir necessariamente aquilo que a torna ela mesma possível: a relação (Verhältnis) com o ser.
O foco mais próprio do agir é denominado por Heidegger como o deixar-ser (Seinlassen).-
Este “fazer no sentido mais elevado” (höheres Tun) não pode mais ser pensado a partir da oposição entre ativo e passivo.
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A “ação primordial” (Urhandlung) do deixar-ser consiste em pôr-se em medida de acolher aquilo que, pelo fato mesmo de existirmos, nos diz respeito, para conceder-lhe seu justo lugar.
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Deste “fazer mais elevado” surge, como de uma fonte, tudo o que na vida humana é verdadeiramente fecundo; ele é o sentido verdadeiro da liberdade humana: engajar-se (sich einlassen) para que tudo o que fazemos mantenha aberta a dimensão onde o que é pode sempre novamente vir a si, o que supõe a tarefa, de modo algum passiva, de libertar-se daquilo que nos desvia disso.
A fórmula “o pensamento age na medida em que pensa”, com um agir que é “o mais simples e o mais elevado”, é rigorosamente incompreensível para quem permanece na representação da ação como produção de um efeito.-
Sua inteligibilidade exige uma revolução onde pensar e agir renovam inteiramente seu sentido.
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Essa revolução, cuja amplitude Heidegger só mede progressivamente ao longo dos anos 1930, toma a forma de um pensar tanto mais libertador quanto não mais quer fundar para dirigir.
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Não se trata de um renúncia desiludida ou indiferente, mas de uma meditação cada vez mais sustentada do lugar onde entra em jogo tudo o que, na existência dos homens, tem um real poder de abalar.
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