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Revolução Científica e Tecnológica

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

Século XVII e Depois: O Significado da Revolução Científica e Tecnológica

1. A civilização ocidental vive em uma revolução científica e tecnológica há vários séculos, que remodela o ambiente, o comportamento e o pensamento, sendo essa mudança, para ser chamada de revolucionária, radical, abrangente e rápida o suficiente para ser percebida dentro de uma vida humana.

2. A percepção de uma revolução depende do contraste entre a experiência acumulada de uma geração e a velocidade das mudanças; se a sabedoria do velho se torna obsoleta para os jovens, então o ritmo e o escopo da mudança podem ser considerados revolucionários.

3. A revolução, sendo uma mudança coletiva nas questões humanas, deve ser feita pelo homem e, portanto, originar-se no pensamento, com a revolução científica mudando as maneiras de pensar antes de afetar as maneiras de viver, sendo a tecnologia um efeito atrasado dessa revolução teórica e metafísica.

4. A manipulação estava implícita na própria concepção da nova ciência, e a tecnologia, como conclusão das premissas intelectuais, tem um lado metafísico, sendo a metafísica da ciência que se tornou explícita, enquanto o movimento revolucionário, iniciado por livre escolha, estabeleceu sua própria necessidade.

5. O rompimento com o passado, uma característica fundamental do início da idade moderna, contrasta com a tradição anterior que valorizava a antiguidade, e a ascensão da palavra “novo” como um elogio sinaliza uma nova atitude de autoconfiança e desconfiança em relação à autoridade do passado.

6. A convicção de que os modernos são mais velhos e mais maduros do que os antigos substituiu a antiga noção de que a sabedoria estava no passado, e a percepção de que a humanidade em tempos passados era mais jovem e mais propensa a erros inaugurou a nova avaliação da modernidade como uma vantagem.

7. O princípio da inovação constante, incorporado pela revolução moderna, fez com que a relação de cada fase com seu passado imediato permanecesse de crítica e superação, estabelecendo a revolução como permanente, independentemente de seus agentes ainda serem revolucionários.

8. O movimento que reformou o pensamento a partir de seus fundamentos teve um amplo contexto histórico, incluindo a ascensão das cidades, das monarquias nacionais, a expansão do comércio, a imprensa e as viagens marítimas, que ampliaram os horizontes e geraram um novo ceticismo e a descoberta do indivíduo autônomo.

9. A publicação de “Das Revoluções das Esferas Celestes” de Copérnico, em 1543, inaugurou a revolução científica, e suas implicações, como a homogeneidade da natureza, a ausência de uma arquitetura sólida do universo e sua provável infinidade, transformaram a cosmologia.

10. A homogeneidade da natureza, decorrente da visão de que a Terra é um planeta e os planetas são “terras”, eliminou a distinção entre os domínios terrestre e celeste, destruindo a ideia de uma ordem hierárquica no universo.

11. A observação telescópica de Galileu confirmou a natureza material dos corpos celestes, e a inferência de que as mesmas leis físicas se aplicam a todo o universo levou à unificação da física, com as leis da mecânica sendo válidas em toda parte.

12. A dissolução da arquitetura cósmica sólida, que explicava o movimento dos planetas por esferas rígidas, ocorreu com a descoberta das órbitas elípticas por Kepler, que eliminou os axiomas da circularidade e da uniformidade, exigindo uma nova dinâmica para explicar as órbitas planetárias.

13. A extensão do mundo ao infinito, uma consequência não intencional da teoria copernicana para explicar a ausência de paralaxe, transformou a cosmologia, com Giordano Bruno proclamando a infinidade do universo e a existência de inúmeros mundos, abolindo a ideia de um centro cósmico.

14. A nova cosmologia exigia uma nova física para explicar as causas do movimento, e a física aristotélica, que via o movimento como uma mudança que requer uma causa contínua, foi substituída pelo conceito de movimento como um estado, uma revolução conceitual associada a Galileu.

15. Galileu removeu o movimento da categoria de mudança, definindo-o como um estado que persiste por si mesmo, a menos que uma força externa interfira, o que significa que um corpo em movimento retilíneo uniforme continua assim indefinidamente.

16. O conceito de movimento como um estado levou à ideia de que uma mudança no movimento, ou aceleração, é o que requer uma causa, e a aceleração, medida em termos de espaço e tempo, tornou-se a medida da força que a causou.

17. O esquema conceitual de Galileu, com sua abstração da quantidade de movimento e a ideia de movimentos compostos, promoveu a geometrização da natureza e a matematização da física, com Descartes elevando a geometria a um princípio metafísico.

18. A análise de movimentos exigiu uma nova matemática, levando à invenção do cálculo infinitesimal por Leibniz e Newton, e também inspirou o método experimental, que isola fatores em condições artificiais para verificar a teoria.

19. O conceito de “força”, que não é redutível a termos puramente geométricos, foi abordado pela noção de “massa”, uma grandeza dinâmica que representa a inércia e a quantidade de matéria, permitindo uma mecânica de impacto e atração.

20. Newton unificou a mecânica celeste e terrestre ao transformar o conceito de peso em gravitação universal, estendendo a mecânica da massa e aceleração a todo o universo, com a massa tornando-se a sede de duas forças: inércia e gravitação.

21. A redefinição de “causa” como força que produz aceleração e de “efeito” como aceleração da massa implicou que a relação causa-efeito se tornou quantitativa, com equivalência rigorosa entre a quantidade de causa e de efeito.

22. A constância da matéria e energia, ou massa-energia, tornou-se um axioma indispensável, negando a possibilidade de intervenção não física, como milagres ou a eficácia causal da mente, no curso dos eventos naturais.

23. A negação da teleologia e de causas finais seguiu-se da nova física, pois a natureza passou a ser vista como um processo cego de transferência de massa-energia, regido por causas eficientes, onde nada é intencional ou terminal.

24. O conceito de uma substância neutra e quantitativa do mundo, governada por um único conjunto de leis, levou à ideia de uma máquina do mundo, onde a natureza, desprovida de vontade e hierarquia, torna-se indiferente a distinções de valor e sanções morais.

25. A ausência de uma sanção na natureza, que não é uma norma, implica que tudo é permitido, e o conhecimento analítico da natureza, que revela como as coisas são compostas, fornece o caminho para saber como recriá-las, abrindo a passagem da análise para a síntese e da experimentação para a aplicação prática.

26. Apesar da base filosófica para a tecnologia, a ciência moderna e a tecnologia não evoluíram lado a lado; a grande ruptura teórica ocorreu no século XVII, enquanto a tecnologia influenciada pela ciência só surgiu no século XIX.

27. A mecânica clássica, como teoria, influenciou pouco o design de máquinas, e as invenções tecnológicas, como o relógio e os instrumentos ópticos, serviam mais para fins cognitivos do que para realizar trabalho, e a maioria das inovações técnicas dos primórdios, como a pólvora, era “não científica”.

28. A ciência não inspirou significativamente a tecnologia antes do século XIX, com a tecnologia avançando por conta própria, e a aliança entre conhecimento da natureza e arte da invenção, prevista por Bacon e Leonardo, só se concretizou com a revolução industrial.

29. Francis Bacon, com sua visão de que o conhecimento é poder e que a ciência deve aliviar a necessidade e a miséria humanas, tornou-se o primeiro filósofo do credo otimista do progresso, que contrasta com o pessimismo anterior, embora a aplicação da ciência também possa ser usada para o mal.

30. A tecnologia moderna, como uma ruptura radical com o passado, começou com a revolução industrial e o uso de forças naturais geradas artificialmente, como o motor a vapor, inaugurando a fase mecânica da tecnologia, que, embora inicialmente dependesse mais de artesãos do que de ciência, mudou as condições do trabalho humano.

31. A tecnologia química, surgida na segunda metade do século XIX, foi a primeira a se originar inteiramente de descobertas científicas, com o laboratório e a fábrica se tornando partes de um empreendimento interligado, onde a ciência e a indústria avançam juntas.

32. A tecnologia química representa uma intervenção mais profunda na natureza, pois o homem não apenas molda, mas também cria novas substâncias que a natureza nunca conheceu, alterando a própria essência da matéria e refazendo os hábitos de consumo.

33. A tecnologia elétrica, que depende completamente da ciência para a própria concepção de seu objeto, representa o primeiro exemplo de uma tecnologia inteiramente gerada pela ciência, sendo a eletricidade uma entidade abstrata, imaterial e invisível.

34. A tecnologia eletrônica, que se concentra na comunicação e não apenas no fornecimento de energia, representa um novo patamar de artificialidade, criando objetos e fins que não imitam nada na natureza e que são imperativos para o funcionamento da civilização moderna.

35. A tecnologia tornou-se mais forte do que a política e agora é vista como destino, e com a possibilidade de uma futura revolução biológica, onde o próprio homem se torna objeto da engenharia, surge a questão mais urgente sobre o que é humanamente desejável, uma tarefa para a qual a filosofia se confessa tristemente despreparada.

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