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Nihilismo
- Pensamento de Heidegger assume tarefa de efetuar relevo topológico do nihilismo, confrontando perigo constitutivo de movimento de fundo da história do Ocidente tornado planetário.
- Nihilismo em questão não se reduz ao grande nihilismo europeu diagnosticado por Nietzsche, que era apenas sinal revelador profundo.
- Não se trata tampouco de superar, via ativismo de algum nihilismo ativo, nihilismo mais devastador diagnosticado na história do Ser (Seyn).
- Resposta a Ernst Jünger em Zur Seinsfrage rejeita topografia simples de um meridiano zero do nihilismo para sua superação definitiva.
- Exige-se antes paciente Erörterung (reconhecimento dos lugares) de uma topologia do nihilismo.
- Essa topologia permite séjourner de modo consciente e meditativo no coração do país do Ser (Gegend des Seins).
- Séjourner implica enfrentar perigo do desamparo do Ser (Seinsverlassenheit) e da devastação (Verwüstung).
- Abertura para vigília e meditação salvadoras pertence a outro início do pensar, a pensar a história do Ser e do Ereignis.
- Determinação nietzscheiana do nihilismo europeu define-o como movimento de desvalorização de todos os valores supremos.
- Desvalorização decorre de desilusões metafísicas: morte de Deus, ruína das ideias de finalidade, totalidade e verdade.
- Tais desilusões correspondem às três modalidades do nihilismo como estado psicológico.
- Etiologia última do sintoma reside no retorno da vontade de poder contra si mesma, no modo do ressentimento.
- Princípio expresso na fórmula: homem prefere querer o nada a não querer nada.
- Este nihilismo da vontade de poder é parte integrante do movimento de fundo da história do Ocidente.
- Inclui-se também a doutrina que Nietzsche pretende oferecer dele.
- Heidegger compreende esse movimento como história da metafísica e, em última instância, história do Ser (Seyn).
- Nihilismo heideggeriano define-se a partir da premissa de que o Ser como tal não é nenhum ente.
- Movimento de fundo e movementação no coração da tradição metafísica ocidental, onde reina a denegação do Ser.
- Denegação formulada como il n’en est rien de l’Être lui-même.
- Essa denegação ocorre em detrimento do sentido da diferença ontológica entre Ser e ente.
- Atenção da metafísica dirige-se apenas ao ente em seu conjunto, sob o regime do esquecimento do Ser (Seinsvergessenheit).
- Perplexidade metafísica por que há algo e não antes nada? revela esse apagamento.
- O Ser (o há do há algo?) se apaga em prol da profusão do ente, sendo remetido ao nihil.
- Milagre do Ser esvanece-se ante a abundância e variedade do apenas ente.
- Fórmula o Ser se retira na mesma medida em que se desvela no ente expressa essa dinâmica.
- O apagamento do Ser em seu retraimento ameaça arrastar o próprio ente ao recuo, desaparecimento e deperdição.
- O nome nihilismo indica que o nihil (nada) lhe é co-essencial (y-essentiel).
- Definição radical: Nihilismo significa: Do ente, nada há; não apenas deste ou daquele ente, mas nada há do ente como tal em sua totalidade.
- Paradoxo da modernidade: fascínio pela gestão afanosa do ente em totalidade implica imenso déni de l’Être.
- Nesse contexto, a tentativa do pensador de reavivar a questão do Ser é taxada de nihilismo.
- Pergunta onde o nihilismo está propriamente em obra? revela nossa situação.
- Estamos em meio ao ente por todos os lados e não mais sabemos o que é o Ser nem como.
- Tendemos a esquecer que não mais sabemos e a não mais querer saber.
- Resposta: nihilismo está em obra lá onde se cola habitualmente ao ente, tratando-o como suficiente.
- Ao fazer isso, repele-se a questão do Ser e trata-se o Ser como um nada (nihil).
- Heidegger reconhece que o Ser é também nada de certa maneira, na medida em que vigora (west).
- Determinação do nihilismo em sua essência (aître): ocupar-se apenas do ente, em pleno esquecimento do Ser – eis o nihilismo.
- Somente este nihilismo assim entendido é o fundamento (Grund) para o outro nihilismo, o destacado por Nietzsche.
- Tarefa para superá-lo: ir expressamente, na questão do Ser, até o limite do nada.
- Este é o primeiro e único passo frutífero para a verdadeira superação do nihilismo.
- Prioridade da topologia sobre a topografia: necessária uma topografia do nihilismo, de seu processo e superação.
- Mas a essa topografia deve preceder uma topologia: o reconhecimento dos lugares (Erörterung) que reúnem Ser e Nada em sua essência.
- Essa topologia dá o tom à essência do nihilismo, permitindo reconhecer os caminhos para uma possível superação.
- Tentativa heideggeriana de reavivar a questão do Ser no coração da extrema modernidade constitui enredo arriscado do século XX.
- Desafio assumido desde Ser e Tempo, na ontologia fundamental e analítica existencial.
- Deve ser retomado de modo mais elevado após a Kehre (viragem), mediante destruição da história da ontologia.
- Novo modo é o pensamento da história do Ser (Seyn) e do Ereignis.
- Nihilismo acaba por aparecer como inerente à metafísica ocidental como tal.
- Portanto, também inerente à história e aventura da história do Ser como Ereignis.
- Isto é, inerente à intrínseca movimentação do Ereignis, evento único ao qual o humano está inextricavelmente implicado.
- Medir extensão, amplitude histórica e gravidade do nihilismo exige dupla abordagem.
- Realizar relevo topográfico e sintomatológico em campo (distinto da abordagem de Jünger).
- Recuar até traçar proveniência do nihilismo na história do Ser e reconhecer sua estrutura na economia secreta de uma topologia do Ser (Seyn).
- Elaboração de uma verdadeira topologia do nihilismo, seu paciente Erörterung, exige estudo conjunto.
- Estudo conjunto dos cursos sobre Nietzsche (1936-1941) e do trabalho secreto dos tratados inéditos (Traités impubliés).
- Tratados inéditos elaboram o pensamento do Ereignis, desde Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) até Feldweg-Gespräche e Conferências de Bremen.
- Essência (aître) do nihilismo só pode ser situada a partir de experiências de fundo feitas dentro do processo ainda oculto de superação da metafísica.
- Este processo advém na própria história do mundo.
- Não há experiência que baste para enfrentar a essência do nihilismo sem que o pensamento possa considerar a essência da metafísica.
- A essência do nihilismo pertence aí-essencialmente à essência da metafísica.
- Metafísica só pode ser vista à luz de sua última figura, que concerne à idade presente: a metafísica de Nietzsche.
- Na totalidade de sua essência, o nihilismo entra propriamente no campo de visão da metafísica, mas paradoxalmente à sua revelia.
- Metafísica de Nietzsche pensa o nihilismo pela primeira vez, mas ainda de modo metafísico.
- Modo metafísico é o de uma metafísica da metafísica, a da vontade de poder e eterno retorno.
- Consequentemente, Nietzsche não pensa ainda a essência do nihilismo, mesmo que a pressinta.
- Estudo paciente da metafísica de Nietzsche revela nihilismo em obra em toda história da metafísica ocidental e na história do Ser.
- A esse trabalho dedicam-se os cursos sobre Nietzsche, publicados em Nietzsche I & II.
- Cursos incluem lições sobre A Vontade de Poder como Arte, O Eterno Retorno do Idêntico, Segunda Consideração Intempestiva, Doutrina da Vontade de Poder como Conhecimento, Nihilismo Europeu e A Metafísica de Nietzsche.
- Análises do nihilismo também presentes em outros ensinamentos contemporâneos.
- Em meditações decisivas sobre Hölderlin (Hinos de Hölderlin, Andenken, Der Ister).
- Em cursos sobre Parmênides e Heráclito, ricos em visadas sobre a história do Ser.
- Todo esse ensino é secretamente sustentado pela escrita selada dos Tratados Inéditos.
- Tratados põem em obra o pensamento do Ereignis e da história do Ser (Geschichte des Seyns).
- Esta história pertence à vigência do Ser como Evento (die Wesung des Seyns als Ereignis).
- Nos trabalhos de Heidegger, essência do nihilismo permanece inacessível sem a compreensão do segredo da dispensação do Ser no coração do Ereignis.
- Do que se trata, em última instância, é do retraimento do Ser no coração mesmo de sua dispensação.
- Esta é a questão central da intensa meditação dos Tratados Inéditos, começando por Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis).
- Há sinergia completa entre os Tratados Inéditos e os cursos sobre Nietzsche.
- Especialmente com capítulos em Nietzsche II sobre A determinação do nihilismo na história do Ser, A metafísica como história do Ser, Esboços para a história do Ser como metafísica.
- E também com cursos O Nihilismo Europeu e A Metafísica de Nietzsche.
- Tratados Inéditos atestam sintomas do desencadeamento do nihilismo e da metafísica da vontade de poder.
- Desde Beiträge… até Besinnung, Die Geschichte des Seyns e Metaphysik und Nihilismus (com importante capítulo A essência do nihilismo).
- Após 1945, numerosos textos decisivos atestam essa longa meditação.
- Feldweg-Gespräche, A Palavra de Anaximandro, ensaios em Holzwege (como A palavra de Nietzsche 'Deus está morto') e Wegmarken (Zur Seinsfrage).
- Ciclo das Conferências de Bremen (Einblick in das, was ist) articula pensamento da técnica, explicitando perigo do Ser no desencadeamento globalizado do nihilismo consumado.
- Se nihilismo é movimento de fundo da história do Ocidente, pensador do século XX deve advertir sobre suas consequências catastróficas.
- Seu desdobramento só pode ter por sequências catástrofes mundiais (Weltkatastrophen).
- Nihilismo é movimento, na história mundial, dos povos da Terra arrastados ao domínio de poder dos Tempos Modernos.
- Não é apenas manifestação da idade presente do mundo, nem só produto do século XIX.
- É então que se despertou um olhar para a presença, em nossa inquietante estranheza, desse mais estranho dos hóspedes.
- Sintomatologia impressionante revela uma anarquia das catástrofes.
- Catástrofes mundiais estendem-se à dimensão do mundo: mobilização total, guerras mundiais (Welt-Kriege), guerra total.
- Inclui exterminação do homem pelo homem (Menschenvernichtung) implementada industrialmente em câmaras de gás e campos de extermínio.
- Lista de sintomas da devastação seria interminável.
- Esquecimento e desamparo do Ser, esvaziamento do humano (Menschenaushölung), aniquilação das coisas (Vernichtung der Dinge).
- Desenraizamento (Entwürzelung) e desumanização (Entmenschlichung), devastação (Verwüstung) além da destruição pura.
- Afanamento e maquinação (Machenschaft), abuso e usura do ente (Vernutzung des Seienden).
- Essas manifestações são afetas ao reino da metafísica da vontade de poder.
- Desafio do domínio da Terra ao preço do Sobre-humano induz mobilização sem precedentes dos recursos humanos.
- Põe em perigo a própria essência do ser humano, planejando seleção e mutação; o humano talvez já seja a mais importante das matérias-primas.
- Portanto, o Terrível já chegou.
- Mobilização visa decidir a espécie de humanidade capaz de conduzir o nihilismo a seu acabamento incondicional.
- Advertência: nem toda humanidade é apropriada para efetuar historicamente o nihilismo absoluto.
- Sinais indicam que o deserto cresce; não se pode levar a sério o dístico de Hölderlin onde está o perigo, cresce também o que salva.
- Recursos de aniquilamento do nihilismo consumado poderiam assemelhar-se a uma malignidade do Ser.
- Adverte-se: Com o Íntegro, ao mesmo tempo aparece, na clareira do Ser, o Mal.
- Este Mal poderia ser o próprio Ser (Seyn) – o Ser como desregramento e perfídia.
- Estado de coisas estranho no cerne do nihilismo consumado remete ao esquecimento do Ser em prol da fascinação pelo apenas ente.
- Principais épocas da história do Ser, legíveis na história da metafísica ocidental, são movimentos de retenção e suspensão (epokhē).
- Ocorrem numa dispensação da verdade do Ser em cujo coração o Ser se retira e permanece em retraimento.
- Fórmula: O Ser se retira na mesma medida em que se desvela no ente exprime traço fundamental do Ser.
- Traço segundo o qual o Ser mesmo, até no movimento de sua eclosão e desvelamento, guarda seu quant-a-si numa recusa enigmática.
- O re-velamento permanece inerente ao traço da recusa que ali se retém e permanece em seu quant-a-si.
- Este traço de fundo do Ser é chamado de a época do Ser ou seu caráter epochal.
- É aquilo a que pertence, em última instância, a história do mundo propriamente dita, i.e., a história do Ser e a economia secreta do Ereignis.
- Se, no coração do Ereignis, nada é mais caro à eclosão que o retraimento, e se a metafísica é uma época da história do Ser mesmo…
- …então o nihilismo pode não lhe ser estranho, e a metafísica, como história da verdade do ente como tal, é em sua essência nihilismo.
- Nihilismo pertence ao retraimento do Ser mesmo no coração de sua dispensação.
- Pertence, pois, àquilo de que se trata no coração do Ereignis: que o próprio Ser (Seyn) ali se retira em seu próprio re-velamento.
- Ou ainda: que o Ser se furta ao ente.
- Isto significa que, até no extremo perigo, o nihilismo abriga algo que pertence à essência do segredo em que a verdade da essência desdobra sua essência.
- Pensado a partir da dispensação do Ser, o nihil do nihilismo significa que do Ser nada há (o Ser é tido por nada).
- O Ser não vem à luz de sua própria essência; no aparecer do ente como tal, o Ser mesmo permanece fora; falta a verdade do Ser; ela permanece esquecida.
- Assim, o nihilismo seria, em sua essência, uma história que se dá com o Ser mesmo.
- É na essência do Ser mesmo que poderia então jazir que ele permanece impensado, porque ali se retrai. O Ser mesmo se retrai em sua verdade. Ele se abriga nela e ali se re-vela a si mesmo nesse abrigamento.
- Conclusão: Se a metafísica é uma época da história do Ser mesmo, e se em sua essência mesma, a metafísica é nihilismo –, a essência deste último pertence à história na qual o Ser mesmo desdobra sua essência.
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