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Gelassenheit – Aquiescência
- Resposta de Gérard Guest a François Vezin sobre a sugestão de traduzir Gelassenheit por acquiescence.
- Agradecimento pelas observações de Vezin, que interpretou a sugestão como uma proposta de nova tradução definitiva.
- Esclarecimento: o uso de acquiescence em comentários não visava impor um equivalente fixo para Gelassenheit, mas sugerir uma interpretação do movimento do pensamento heideggeriano.
- Contexto da sugestão: em ensaio introdutório da revista L'Infini, n°95, sobre O perigo no Ser e O Tournant na história do Ser.
- Objetivo era esboçar a atitude do pensamento frente às coisas redescobertas em sua luz e a abertura à vinda do Ser, movimento que Heidegger nomeia Gelassenheit.
- Análise do estatuto da palavra Gelassenheit e do desafio da tradução.
- Vezin proclama a intraduzibilidade do termo, citando Jean Beaufret.
- Traduções existentes: Sérénité (por André Préau) e égalité d'âme (mais contestável).
- Guest esclarece que também utilizou sérénité em outros textos e, ocasionalmente, acquiescement (como Roger Munier).
- A sugestão de acquiescence não visa substituir essas traduções, mas captar o movimento da pensamento no comentário.
- Método de trabalho e posição filosófica do autor.
- O essencial para Guest é o esforço de interpretação da pensamento de Heidegger, cultivando o cuidado da letra.
- Rejeição da pretensão de resolver problemas de tradução ou impor equivalentes lexicais fixos.
- Método: caminhar na própria enigma, aventurar-se na leitura do texto alemão original, no trabalho do texto.
- Crítica implícita: as traduções francesas existentes nem sempre permitem ao leitor francês caminhar na própria enigma ou seguir a allure du montrer (o passo do mostrar).
- A tarefa prioritária é dar a ouvir, pelo movimento do comentário, o movimento da pensamento de Heidegger.
- Controvérsia sobre a simplicidade da palavra Gelassenheit e seu uso na língua corrente.
- Vezin critica o uso de acquiescence por ser palavra rara e pesquisada, argumentando que se deve traduzir uma palavra simples por outra simples.
- Guest contesta essa premissa: questiona se Gelassenheit, no uso heideggeriano, é de fato uma palavra simples da língua corrente.
- Exemplo dado por Vezin: manchete do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung usando Gelassenheit no sentido de calma e flexibilidade político-diplomática.
- Para Guest, essa acepção jornalístico-diplomática nada tem a ver com a Gelassenheit pensada por Heidegger.
- É antes uma atitude de cálculo geopolítico, alheia à acquiescence à Contrée de l'Être.
- Conclusão: o uso comum invocado por Vezin é particularmente infeliz e mal encontrado para discutir o conceito heideggeriano.
- A Gelassenheit em Heidegger: uma acepção nova, elaborada e singular.
- No contexto da conferência de 1955 em Meßkirch, o tom é de meditação, não de discurso popular.
- A palavra ressoa com sua antiguidade histórica e espiritual, acessível aos habitantes de Meßkirch na profundidade da língua alemã.
- Raízes na linguagem da espiritualidade: Mestre Eckhart, Tauler, Suso, Luther, Angelus Silesius.
- Significado antigo: Gottesverlassenheit, Gelassenheit in Gottes Wille (abandono à vontade de Deus).
- Heidegger referencia explicitamente essa acepção antiga, mas para dela se distinguir radicalmente.
- Distinção crucial entre a acepção antiga (de Eckhart) e a nova acepção heideggeriana.
- Em texto complementar Zur Erörterung der Gelassenheit, Heidegger salienta que sua Gelassenheit não pertence mais ao reino da vontade.
- Não se trata da rejeição do egoísmo do pecador nem do desapego em favor da vontade de Deus.
- A nova acepção inspira-se na antiga, mas a transcede e modifica profundamente seu sentido.
- Desvincula-se da teologia cristã e da experiência religiosa.
- Portanto, o uso heideggeriano não é o da língua corrente atual, mas altamente elaborado e singular.
- A tarefa do tradutor: captar o jogo de torções e o movimento do pensamento, não encontrar um equivalente lexical.
- Não se trata de isolar artificialmente a palavra Gelassenheit e buscar um equivalente de dicionário.
- Trata-se de traduzir todo um jogo sutil de tournures (torções) onde a palavra está implicada.
- Aspectos determinantes: o aspecto verbal, os valores aspectuais do movimento singular, a dupla semântica do verbo alemão lassen (deixar e fazer, no sentido factivo), a expressão reflexiva sich einlassen zu… (deixar-se levar a…).
- Exemplos: Gelassenheit zu den Dingen, Gelassenheit zur Gegnet (à Contrée).
- Justificativa para a sugestão de acquiescence.
- A palavra francesa acquiescence carrega o aspecto durativo e processual de acquiescer.
- Permite a construção sintática com preposição dativa (acquiescence à…): acquiescence à la Contrée, acquiescence aux choses.
- Isso não é possível com sérénité, que parece autossuficiente, ligada à tradição estoica ou zen.
- Acquiescence evoca um movimento de acesso consentido e pacificado a…, não ressortindo nem à passividade nem à atividade de uma vontade.
- Visa escapar à atração destruidora do império da vontade de poder.
- Outras possibilidades poéticas consideradas e rejeitadas: lassitude ou laissitude.
- Inspiradas no alemão lassen, sein lassen, sich einlassen zu….
- Teriam uma bela ressonância com a tradução de Erschlossenheit por ouverture (de François Vezin).
- Contudo, no estado atual do uso francês, gerariam muitos mal-entendidos.
- Nota-se um uso poético desses termos em David Lespiau, comentando obra de Dominique Fourcade.
- Conclusão sobre o status da sugestão e resposta à objeção final de Vezin.
- Acquiescence não é A tradução definitiva, assim como lassitude também não o seria.
- Reconhece-se que a palavra pode parecer pesquisada, arcaica ou cerimoniosa.
- Sérénité é menos problemática nesse aspecto, mas não capta o valor semântico, aspectual e o movimento do conceito heideggeriano.
- Pergunta retórica: O que fazer se não há uma palavra em uso livre no francês com a plasticidade necessária?
- É preciso renunciar a encontrar um equivalente estrito e recorrer a outros recursos da língua, mesmo que pareçam eruditos.
- A palavra acquiescence surgiu de forma espontânea, do fundo de possíveis da língua, não de uma consulta laboriosa a dicionários ou a Boulainvilliers.
- A aspectualidade verbal de acquiescence pareceu adequada para quem ouve o movimento da língua e os recursos do aître da langue.
- Última observação: Heidegger, ao falar em Meßkirch, não tentava se colocar ao alcance da população, mas elevar a causa do pensamento. Confiava que a população pudesse sentir algo disso, apoiando-se no aître da langue.
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