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estudos:garcia:2021:somos-seres-historicos

Somos seres históricos

Gadamer. Comprender la verdad de la experiencia.

  • 1. A análise da obra de arte evidenciou experiência de mundo que amplia nosso conhecimento dele, ainda que não se ajuste aos cânones da ciência, definidora, na modernidade, do significado primário de conhecimento, mostrando sobretudo ser a obra de arte realidade particular constituída por totalidade de sentido a que pertence intrinsecamente o manifestar-se, o fazer-se ver, só chegando a ser ela mesma ao acessar sua apresentação, sendo por isso o espectador elemento constitutivo, não exterior, jogando os espectadores o jogo da arte tanto quanto os intérpretes, participando de acontecimento com regras e mundo próprios, significando compreender uma obra de arte entrar nesse jogo já em curso.
  • 2. Tal modelo de compreensão da obra de arte fornece os traços fundamentais da estrutura da experiência hermenêutica, alcançando-se a universalização da ideia de hermenêutica em dois passos: mostrando a historicidade interna de toda forma de compreensão do mundo, e evidenciando seu igualmente intrínseco caráter linguístico, tema do capítulo seguinte, sendo o primeiro objeto deste capítulo.

A historicidade da compreensão

  • 1. Foi mediante reflexão sobre as ciências da história que o conceito de hermenêutica saiu de seu papel auxiliar para erigir-se em método de compreensão das realidades históricas, resultado da obra de Dilthey, prosseguindo Gadamer essa reflexão ao radicalizar a compreensão histórica numa teoria da experiência hermenêutica da qual o saber das ciências históricas constitui apenas uma modalidade.
  • 2. Distinguem-se dois níveis de compreensão histórica: o da experiência normal, em que os indivíduos compreendem seu mundo assentados nas ideias, crenças e costumes concretos de sua época, adotando-os naturalmente, apontando a historicidade da compreensão para esse enraizamento nos pressupostos culturais de sociedade e época; e o da ciência histórica, conhecimento reflexivo, crítico e metódico que persegue objetividade, esforçando-se o historiador por reduzir ao máximo os preconceitos com que sua época e ele mesmo olham a época historiada, introduzindo-se aqui a ideia decisiva de preconceito.
  • 3. O conhecimento histórico objetivo não difere qualitativamente da compreensão normal, sendo forma depurada e metódica da mesma maneira de estar no mundo compreendendo própria da experiência pré-científica, não podendo o historiador romper com ela nem separar-se de sua época, à semelhança do espectador que só compreende a obra participando do que nela acontece, estando também o historiador submetido à história que investiga, sendo a historicidade dimensão estrutural do conhecimento humano que afeta também o conhecimento científico, podendo por isso falar-se da historicidade da compreensão como princípio hermenêutico.

Uma ideia provocadora

  • 1. A reabilitação do papel dos preconceitos na compreensão é uma das ideias mais discutidas de Gadamer, tendo a Ilustração conotado sempre negativamente a ideia de preconceito, como acervo de crenças que encadeia o indivíduo e impede sua liberdade de pensamento, soando por isso claramente provocadora a defesa gadameriana da ideia de preconceito nesse contexto ainda largamente vigente.

Reabilitação da ideia de preconceito

  • 1. Gadamer não nega que os preconceitos exerçam frequentemente papel negativo, obstaculizando a aceitação do novo, mas considera desmedido o ideal iluminista de total libertação dos preconceitos, verdadeiro preconceito da Ilustração contra todo preconceito, decorrendo sua oposição não de nostalgia romântica, mas da condição histórica do compreender: apoiar-se ineludivelmente em crenças e costumes já dados, sem que isso implique fixação a eles, impondo-se recuperar o sentido etimológico original de pré-juízo, o juízo prévio que precede e possibilita a visão concreta.
  • 2. Gadamer obteve essa ideia do conceito heideggeriano de pré-compreensão, tendo Heidegger mostrado, em Ser e Tempo, que toda compreensão concreta implica já compreendida previamente toda uma trama de relações funcionais, pré-compreensão decisiva porém puramente implícita, estendendo-se sua eficácia, segundo Gadamer, a toda forma de conhecimento, inclusive o histórico, sendo a trama de sentido pré-compreendida sobretudo obra da tradição em que vivemos.

A função da tradição

  • 1. A consideração positiva dos pré-juízos não possui sentido valorativo ou moral, sendo constatação descritiva de que todo compreender se sustenta na aceitação implícita de determinados pressupostos, conectando-nos essa necessária pré-compreensão à ideia de tradição, núcleo da teoria da experiência hermenêutica.
  • 2. A tradição possui ambivalência de sentido: de um lado, a ação de transmitir; de outro, o resultado da transmissão, o legado, sendo fundamental para Gadamer o primeiro sentido, tradição como movimento dinâmico incessante em que os sujeitos humanos estão imersos, não sendo o legar mero depositar que preserva incólume o legado, mas implicando sempre transformação, pois a recepção do transmitido é sempre ativa.
  • 3. A vinculação do indivíduo com a tradição realiza-se justamente pelos preconceitos: estar imerso numa tradição significa enfrentar toda situação já portando ideias ou predisposições, hábitos culturais que constituem primeira e antecipada forma de entendê-la, provindo dela as antecipações de sentido fundamentais com que compreendemos as situações vitais, não sendo a antecipação de sentido ato da subjetividade, mas determinada pela comunidade que nos une à tradição.
  • 4. A experiência hermenêutica não é experiência de ser autônomo e plenamente consciente de si, pois sua livre iniciativa opera sempre sobre a base de preconceitos que não decide nem controla, não sendo estes jamais plenamente conscientes nem transparentes à reflexão, constituindo os preconceitos de um indivíduo, mais que seus juízos, a realidade histórica de seu ser, significado básico da historicidade da compreensão.
  • 5. Uma das consequências do papel central da tradição é a relevância da ideia de autoridade, esforçando-se Gadamer por mostrar que a autoridade da tradição nada tem a ver com obediência cega, fundando-se antes no reconhecimento racional de superioridade moral ou cognoscitiva, tema que motivou a crítica de Habermas e da Escola de Frankfurt.

Pertença e mobilidade

  • 1. A consciência da presença ativa dos pré-juízos históricos dissipa a ideia de sujeitos plenamente conscientes que configuram livremente sua história, sendo antes o movimento da tradição que configura o ser do indivíduo, não sendo a história o que nos pertence, mas nós é que lhe pertencemos, pertencendo a ela por vinculação pré-consciente aos preconceitos, havendo relação de inclusão entre sujeito e tradição subjacente à relação puramente cognoscitiva entre sujeito e objeto.
  • 2. Constitui, contudo, deformação do sentido hermenêutico de pertença entendê-la como identidade fixa, definindo os indivíduos por sujeição a tradição cultural, alimentando essa deformação as atuais políticas da identidade e certa leitura da hermenêutica como fonte do multiculturalismo, não sendo a tradição identidade nem dependendo os indivíduos de nela permanecerem ancorados, sendo antes movimento constante mediado pela razão e pela liberdade, não realizando-se a tradição mais autêntica naturalmente, mas necessitando ser afirmada, assumida e cultivada.

O círculo hermenêutico

  • 1. A insistência de Gadamer na função dos pré-juízos confirma o chamado círculo hermenêutico, já anunciado por Schleiermacher ao afirmar que o saber perfeito reside no círculo aparente entre o singular e o geral de que é parte, radicalizado por Heidegger ao mostrar que a pré-compreensão não é peculiaridade do conhecimento, mas forma do estar-no-mundo, devendo toda interpretação já ter compreendido aquilo que nela se há de interpretar.
  • 2. O círculo é aparente porque compreender possui, na frase, dois sentidos distintos: o compreender prévio, pré-compreensão, e o compreender que resulta do processo compreensivo, avançando sempre a interpretação explicitando, determinando e eventualmente modificando a ideia prévia, não sendo o círculo, para Gadamer como para Heidegger, metodológico, mas descrevendo momento estrutural ontológico da compreensão.

Consciência histórica e consciência hermenêutica

  • 1. Sendo a historicidade da compreensão dimensão do ser histórico que somos, propõe-se Gadamer que a investigação hermenêutica da história reconheça todo o direito ao momento da tradição, também operante no trabalho interpretativo do historiador, passando-se da compreensão habitual à compreensão científica, à hermenêutica em sentido técnico de interpretação de fatos históricos passados.
  • 2. Confronta-se Gadamer constantemente com a consciência histórica, entendida não apenas como consciência de que os produtos do conhecimento guardam relação com sua época de surgimento, mas sobretudo como objetivismo histórico, pretensão de Dilthey e da Escola histórica, com a qual discute Gadamer com base na historicidade constitutiva de estarmos sempre imersos numa tradição.
  • 3. A ideia de objetividade histórica exige desconectar-se do horizonte histórico atual, inibindo os preconceitos da própria época para trasladar-se limpamente à época investigada, convertendo a extranheza produzida pelo distanciamento em outra forma de extranheza (Verfremdung), a da pura objetividade, cumprindo assim a máxima hermenêutica de Schleiermacher de compreender um autor melhor do que ele mesmo se compreendeu.
  • 4. Gadamer considera que o objetivismo das ciências históricas não extrai as devidas consequências de viver em tradições, não cabendo distanciamento completo delas, devendo pensamento verdadeiramente histórico pensar simultaneamente sua própria historicidade, denominando-se essa exigência história efeitual (Wirkungsgeschichte), realidade histórica operante não apenas no objeto que se pretende conhecer, mas na própria compreensão dele, exigindo-se assim a consciência da história efeitual, autêntica consciência hermenêutica, definida como consciência produzida pela história e, ao mesmo tempo, consciência desse ser produzida e determinada.

Interpelação, pretensão de verdade, aplicação

  • 1. A consciência hermenêutica destaca vários momentos: primeiro, que o objeto de investigação não é objeto alheio, mas estamos a ele unidos pelo curso da tradição, sendo a primeira das condições hermenêuticas a pré-compreensão que surge de ter a ver com o mesmo assunto, não estando o investigador jamais ante seu objeto com a indiferença do observador neutro, mas trazendo já interesses e ideias prévias.
  • 2. Esse contato prévio manifesta-se naquilo que Gadamer considera o início de toda compreensão do passado: o texto ou quadro nos diz algo, nos toca, nos afeta, entendendo Gadamer esse efeito inicial como interpelação, longe de ser o passado peso inerte, dirigindo-se a nós e obrigando-nos a tomar posição, não sendo essa interpelação obstáculo à compreensão, mas seu começo produtivo, consistindo compreender em responder à interpelação e entrar em espécie de diálogo com o que o passado diz.
  • 3. Conduz isso ao princípio talvez mais interessante do pensamento gadameriano, a antecipação da perfeição, comportando duas crenças: que o que se vai ler possui unidade formal mínima, sentido inteligível e coerência suficiente; e que o texto pretende dizer algo verdadeiro, radicando a pretensão de verdade do passado em sua capacidade de transcender seu mundo e época e dizer algo ao presente, atravessando a distância histórica, sendo essa pretensão condição da compreensão real, algo que o objetivismo histórico paradoxalmente não compreende ao privar o texto de sua pretensão de dizer algo verdadeiro.
  • 4. Resume-se tudo isso no conceito de aplicação, tradicionalmente momento secundário e derivado da compreensão, sustentando Gadamer que uma aplicação implícita ao mundo do leitor está presente já na interpelação e na pretensão de verdade do texto, sendo a aplicação não estágio final, mas centro do próprio processo compreensivo.

A mobilidade histórica do compreender

  • 1. Entre o sentido do passado histórico, tornado em parte estranho pela distância temporal, e as pré-compreensões do sujeito estabelece-se processo de intercâmbio e modificação em que consiste propriamente compreender, não impondo as antecipações do intérprete sentido ao objeto, mas vendo-se obrigadas a modificar-se e reajustar-se ao choque com a alteridade sempre mantida pelo passado.
  • 2. Dessa mobilidade decorre o famoso conceito de fusão de horizontes, surgido na discussão com o objetivismo da consciência histórica e sua exigência de deslocamento a horizonte passado, considerando Gadamer artificiosa e abstrata tal exigência, mostrando a mobilidade real da compreensão que os horizontes históricos não são magnitudes fixas e estáticas, mas configurações móveis que se transformam, formando-se o horizonte do presente constantemente à medida que se põem à prova nossos preconceitos, sendo o compreender antes o processo mesmo de fusão desses horizontes presumidamente para si.

A hermenêutica e a questão crítica

  • 1. Da fusão de horizontes decorre a controvertida tese de que compreender não é compreender melhor, mas compreender de modo diferente, contexto de discussão com o princípio, herdado do romantismo e assumido pelo objetivismo histórico, de que boa interpretação conheceria autor ou época melhor do que estes se conheceram, reprochando Gadamer a esse ideal suprimir a insalvável distância entre intérprete e texto e crer poder reproduzir o sentido original com clareza que nem o próprio autor possuía.
  • 2. Não podendo o compreender consistir em impossível reprodução exata, mas em pôr em jogo os preconceitos frente à alteridade do texto, tendo toda interpretação, à semelhança da obra de arte, algo de produção e novidade, sem que isso justifique a arbitrariedade, cabendo legitimamente falar de interpretações melhores e piores com base em critérios histórico-filológicos, embora, em última análise, o sentido do texto passado se vincule sempre ao que diz ao presente.
  • 3. O verdadeiro problema hermenêutico não é se o caráter produtivo da interpretação justifica arbitrariedade, mas distinguir os preconceitos que potenciam a compreensão dos que a distorcem, reconhecendo Gadamer tratar-se da verdadeira questão crítica da hermenêutica, à qual, contudo, não oferece resposta clara, atribuindo à distância temporal a chave da solução, ao neutralizar preconceitos e permitir que o sentido apareça mais claramente, sem que essa solução resulte convincente por não oferecer critério ou pauta metódica ao investigador.

O diálogo, forma do pensamento hermenêutico

  • 1. A lógica da experiência hermenêutica mostra-se como lógica da pergunta e da resposta, dialética ao modo platônico, arte do diálogo, implicando o dirigir-se dos textos do passado a nós, desde uma alteridade, o sentido de uma pergunta que nos questiona e obriga a responder tomando posição, situando todo verdadeiro perguntar em aberto aquele que é interrogado.
  • 2. Compreender um texto significa entendê-lo como resposta a algo, desvelando a pergunta que lhe subjaz, fazendo parte do sentido tanto o que o texto diz explicitamente quanto aquilo que não diz, tendo assim a compreensão estrutura de conversação, aparecendo a tradição como um tu que nos fala e com quem entramos em diálogo permanente.
  • 3. O verdadeiro diálogo se dá no seio de acordo básico proveniente de estarem os interlocutores movidos essencialmente pela coisa mesma de que tratam, sendo secundária a subjetividade dos participantes, supondo todo verdadeiro diálogo a possibilidade de que o outro tenha razão, atraindo a Gadamer a dialética platônica precisamente por mostrar que o tema da conversação se vai revelando através das perguntas e respostas dos participantes, constituindo esse entendimento progressivo na coisa a essência do diálogo, distinta do consenso a que a tradução por vezes reduz o termo Verständigung, referente antes à subordinação prévia dos interesses e opiniões dos participantes à força das razões, não à dos sujeitos.
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