estudos:franck:maos-cruzadas-1986

Mãos cruzadas (1986)

DFHPE

  • Condição de possibilidade da ontologia fundamental e limiar do problema: a carne se encarna sem ser nem tempo
    • A ontologia fundamental interpreta o ser no horizonte do tempo e distribui os modos de ser que distingue — Dasein, ser-à-mão e ser-subsistente — segundo sentidos temporais próprios, sempre reconduzidos, em última instância, à temporalidade ekstática que constitui a própria compreensão do ser.
    • A carne, por não possuir nenhum dos modos de ser discernidos por Être et Temps, não se deixa situar nesse quadro de determinação, pois se encarna sem ser nem tempo, de modo que sua aparição não pode ser entendida como variação interna de uma temporalização.
    • Se a espacialidade carnal for pressuposta pela espacialidade da preocupação, então o espaço se torna irreduzível ao tempo e a tentativa de reconduzir a espacialidade do Dasein à sua temporalidade se revela vã, porque o fundamento presumido da derivação é precisamente o que a carne retira do alcance da temporalidade.
  • Estrutura da espacialidade do ser-no-mundo: co-implicação de des-distância e orientação sob o regime da preocupação
    • A espacialidade do ser-no-mundo é definida pelo des-distanciar e pela orientação, e esses dois existenciais são indissociáveis, pois todo aproximar já tomou previamente uma direção numa região da qual o longínquo se aproxima para ser encontrado quanto ao seu lugar.
    • A preocupação circunspectiva é caracterizada como um des-distanciar-orientante, isto é, uma dinâmica em que o des-distanciar e a orientação se co-determinam segundo o que se apresenta no mundo da ocupação.
    • A hermenêutica da orientação é homogênea à do des-distanciamento porque se regula pelo ente que se apresenta à preocupação, implica a pluralidade de regiões e a redução da espacialidade à temporalidade, e, por isso mesmo, exclui qualquer referência originária à carne e à mão.
  • Exclusão explícita da carne na análise da lateralidade e subordinação da orientação carnal à orientação do Dasein decaído
    • A exclusão se mostra na delimitação heideggeriana da análise da lateralização, ao afirmar que, da orientação, nascem as direções fixas de direita e esquerda que o Dasein carrega consigo como carrega seus des-distanciamentos.
    • A espacialização do Dasein em sua carne é declarada portadora de uma problemática própria, mas deslocada para fora do tratamento, e, apesar disso, é usada como marcador para distinguir a orientação segundo direita e esquerda.
    • Os utensílios de uso carnal, como luvas que devem participar dos movimentos das mãos, exigem orientação segundo direita e esquerda, ao passo que um utensílio de trabalho manual, como o martelo, ainda que manuseado com a mão, não participa do movimento especificamente manual da mão, razão pela qual não haveria martelo direito ou esquerdo.
    • A orientação carnal segundo direita e esquerda é, assim, submetida à orientação do ser-no-mundo preocupado e decaído, o que requer, para ser coerente, que a carne se encontre no mundo e que o Dasein possa encarnar conforme seu ser.
  • Inconsistência das condições de subordinação: a carne não aparece de frente, não existe enquanto viva, e a destemporalização do espaço inviabiliza o quadro
    • A subordinação exige que a carne seja intramundana e que o Dasein se encarne sem desmentir seu sentido de ser, mas a carne não aparece de frente e, enquanto viva, não existe, de modo que ela não se deixa captar no regime ontológico em que o Dasein é tematizado.
    • Ainda que tais condições fossem satisfeitas, a destemporalização do espaço tornaria imediatamente insuficientes essas exigências, pois a derivação temporal da espacialidade seria bloqueada justamente onde deveria fundamentar a orientação carnal.
    • Em consequência, um Dasein desencarnado em virtude de seu sentido de ser não pode ter direita nem esquerda, e a espacialidade carnal parece exceder a analítica existencial e, com ela, o horizonte de uma ontologia que pretende ser universal.
  • Alcance ontológico da questão direita-esquerda e tensão com a diferença ontológica
    • Ao sustentar que a encarnação, como a vida, pertence a uma problemática própria, reconhece-se tacitamente que aquilo que se encarna-e-vive é estranho ao Dasein e ao ser tal como a ontologia fundamental os compreende, pois uma ontologia universal não toleraria questões autônomas e separadas sem desmentir sua pretensão.
    • A radicalidade do impasse aparece quando se pergunta se a diferença direita-esquerda, isto é, a carne, é pensável à luz da diferença ontológica, uma vez que a carne é ontologicamente inconcebível e o espaço, sem ser.
    • A comparação entre estar engajado na diferença ser-ente e estar engajado na diferença direita-esquerda torna-se ilegítima se o espaço carnal não se deixa reconduzir a um domínio regional do espacial, mas impõe uma exterioridade que a diferença ontológica não sabe acolher.
  • Paradoxo metodológico: para dar primazia ao espaço cotidiano é preciso desligar o utensílio da mão enquanto direita ou esquerda
    • Como direita e esquerda são estruturas da espacialidade carnal, a prioridade do espaço cotidiano sobre o espaço da carne exige, paradoxalmente, que o ente à-mão intramundano, paradigma da espacialidade do ser-no-mundo, seja desligado de qualquer relação ontológica com a mão enquanto direita ou esquerda.
    • Uma vez afirmado que o utensílio não é direito nem esquerdo, a orientação carnal só poderá ser tratada como secundária se a demonstração for feita apenas com os recursos da analítica existencial, isto é, sem pressupor aquilo que se pretende derivar.
    • É esse o sentido da comparação entre luvas e martelo, reforçada pelo curso de 1925, em que o caráter direito ou esquerdo do que participa do movimento carnal é distinguido do instrumento que é movido por mim sem participar do meu se-mover próprio.
  • Fundamento cinemático e índice ontológico: Je meus versus Il est mû e impossibilidade de manter os dois grupos no mesmo ser-à-mão
    • A distinção entre utensílios de uso carnal e utensílios de trabalho repousa numa diferença de mobilidade, pois o movimento carnal é um Je meus livre e espontâneo, enquanto o movimento do instrumento é um Il est mû dependente e condicionado.
    • Toda diferença cinemática é tomada como índice de uma diferença de ser, de modo que a mobilidade da existência não é o movimento de um ente subsistente.
    • Se luvas e martelo obedecem a movimentos dissemelhantes, então não podem pertencer ao mesmo ser-à-mão, e a partilha ontológica proposta se torna impossível no interior do quadro existencial, pois ela exige sustentar uma unidade ontológica que o próprio critério de mobilidade dissolve.
    • Como o movimento carnal é Je meus, a carne não pode ser um ente subsistente, e a análise da lateralização se torna contraditória ao atribuir à encarnação um modo de ser que a ontologia fundamental ignora.
  • Reversão do argumento: a carne e seu espaço se impõem como originários no ato mesmo de serem rebaixados a secundários
    • A interpretação da orientação carnal pretendia assegurar o primado do espaço da preocupação sobre a espacialidade encarnada, mas, ao recorrer ao Je meus, ela introduz um conceito de carne heterogêneo à analítica do Dasein e inconcebível segundo a existencialidade.
    • Isso implica que a carne e o espaço carnal se impõem como originários no momento exato em que são relegados como derivados, pois a demonstração precisa pressupor a espacialização carnal para poder descrevê-la como subordinada.
    • O resultado não é afirmar que o martelo seja direito ou esquerdo, mas reconhecer que o ente à-mão é à mão direita ou à mão esquerda, já que não há mão em geral, e essa determinação altera o estatuto do paradigma intramundano.
  • Prova fenomenal da prioridade carnal: variação da disposição dos utensílios segundo destreza lateral
    • A evidência fenomenal da prioridade da orientação carnal reside no fato de que o lugar dos utensílios varia, mantidas as demais condições, conforme se seja destro ou canhoto.
    • Ao construir um cofre, o martelo é disposto à direita e os pregos do outro lado, ao passo que um canhoto procederá inversamente, o que mostra que a orientação e o espaço carnais devem ser previamente descobertos para que a preocupação possa atribuir a cada utensílio o lugar adequado numa região.
    • A organização espacial da ocupação não funda, mas pressupõe a lateralidade carnal, pois é a mão concreta que determina o “aqui” operativo no interior do qual o utensílio se torna disponível.
  • Forma do erro: convocar sub-repticiamente o que se revoga ostensivamente e paralelismo com a crítica à orientação kantiana
    • Recorrer ao Je meus e à mobilidade da carne para instituir uma partilha dos utensílios destinada a manter a orientação carnal sob tutela da preocupação é pressupor a carne, a direita e a esquerda para em seguida derivá-las do ser-no-mundo, convocando sub-repticiamente o que se revoga ostensivamente.
    • A objeção é formalmente idêntica à crítica heideggeriana da orientação kantiana, pois, ao atribuir a orientação a um princípio subjetivo encapsulado, Kant introduz de passagem a memória da posição de um objeto, isto é, algo que aponta para o ser-no-mundo como a priori da orientação.
    • A argumentação kantiana implica o ser-no-mundo para corroborar um sujeito sem mundo, enquanto a argumentação heideggeriana abstrai o utensílio da mão direita ou esquerda mediante um Je meus carnal que implica a espacialidade encarnada, para contê-la no círculo da preocupação.
    • Assim como o Dasein funda o sujeito kantiano e sua orientação, o espaço que a angústia manifesta precede a pluralidade das regiões e das posições, e a carne, encarnando sem ser nem tempo, torna-se ainda mais impensável para a ontologia fundamental do que o ser-no-mundo o é para a ontologia crítica.
  • Nomeação do espaço revelado pela angústia: necessidade de concebê-lo a partir da relação carnal com o outro
    • O espaço que aparece com a angústia, condição de toda orientação e sem nome possível segundo conceitos categoriais ou existenciais, deve ser pensado a partir de três determinações já estabelecidas: ele é essencialmente ligado à carne, a encarnação é o modo fundamental de exterioridade a si, e o des-distanciamneto do ente à-mão oculta por substituição o des-distanciamento de outrem.
    • Consequentemente, o espaço destemporalizado deve ser concebido a partir da relação carnal com o outro, pois é nessa co-pertença que a espacialização originária se decide.
    • Se a sexualidade atesta fenomenalmente que a encarnação é uma modalidade do ser-com, então a própria carne é espacializante, e sua espacialidade antecede a do Dasein, não sendo nem própria nem imprópria e permanecendo estrangeira a toda temporalidade.
  • Estrutura própria da carne: expropriação e entre, como constituição do espacioso sem ser nem tempo
    • A carne é em si entre ela mesma e outra que ela mesma porque é constituída por outro que si, e essa constituição por alteridade introduz uma espacialidade originária que não pode ser traduzida em termos de temporalização.
    • Por isso, a espacialidade encarnada, anterior à espacialidade do Dasein, é indiferente às distinções de próprio e impróprio que regem a analítica existencial e, ao mesmo tempo, impede reconduzir o espaço ao tempo.
    • O espaço carnal se define como um espaçar que não resulta de um mundo já organizado, mas constitui o próprio campo em que qualquer organização ulterior se torna possível.
  • Limite do des-distanciamento do Dasein e necessidade de outra figura espacial: o Dasein não atravessa seu des-distanciamento, a carne se entrecruza
    • Uma particularidade do des-distanciamento mostra que, se ele é ao mesmo tempo distância e abolição da distância, não pode ser cortado como caminho, pois o Dasein pode atravessar uma extensão, mas não pode atravessar um des-distanciamento que lhe é essencial.
    • O Dasein não cruza seu des-distanciamento, antes o carrega consigo, porque é, em sua essência, des-distanciamento, isto é, espacial, e essa estrutura só tem sentido para um Dasein sempre meu.
    • Essa estrutura não pode caracterizar a espacialidade de uma carne expropriada que não cessa de cruzar-se e entrecruzar-se com outra, pois a carne é espacializante enquanto entrecruzada com e por outra carne.
    • A figura adequada do espaço revelado não é, portanto, o des-distanciamento do Dasein, mas uma entrecruzada originária que define a espacialização carnal.
  • Nome próprio do fenômeno: entrecruzada das mãos como preservação da referência manual e afirmação da ausência de mão em geral
    • O espaço progressivamente extraído deve ser nomeado como entrecruzada das carnes, mas conserva-se o título entrecruzada das mãos para preservar a referência manual que atravessa a língua de Sein und Zeit e para sublinhar que não há mão desorientada, singular, em geral.
    • A entrecruzada das mãos, como entrelaçamento originariamente espacializante da carne, não possui nenhum dos modos de ser inventariados pela ontologia fundamental, pois a carne viva e sexuada se encarna sem ser nem tempo e, integrada ao si, confunde a diferença entre próprio e impróprio.
    • A tese decisiva afirma que a espacialidade do Dasein, enquanto estar em um mundo em que o ente é à-mão e subsistente, pressupõe a entrecruzada das mãos e, por isso, é irreduzível à temporalidade ekstática, invalidando o parágrafo 70 e motivando o inacabamento de Sein und Zeit.
  • Indecisão ontológica do espaço em Sein und Zeit e antecipação da retração do parágrafo 70
    • As dificuldades da hermenêutica do espaço afloram já em Sein und Zeit quando se reconhece que o fato de o espaço mostrar-se essencialmente em um mundo não decide ainda o modo de seu ser.
    • Afirma-se que o espaço não precisa ter o modo de ser do ente à-mão ou subsistente e não tem tampouco o modo de ser do Dasein, o que deixa em aberto a questão de como pode ser algo que não responde aos modos de ser disponíveis.
    • A perplexidade persistente quanto ao ser do espaço é atribuída à falta de transparência fundamental das possibilidades do ser em geral e de sua interpretação ontológica conceitual, mas essa atribuição pode pressentir que o problema do espaço afeta a ontologia fundamental e se coloca fora da conjunção de ser e tempo.
    • A indeterminação ontológica do espaço anuncia a retração do parágrafo 70 ao indicar que a temporalidade pode não entregar o sentido constitutivo do espaço.
  • Paralelo com a língua: problema do modo de ser da linguagem e predominância espacial das significações
    • As últimas formulações sobre o discurso e a língua ecoam a indecisão sobre o espaço ao perguntar que modo de ser cabe atribuir à língua em geral, se ela é utensílio intramundano, se tem o modo de ser do Dasein ou nenhum dos dois.
    • Questiona-se como uma língua pode ser “morta”, o que significa ontologicamente crescer e declinar, e constata-se que, embora haja ciência da língua, o ser do ente tematizado por ela permanece obscuro e até o horizonte de uma pergunta investigadora permanece velado.
    • A pergunta sobre se é casual ou ontologico-existencialmente necessário que as significações sejam primeiro e em geral mundanas e muitas vezes de predominância espacial liga a linguagem à mesma dificuldade que atravessa o espaço, pois ambos parecem escapar aos modos de ser e aos regimes de temporalização.
  • Retorno à mão em Parmênides: τὰ πράγματα como totalidade originária do vínculo homem-coisas e tradução como Handlung
    • A afinidade entre língua e espaço carnal se torna patente num texto em que, ao comentar uma palavra de Píndaro no curso sobre Parmênides, a expressão τὰ πράγματα é interpretada como palavra para a totalidade originariamente inseparável do vínculo entre as coisas e o homem.
    • Πρᾶγμα é traduzido por Handlung, não como actio enquanto atividade humana, mas como modo unitário em que as coisas são subsistentes e à-mão, isto é, referidas à mão, e em que o homem, em seu comportamento, manobrando pela mão, é posto na relação com o que está subsistente.
    • Essa tradução confirma a legitimidade do ponto de partida ao recolocar a mão como domínio de aparição das coisas, ao passo que, segundo Sein und Zeit, a mundanidade tenderia a desonerar as coisas de sua gravidade manual.
    • A aceitação se restringe à tese de que as coisas também “manobram” na medida em que se desdobram em presença no domínio da mão, mas esse domínio não é pensado como modalidade da presença, pois a carne se encarna sem ser nem tempo.
  • Co-pertença essencial entre mão e palavra: des-velamento, mostração, escrita e gramática como desdobramentos do gesto manual
    • A mão guarda em sua essência o vínculo recíproco entre o ente e o homem, pois só há mão onde o ente aparece como tal não-velado e onde o homem se conduz de modo des-velante.
    • A mão, como a palavra, guarda o vínculo do ser com o homem e, por isso, primeiramente, a relação do homem com o ente, sendo dito que a mão manobra, isto é, que sua obra não é mero órgão, mas modo de desocultação.
    • A co-pertença de mão e palavra se revela porque a mão desvela o oculto ao mostrar, e, mostrando, desenhar, e, desenhando, formar sinais que mostram em figuras, chamadas γράμματα a partir de γράφειν.
    • O palavra mostrada pela mão no desenho é a escrita, e a doutrina da estrutura da língua se chama gramática, o que reconduz o fenômeno linguístico à proveniência manual que o institui.
  • Consequência decisiva: mão, palavra, carne e língua concernem à verdade do ser e reorientam a tarefa da pensamento
    • Se a mão, como a palavra, guarda o vínculo do ser com o homem, então carne e língua concernem à verdade do ser mesma, pois desvelar o oculto e descobrir o encoberto são modos de abertura do ser à sua própria verdade.
    • Se o caminho que vai ao não-velado pertence ao domínio de essência do πρᾶγμα, a mais alta manobra, necessariamente a mais propriamente manual, é a pensamento, que encaminha à verdade do ser.
    • Pensar é prestar a mão à essência do ser, e, como cada mão se dá à outra na entrecruzada das mãos, a pensamento, recebendo sua vocação da ἀλήθεια, é obra de mãos, isto é, encarnação.
    • A afirmação de que o homem pensa apenas na medida em que fala, e que os gestos da mão atravessam toda a língua com maior pureza quando se fala calando, reforça que toda obra da mão repousa na pensamento e que a pensamento é a obra mais simples e mais difícil da mão.
  • Manuscrito, leitura e decisão sobre o vínculo ser-palavra-homem: escrita como marca ôntica da história do ser
    • A escrita, em sua proveniência essencial, é manuscrito, e a apreensão desvelante do escrito é leitura como recolhimento, λέγειν-λόγος, cujo nome, no pensamento inicial, é nome do próprio ser.
    • Ser, palavra, leitura, escrita nomeiam uma conexão de essência originária à qual pertence a mão que escreve e mostra, e no manuscrito o vínculo do ser com o homem, isto é, a palavra, é desenhado no próprio ente.
    • A origem e o modo de tratamento da escrita já contêm uma decisão sobre o vínculo entre ser e palavra e sobre a relação do homem ao ente, bem como sobre o modo como homem e coisa se mantêm no não-velado ou dele se retiram.
    • A escrita e a voz constituem o carnal da língua, cuja insuficiente experiência e pensamento são atribuídos ao fato de a metafísica não ter interrogado a carne e seus modos de compreensão ao longo de seu destino.
  • Silêncio grego sobre a mão e tarefa de pensar ἀλήθεια, λήθη e Ereignis como reabertura do charnel e do espaçoso da língua
    • A ausência de um questionamento da carne faz com que, para os gregos, habitar a essência da língua não se converta em pensá-la em próprio, o que significa permanecer na ἀλήθεια sem voltar-se para sua essência.
    • Dizer que os gregos pensam, dizem e manobram na essência de ἀλήθεια e λήθη sem pensar e dizer para essa essência, implica que um outro começo exigiria voltar-se para a essência da ἀλήθεια, onde pensar, dizer e manobrar poderiam ser pensados em próprio.
    • Se a mão depende da constelação da verdade do ser, então a tarefa imposta pelo abandono de projetos derivados da diferença ontológica — pensar o próprio, a apropriação, Ereignis — implica também pensar a mão, a carne e o carnal, isto é, o espaçoso da língua abandonado à Σιγή.
  • Técnica e Gestell no horizonte da mão e do manuscrito: história do ser como história das maneiras de escrever
    • O Gestell, enquanto essência da técnica, preludia a apropriação que supera seu império, e, se pensar Ereignis é também pensar o carnal, a técnica deve poder ser compreendida relativamente ao domínio da mão e da palavra.
    • Como a escrita marca onticamente o vínculo do ser com o homem, a história do ser se torna legível na história das maneiras de escrever, o que exige perguntar como o homem da era técnica escreve.
    • Escrever à máquina e ditar à máquina revelam uma história da escrita que contribui para a devastação crescente da palavra, pois a palavra não passa mais pela mão que escreve e manobra propriamente, mas por impressão mecânica.
    • A máquina de escrever arranca o escrito do domínio de essência da mão, degradando a palavra a algo “datilografado” e reduzindo-a a meio de comunicação, o que só é possível se a própria mão for previamente modificada em órgão de bater, a voz em órgão de fonação e a carne desvelante em organismo.
    • A técnica organiza a mão e é organização da carne antes de ser organização dos entes, e afirmar que a mão manobra destitui a mão de função meramente orgânica para restituí-la à verdade do ser como aquilo que foi mantido em silêncio, sugerindo que a carne se relaciona mais puramente à língua quando nela reina o silêncio do ser e do tempo que se eclipsam no Ereignis.
estudos/franck/maos-cruzadas-1986.txt · Last modified: by mccastro