Evidência
FRANCK, Didier. Chair et corps. Sur la phénoménologie de Husserl. Paris: Minuit, 1981:18-21
1. A intenção pura que atravessa e anima o esforço científico, ou seja, a ideia teleológica constitutiva da ciência verdadeira, é a de um encadeamento sistemático de juízos verdadeiros fundados uns sobre os outros, omnitemporais, intersubjetivos, infinitamente iteráveis como os “mesmos” e evidentes, razão pela qual a evidência constitui o próprio sentido da ciência.
2. A análise intencional da evidência, que as Meditações cartesianas não desenvolvem por si mesma por se orientarem rapidamente para a busca de uma evidência apodíctica e primeira, só se torna tema com a abertura da problemática constitutiva, sendo guiada pelo princípio enunciado no § 21 de Ideias I, segundo o qual toda evidência no juízo cai sob o conceito de intuição doadora (intuition donatrice), cujo modo originário de doação das coisas mesmas é, finalmente, a percepção.
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A evidência, entendida como o vivido cujo correlato é a realidade, permite integrar esta à vida do ego, confirmando simultaneamente o solipsismo e o idealismo fenomenológicos.
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A intuição doadora, ou doação das coisas mesmas, é a característica mais geral de toda evidência, anterior à sua diferenciação em adequada ou inadequada, assertórica ou apodíctica, pura ou impura, predicativa ou antepredicativa.
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A evidência judicativa, intuição doadora de estados de coisas, remete sempre à evidência daquilo sobre o que o juízo incide, isto é, à evidência dos substratos.
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Em Lógica formal e lógica transcendental (§ 59), a evidência é definida como a produção (Leistung) intencional da autodoação, forma geral por excelência da consciência de algo, na qual o objeto é consciente no modo do apreendido e do visto ele mesmo, consciência arcaica (urtümliche) que capta a coisa mesma originaliter, em contraste com a apreensão por imagem ou com qualquer pré-visada intuitiva ou vazia.
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A evidência possui diversos modos de originariedade, sendo a percepção o arquimodo da autodoação, o que conduz à questão de como a percepção se deixa descrever.
3. Desde a sexta Investigação lógica, a evidência perceptiva é intenção preenchida, preenchimento definitivo e último da intenção por intuições que realizam a verdadeira adequatio rei et intellectus, e a extensão dos conceitos de intuição e de percepção à esfera categorial permite que atos categoriais, fundados no sensível, deem seu objeto do mesmo modo que a percepção sensível dá o seu: em carne (en chair).
4. Toda consciência perceptiva tem como propriedade ser consciência da autopresença encarnada de um objeto individual, e essa doação encarnada não se limita aos objetos reais, pois Husserl, ao modificar sistematicamente na segunda edição das Investigações lógicas (1913-1920) a restrição da encarnação à percepção adequada, própria da primeira edição (1900-1901), estende-a também à visão de essência, que Ideias I define como intuição doadora originária apreendendo a essência em sua ipseidade “encarnada”, desde que seja visão em sentido forte e não mera e talvez vaga re-presentação (Vergegenwärtigung).
5. A doação encarnada que define a evidência em geral, antes de toda crítica e de todo problema de apoditicidade, não pode ser tomada como metáfora, maneira de dizer ou traço de estilo de Husserl, pois todas as suas análises afirmam que a carne acompanha cada percepção, sendo ao mesmo tempo dada e doadora, de modo que, embora nem toda autodoação seja necessariamente encarnada, a autodoação em carne constitui seu modo excelente e seu telos.
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A leitura metafórica repousaria sobre uma dupla pressuposição de raiz talvez comum: a de conceitos triviais de metáfora, de dizer e de estilo, que ignoram o papel da carne na análise husserliana da linguagem, e a de um estado de coisas fenomenológico em si mesmo, juridicamente desligado de toda relação com a carne.
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O esboço (esquisse), próprio da percepção de uma coisa transcendente, só possui pleno sentido para um sujeito de carne capaz de girar em torno da coisa, de aproximar-se dela ou de afastar-se.
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O horizonte, ao menos no nível de descrição que exclui a constituição da temporalidade imanente, só possui pleno sentido se o sujeito for um “Eu posso” e este um “Eu me movo”, já que, segundo Ideias II, originariamente o “Eu movo” (ich bewege) precede o “Eu faço” e o “Eu posso fazer”.
6. Numa das raras análises consagradas à fenomenologia husserliana e à constituição fundamental da intencionalidade, Heidegger distingue cuidadosamente, no exemplo da percepção de coisa, autodoação e autodoação encarnada: o percebido enquanto tal tem o caráter de encarnação (Leibhaftigkeit), estando ali em carne (Leibhaft da) e sendo dado não só como ele mesmo, mas ele mesmo em sua carne, diferença que se esclarece pelo contraste com a simples re-presentação (Vergegenwärtigung), como quando se re-presenta a ponte Weidenhausen, visando a própria ponte e não uma imagem ou fantasia dela, sem que ela seja dada em carne, o que só aconteceria descendo até ela para se pôr diante da ponte mesma, donde se conclui que o dado em si mesmo não precisa ser dado em carne, enquanto todo dado em carne é dado em si mesmo, sendo a encarnação um modo excelente da autodoação de um ente.
7. Pouco adiante, Heidegger afirma que o momento próprio da perceptibilidade do percebido, a partir da simples percepção, consiste em que o ente percebido está ali em carne, e que a esse caráter do percebido como ente ali (daseiendes) em carne e em si mesmo acrescenta-se, como momento suplementar de toda percepção concreta de coisa, o fato de a coisa percebida ser sempre visada em sua totalidade de coisa (Dingganzheit).
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No seminário de Le Thor, de 8 de setembro de 1968, registrado em Questões IV, à pergunta sobre o essencial na percepção responde-se recusando a αἴσθησις, com a observação de que o inferno começou com os gregos justamente na distinção entre αἴσθησις e νόησις.
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O essencial reside na noção de Leibhaftigkeit: na percepção, aquilo que entra em presença afeta em carne e osso o próprio corpo.
