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Fenômeno da comunicação humana

FLUSSER, Vilém. The surprising phenomenon of human communication. Milton Keynes: Metaflux, 2016.

Nota do editor

1. Os doze ensaios de O surpreendente fenômeno da comunicação humana foram escritos no segundo semestre de 1975, na preparação de um curso sobre o fenômeno da comunicação humana realizado no Théâtre du Centre, em Aix-en-Provence, de 6 de novembro de 1975 a 2 de fevereiro de 1976, com patrocínio do Ministério da Cultura francês, num momento em que a teoria da comunicação já era tema central da pesquisa de Flusser e em meio a uma série de títulos que exploravam fenomenologicamente os conceitos amplos da comunicação humana, mas, ao contrário das demais séries de ensaios do período, este nunca se tornou livro, apesar de os ensaios terem sido impressos e distribuídos na França por acordo com o ministério, de modo que esta é sua primeira publicação em forma de livro, a partir das conferências redigidas tanto em francês quanto em inglês, sem que se saiba qual versão veio primeiro, sendo os dois últimos ensaios, ausentes da versão inglesa, Alienação e estereótipo e Conclusões, traduzidos do francês com a ajuda de Danielle Naves.

2. No início dos anos 1960, enquanto lecionava filosofia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e no Instituto Brasileiro de Filosofia, entre outras instituições, Flusser iniciou a primeira fase de produção de seu projeto filosófico, trabalhando direta e indiretamente a hipótese da língua simbólica como estrutura da realidade humana.

3. Essa hipótese originou os principais títulos do período, como Língua e realidade, de 1963, A influência do pensamento existencial na atualidade, inédito de 1964, Filosofia da linguagem, de 1965, A história do diabo, de 1965, Até a terceira e quarta geração e Conceitos fundamentais do pensamento ocidental, inéditos de 1965, Da dúvida, escrito em 1965 e publicado em 1999, e Da religiosidade, de 1967, ao passo que nos ensaios de O surpreendente fenômeno da comunicação humana emergiu uma nova hipótese de trabalho, progressão, desenvolvimento e mutação da anterior, segundo a qual a estrutura da comunicação é a infraestrutura da realidade humana, explorada continuamente até sua morte prematura em 1991 e responsável por seus principais títulos de teoria da mídia, como La force du quotidien, escrito em português em 1971 e publicado em 1973, Le monde codifié, de 1974, Natural:mente, escrito em 1974-75 e publicado em 1979, Gesten, escrito em 1976 e publicado em 1991, Mutation in Human Relations, escrito em 1978 e publicado em 1996 na coletânea Kommunikologie, Pós-história, escrito em 1979 e publicado em 1983, Für eine Philosophie der Fotografie, de 1983, Ins Universum der technischen Bilder, de 1985, Vampyroteuthis infernalis, escrito em 1981 e publicado em 1987, e Die Schrift. Hat Schreiben Zukunft?, de 1987.

4. Em 1964 o Brasil caiu sob uma ditadura militar que duraria até 1985, cujo período de maior censura e repressão, sob a presidência do general Médici, de 1969 a 1974, somado às experiências anteriores de Flusser com os nazistas, despertou inevitavelmente seu desejo de deixar o país, embora, após uma viagem de seis meses à Europa e aos Estados Unidos em 1966-67, em que deu conferências e encontrou filósofos como Theodor Adorno, Max Bense e Hannah Arendt, tenha continuado a lecionar no Brasil e, mesmo sem novos projetos de livro após Da religiosidade até 1971, não tenha reduzido sua produção, publicando ensaios em diversos periódicos no Brasil e no exterior.

5. Em 1972 Flusser viajou à Europa para uma série de conferências e para estabelecer contatos com artistas e instituições em vista da Bienal de São Paulo de 1973, pretendendo retornar depois a seu posto na FAAP, mas nunca voltou, pois foi convidado a continuar lecionando na França e a publicar novamente, lançando logo os dois primeiros livros de seu período de teoria da mídia, La force du quotidien e Le monde codifié, após um hiato desde 1967, numa década marcada por um retorno significativo à fenomenologia de Husserl e Bachelard, como mostra a carta a Milton Vargas de 20 de fevereiro de 1973, escrita durante a redação dos ensaios de Bodenlos, sobre o foco crescente na fenomenologia e as experimentações estilísticas.

6. Sem saber escrever em francês, a escrita prossegue em inglês e português, mas as novas experiências penetram por todos os poros, com a redescoberta visceral de Husserl e, por isso mesmo, de Kant de um lado e Ortega y Gasset do outro, refletida em As coisas que me cercam, por exemplo no ensaio sobre livros, enquanto Kant, sobretudo o da Crítica da razão prática, se reflete na metodologia, e Ortega, especialmente o de Sobre a caça, volta a ser o mestre estilístico e estético, pois sempre se retorna ao primeiro amor.

7. Dois anos depois, durante a redação dos ensaios de Natural:mente, nova carta a Vargas, de 2 de fevereiro de 1975, comenta tanto o tipo de fenomenologia em desenvolvimento quanto o estilo ensaístico.

8. Os textos visam analisar objetos considerados naturais pelo senso comum para iluminar, do maior número possível de pontos de vista, a problemática desse rótulo classificatório, numa coletânea que pretende ser realmente ensaística, experimental e esboçada, já que o ensaio é forma literária entre poesia, filosofia, panfleto e jornalismo e, portanto, posterior a todos eles, tendo como mestres Bachelard e Ortega y Gasset, mas seguindo outro caminho, o de inventariar, isto é, abrir um campo para um estudo disciplinado futuro, mais próximo de uma tradição formalista do que da fenomenologia existencial, embora fortemente nutrido por ela, menos polêmico que Bachelard e Ortega, porém mais engajado, por pertencer a outra geração.

9. Esses trechos de correspondência mostram com que objetividade Flusser pensava o método e o estilo, revelando em germe seu rigor processual e sua profunda consciência do que produzia, num projeto filosófico apoiado na concepção do pensamento como projeto em constante evolução, uma filosofia em devir, cuja compreensão exige distinguir duas cronologias, a da produção das monografias e a de sua publicação, já que Flusser nunca interrompeu o fluxo de produção e, concluída uma monografia sem editor interessado, arquivava o datiloscrito e iniciava a seguinte, prática sustentada por pelo menos cinco horas diárias de escrita pela manhã que resultou num arquivo de mais de onze mil documentos de várias páginas, entre monografias, cursos, ensaios não encomendados, correspondência e comunicações em simpósios, razão pela qual importa sempre registrar o ano de produção de cada texto para acompanhar a progressão de seu pensamento e de seus conceitos fundamentais.

10. Como o pensamento de Flusser esteve em movimento e desenvolvimento contínuos, a cronologia de produção das monografias é a mais valiosa para visualizar o progresso de suas ideias, e, como ele não datava seus ensaios, a datação dos datiloscritos só pode ser feita por triangulação, cruzando a correspondência da época, seus vários currículos, uma análise forense que compara a máquina de escrever e o estilo diagramático com a correspondência datada e o grau de desenvolvimento dos conceitos em relação ao restante da obra, método que fornece datas precisas, embora a correspondência com os amigos mais próximos, sobretudo Vargas, seja sempre a fonte mais exata, como no caso deste livro, produto da segunda fase de produção intensa, depois da de meados dos anos 1960, erroneamente datado de 1986 em alguns documentos de arquivo, mas inequivocamente situado pela carta a Vargas de 27 de novembro de 1975, que descreve em detalhe a série de ensaios.

11. Instalado para o inverno, com o curso de Aix prestes a começar e outro possível em Marselha, o programa previsto abrange o surpreendente fenômeno da comunicação humana, da informação à decisão, os meios de comunicação, o devir simbólico do homem, do discurso científico à demagogia, do diálogo familiar ao telefone, aprender a compreender, a moda da Bíblia a BB, a arte entre o belo e o agradável, circuitos fechados e cópia, alienação e estereótipo e o homem futuro como telespectador ou primitivo do terceiro mundo, títulos dos quais o quarto, o décimo e o décimo segundo se tornariam Os símbolos e seu significado, A vanguarda e a comunicação em circuito fechado e Conclusões, num curso patrocinado pelo Ministério da Cultura, com conferências impressas e distribuídas e material já preparado pela metade, talvez acompanhado de seminários, embora a ideia de conferência seja ambivalente para um professor nato convencido de que a preleção discursiva é método autoritário de comunicação, enquanto o método dialógico, como o brainstorming e a dinâmica de grupo, ainda não funciona, como se viu no caso de Technologie et Imaginaire, deixando muitas dúvidas e poucas opiniões formadas, inclusive sobre as formas do diálogo, seminário, comitê, simpósio, congresso, laboratório, fórum, parlamento, feiras com conversas ou correspondência epistolar, já que não se deve identificar o diálogo com o agon ou o eros, nem o discurso com a autoridade ou o fascismo, nem ver no diálogo apenas criação de formas novas e no discurso apenas transmissão de formas disponíveis, pois a ciência é um discurso composto de diálogos e o parlamento um diálogo composto de discursos, e talvez as diferenças entre os conceitos liberal e socialista de democracia e entre os conceitos de arte da vanguarda e da mídia de massa decorram da confusão reinante sobre as funções do diálogo e do discurso, restando perguntar se a história não seria agon dialógico como processo e anedota discursiva como testemunho.

12. O surpreendente fenômeno da comunicação humana é, portanto, um importante título inédito da produção intermediária de Flusser, enfim publicado, na versão inglesa do próprio autor, quarenta anos depois de escrito.

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