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A Viragem (Kehre)
- Tentativa de traduzir para português o termo Kehre em Heidegger coloca-nos rapidamente em contato com as vicissitudes da interpretação.
- A significação habitual de tournant (viragem, volta) desorienta mais do que esclarece.
- Embora haja relação inegável entre Kehre e o fato de virar, encontramo-nos no cerne da questão da accointance (familiaridade) que devemos ter com nossa própria língua.
- Em português, o verbo virar forma múltiplas locuções expressivas (o tempo vai virar, o leite azeda, fulano deu para o torto).
- No entanto, não se fala de uma viragem do leite, de uma viragem do tempo, nem de um sujeito que se tornou mau por uma má viragem.
- Para ouvir corretamente a acepção heideggeriana de Kehre, é crucial não esquecer o desnível entre o fato de virar e a ilusão de que o conheceremos traçando um itinerário.
- O próprio viramento, sendo essencialmente móvel, nada pode deixar para trás.
- Consciência da tendência dos substantivos em português (maior que no alemão ou inglês) a designar estados estáveis.
- Virada não convém melhor que viragem para traduzir Kehre, pois também designa espontaneamente um itinerário (ex: a ronda do carteiro).
- A palavra viramento (o fato de virar, o movimento do que vira) só existe hoje em composição (reviramento, contornamento, desvio).
- Como se o que este termo diz tendesse por si a recusar fixar-se. Para nós, isto deve ser um índice: falta em nossa língua uma palavra para o que repele qualquer fixação.
- Situação diferente no alemão: Kehre é atestada há muito tempo, aparentada ao grego gyros (sobrevive no sufixo -giro).
- Em português, girar existia outrora, dizendo o movimento de virar.
- Em nossas línguas, este movimento pode dizer-se de muitas maneiras, por exemplo com derivados latinos de vertere e volvere.
- Gênese do uso de Kehre por Heidegger: indicação crucial na Carta sobre o Humanismo (12 dez. 1946).
- Heidegger explica as dificuldades após a publicação de Ser e Tempo: o que a maioria dos leitores não pôde seguir foi o movimento de deixar a subjetividade.
- A subjetividade não é a última palavra sobre o modo de ser singular do humano.
- O ponto de complicação: …por ocasião da publicação de Ser e Tempo, a terceira seção da primeira parte, Tempo e Ser, foi reservada. Hier kehrt sich das Ganze um. O texto em questão foi reservado porque o pensamento se mostrou inapto a encontrar as palavras para dizer suficientemente diese Kehre.
- Análise morfológica: o pronominal sich umkehren deriva do verbo kehren, que deu origem ao substantivo feminino die Kehre.
- Prefixo um- modifica a acepção do radical: umkehren é o movimento pelo qual o que estava diante fica atrás; direita/esquerda; baixo/cima.
- Em português: reversão, inversão. Considerando os efeitos: reviravolta.
- Tradução da frase-chave: Hier kehrt sich das Ganze um.
- Na frase, Heidegger menciona uma inversão: a que intervém ao abandonar a ordem que vai do ser ao tempo para examinar a situação na ordem inversa (do tempo ao ser).
- Tradução plausível: Aqui tudo se inverte.
- Dificuldade hermenêutica maior surge no seguimento do texto.
- Heidegger não retoma o verbo sich umkehren (donde derivam die Umkehr e die Umkehrung), mas introduz o substantivo Kehre com o demonstrativo feminino diese.
- Atenção é orientada para o movimento que tornou possível a inversão mencionada.
- Die Kehre é em alemão imediatamente inteligível, mas pouco usada.
- Acepção imediata cobre todo o vasto registro dos movimentos em que algo vira, incluindo o movimento de retorno que permite, por exemplo, dar meia-volta.
- O essencial: não reduzir esta ideia de retorno à própria Kehre.
- Profundidade do que Heidegger visa: mais que a mudança de ordem entre ser e tempo.
- Heidegger aprofunda o questionamento e retrocede do plano da relação ser-tempo para um plano mais inaparente: aquele onde se trata propriamente de diese Kehre.
- Localização: no quadro de uma mudança de localização do pensamento, onde se trata de pensar de outro modo, deixando o sítio da metafísica.
- Pergunta retórica: falando assim, damos atenção suficiente à verdadeira dificuldade que esta empresa encerra?
- Razão pela qual Heidegger não usa Umkehr ou Umkehrung.
- Este retorno não pode limitar-se a dar meia-volta.
- Da mesma forma, evitar traduzir Kehre por viragem.
- O que nos levaria a fazê-lo (implicitamente) é a convicção enganadora e irrepressível de sermos os atores desta viragem.
- Texto tardio de Heidegger (2007) fala da representação de um tournant (viragem) como aquilo que barrava o caminho e só lentamente pôde ser superado.
- Sublinhada a inadequação de um modo de dizer (o que fala de virar) com a andadura do movimento pelo qual se trata de deixar-se levar, ou melhor, com a atitude a tomar.
- Esta atitude é nomeada por Heidegger:
- Die Einkehr in die Einfalt der nennenden Entsage.
- Em vez de Kehre, aparece Einkehr. Nesta palavra, onde ressoa ainda o radical kehr, ouve-se agora o latim divertere: deixar um caminho para seguir outro, sem espírito de retorno. I.e., deixar completamente.
- Tradução proposta: Entrar de uma vez por todas na simplicidade do dizer que só toma seu impulso da nominação daquilo que diz.
- Aí, presume-se, há alguma chance de deixar para sempre o sítio da metafísica. Para sempre, i.e., sem mais ter de se desviar dele.
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