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Anaximandro

Anaximandro (c. 610 – c. 547 a.C.) LDMH

  • Heidegger dedicou vários textos a Anaximandro, ordenados por data de publicação.
    • A Palavra de Anaximandro (Der Spruch des Anaximander), publicado em 1950 no final de Caminhos de Floresta (Holzwege) [GA9].
    • Considerações fundamentais redigidas entre 1941 e 1942, que abrem o volume 71 da edição integral intitulado Das Ereignis (O Acontecimento).
    • Continuação do texto anterior: as 350 páginas reunidas sob o mesmo título Der Spruch des Anaximander, que constituem o volume 78 da edição integral [GA78].
  • O título Der Spruch indica a abordagem heideggeriana à palavra de Anaximandro.
    • Spruch tem acepção solene em alemão, designando uma palavra de peso onde se diz uma verdade (como veredito, mas sem limitação ao domínio jurídico).
    • Heidegger designa assim o texto de Anaximandro porque é nele que o pensamento grego pode ser considerado como eclodindo enquanto tal.
    • Trata-se, portanto, do começo da tradição filosófica.
  • Compreensão do termo começo (commencement, Anfang) é fundamental.
    • Commencer (latim cum-initiare) significa entrar juntos em algo, pôr-se mutuamente em estado de se introduzir nisso.
    • Nuance trazida pelo cum (junto) não é mais percebida na compreensão corrente, mas é ela que abre ao aspecto verdadeiro do começar.
    • Compreensão ingênua: a iniciativa do começo reside em alguém que começa.
    • Visão heideggeriana: o que possibilita um começo é a coincidência, a sinergia (ou sinagogia, como diz Péguy) entre o que incita e o que responde à incitação.
      • No começo, propriamente juntos, têm lugar o que incita e o que responde.
  • A palavra alemã Anfang (começo) é igualmente significativa.
    • Deriva do verbo fangen (tomar, capturar), com vasta gama de acepções relacionadas à mão (Hand) que agarra, segura, aprende, obtém, tece, desenha.
    • Prefixo an- adiciona ideia de movimento: vir tomar.
    • Anfang não é se apoderar, mas empreender, no sentido de vir tomar sua parte no que se empreende quando há começo.
    • No começo, empreendem-se o que começa e o que é começado, numa relação de reciprocidade.
  • Línguas antigas (como o francês antigo) possuíam riqueza de verbos com prefixo entre-, indicando fina percepção de relações de reciprocidade.
    • Exemplos: s’entreserrer, s’entreplaire, s’entr’aimer, s’entreconseiller, s’entrepartir (partilhar), mas também s’entredéfier, s’entrevaincre.
    • Reciprocidade reina em ambos os lados, bom e mau.
  • No acontecimento do começo, o que começa e o que é começado entram em relação de entre-pertencimento recíproco.
    • É um lugar de partilha intenso e movimentado, onde papéis se invertem: quem crê empreender descobre-se empreendido, e o suposto empreendido revela-se empreendedor.
    • Num verdadeiro começo, ambas as partes são mutuamente partes tomantes.
  • Como começa este começo? Há uma partida no sentido antigo de partir (partilhar, repartir).
    • Esta partilha, uma vez departida, torna-se destino (Geschick) para os que dela herdam, aquilo de que terão de se desincumbir ao longo de sua história.
  • Para Heidegger, tal começo ocorre na palavra de Anaximandro.
    • Durante intenso trabalho em 1941-1942, Heidegger atinge essa compreensão, confiando em maio de 1942 ao historiador da arte Kurt Bauch que encontrou o começo.
    • A palavra de Anaximandro atesta-se como começante, na qualidade de primeiro começo.
  • Heidegger busca discernir em que sentido este começo é primeiro.
    • Não é primeiro no sentido de uma enumeração, como se um segundo viesse depois.
    • Em um sentido, o primeiro é o único.
    • Isto não impede que um outro começo esteja hoje na ordem do dia.
      • Mas este outro começo só será outro se guardar em memória o primeiro, mantendo com ele um rapport constante que permita recomeçar, porém de outro modo.
  • Leitura persistente do fragmento único de Anaximandro adquire seu ritmo nesta situação complexa.
    • Cada parte do todo é desde já o todo inteiro, na medida em que o contém por inteiro (caráter moderno no sentido de Hölderlin).
    • Examinar uma única particularidade desconcertante do texto pode bastar para perceber a orientação heurística dos esclarecimentos de Heidegger.
  • Os termos dike e adikia no fragmento não são traduzidos por justiça e injustiça.
    • Razão superficial: justitia pertence à ordem do jus (direito), enquanto dike deriva do radical *deik- (mostrar com o dedo).
    • Heidegger, para se colocar no nível do pensamento de Anaximandro, não interpreta dike a partir da etimologia.
  • Para interpretar dike, Heidegger recorre ao termo alemão der Fug.
    • Termo compreendido na expressão corrente mit Fug und Recht (com justa razão, legitimamente).
    • Fug não fala no registro do jus romano; substantivo Fug e verbo fügen pertencem a uma área de radicais indo-europeus muito antigos (pag- ou pak-).
    • Em latim, radicais relacionados produzem pax (paz), pagina (treliça, página), pagus (território demarcado).
      • Unidade subjacente: ideia de uma posta em situação propícia, um quadro no qual elementos inicialmente díspares se entrelaçam.
    • Wolfgang Brockmeier traduziu der Fug por ajuntamento (ajointement), indicando junção, articulação conjunta.
    • Não traduzir por justiça é convidar a ver que toda justiça depende de algo mais alto: seu país de montante.
  • Fug, como pax, pagus, pagina, o alemão fangen e o grego pêgnumi (fixar, densificar), podem, pensados juntos, formar como os marcos do país sem bens de que fala René Char.
    • Tradução proposta: permissão, a partir do latim permittere (deixar passar, pôr numa via, convidar, dar a liberdade de fazer).
      • Permissão, no sentido forte, é pôr em situação de fazer livremente o que há a fazer.
    • Entender Fug como permissão é acentuar o aspecto essencialmente inaparente: manter aberta a dimensão dentro da qual tudo deve se manter como convém.
      • Pensar a permissão independentemente de um sujeito que a concede.
    • Para um grego, a justiça não é primeiramente de instituição humana; pensá-la como vinda de além até mesmo de uma instituição divina é ir no sentido do verdadeiro começo.
    • A permissão não fixa nada de antemão, mas não dá carta branca; os limites estão lá e é proibido transgredi-los.
  • Compreensão de adikia a partir desta base.
    • Heidegger propõe Un-Fug para traduzir o termo grego, destacando-o da acepção corrente (tumulto, inconveniência).
    • Un-Fug é aquilo que impede todo desdobramento da permissão.
    • A permissão abre à liberdade, que não se opõe à Lei, mas a reclama (inclusive na obediência à lei que a si mesmo se prescreve).
    • Adikia é a contrapartida da permissão, o que se ergue contra ela como seu inimigo mais feroz.
      • No orgulhoso desdém de toda norma, adikia pretende que ser livre é fazer só o que se quer.
      • Mostra-se assim como a perversão da permissão.
  • Este trabalho no começo permite discernir o que Heidegger visa ao dizer que se trata de ir, passando pelos gregos, para além deles, longe para a frente e para fora (über das Griechische hinaus).
    • Observação na última sessão do Seminário do Thor (1969): o mais surpreendente nesse ultrapassamento é que o grego continua a guardar toda a sua força de iniciativa.
  • O primeiro começo não é um acontecimento passado.
    • Ele não cessa, cada vez mais secretamente, de vir a nos concernir.
    • Perceber esta avenance [Ereignis] é ser posto na obrigação de recomeçar, mas de outro modo, a começar.
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