User Tools

Site Tools


estudos:escola-de-kyoto:nishida:bem:7

7 Aspectos da realidade

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

As Verdadeiras Feições da Realidade

1. A realidade imediata, anterior às elaborações do pensamento, isto é, o fato da experiência verdadeiramente pura, é aquela em que ainda não há oposição entre sujeito e objeto nem separação entre conhecimento, sentimento e volição, mas apenas uma atividade pura, independente e autossuficiente.

2. Os psicólogos intelectualistas, ao tomar sensações e ideias como elementos constitutivos de todos os fenômenos mentais, entendem o fato da experiência pura como o estado mais passivo da consciência, a sensação, confundindo resultados da análise acadêmica com fatos da experiência direta, na qual não há sensação pura, pois o que assim se denomina já é uma percepção simples, que por mais simples que seja inclui necessariamente elementos ativos e construtivos, como se evidencia na percepção espacial.

3. O caráter ativo da experiência pura torna-se mais claro nas atividades cognitivas complexas, como a associação e o pensamento, e revela que a vontade é a forma mais fundamental da consciência e um fato de experiência pura.

  • A associação, tida como passiva, tem a direção da ligação entre ideias determinada não só por circunstâncias externas, mas também por qualidades internas da consciência, diferindo do pensamento apenas em grau.
  • A divisão dos fenômenos de consciência em conhecimento, sentimento e vontade não corresponde a três tipos reais de fenômenos, pois todo fenômeno de consciência possui os três aspectos, como a pesquisa acadêmica, tida por puramente intelectual, que jamais existe sem sentimento e vontade.
  • Como afirmam os psicólogos voluntaristas, a consciência é sempre ativa, começando por um impulso e terminando na vontade, e mesmo os fenômenos mais simples e diretos assumem a forma da vontade.

4. A psicologia, outrora predominantemente intelectualista, viu recentemente ganhar destaque o voluntarismo, com expoentes como Wilhelm Wundt, para o qual a consciência, por mais simples, é sempre construtiva e requer contrastes em seu conteúdo para se estabelecer, pois uma consciência verdadeiramente simples tornar-se-ia imediatamente inconsciente.

5. Na experiência pura, pensar, sentir e querer ainda estão indivisos, havendo uma única atividade sem oposição entre sujeito e objeto, oposição que nasce das exigências do pensamento e não é fato de experiência direta, na qual há apenas um acontecimento independente e autossuficiente, sem sujeito que vê nem objeto visto.

  • Como quando, arrebatado por uma música primorosa, se esquece de si e de tudo ao redor e se experimenta o universo como um único som melodioso, a verdadeira realidade apresenta-se no instante da experiência direta.
  • Ao surgir o pensamento de que a música é vibração do ar ou de que se está ouvindo música, já se está separado da verdadeira realidade, pois esse pensamento provém da reflexão e se afasta do verdadeiro estado da realidade da música.

6. A crença de que sujeito e objeto são realidades capazes de existir independentemente e de que de sua atividade surgem os fenômenos de consciência, gerando a dualidade entre mente e matéria, é um erro completo, pois essas noções derivam de dois modos de considerar um único fato, sem que tais dicotomias lhe sejam inerentes.

  • Como fato concreto, a flor nada tem da flor puramente material dos cientistas, sendo agradável e bela em cor, forma e perfume.
  • Heine chamou as estrelas do céu noturno de tachas douradas no azul, e embora os astrônomos riam disso como tolice de poeta, é bem possível que a verdadeira natureza das estrelas se exprima nessa frase.

7. Na verdadeira realidade independente e autossuficiente, anterior à separação entre sujeito e objeto, conhecimento, sentimento e volição são um, de modo que a realidade não é objeto de conhecimento desapaixonado, mas se constitui pelo sentir e pelo querer, sendo não mera existência, e sim algo dotado de sentido.

  • Removidos sentimento e vontade do mundo efetivo, ele deixaria de ser fato concreto e se tornaria conceito abstrato, como o mundo dos físicos, que, à semelhança da linha sem largura e do plano sem espessura, não existe efetivamente.
  • Nesse sentido, é o artista, e não o estudioso, quem alcança a verdadeira natureza da realidade.
  • Tudo o que se vê ou ouve contém a individualidade de quem percebe, e consciências ditas idênticas não são verdadeiramente iguais, como mostram as imagens diversas de uma vaca para o agricultor, o zoólogo e o artista.
  • Conforme o sentimento do momento, a mesma paisagem parece esplendidamente bela ou sombriamente deprimente, e o pensamento budista ensina que, segundo o estado de espírito, o mundo se torna céu ou inferno.
  • O mundo constrói-se, assim, sobre sentimento e volição, e por mais que se fale de um mundo objetivo de puro conhecimento, ele não escapa à relação com os sentimentos.

8. O mundo visto cientificamente, tido como o mais objetivo por existir independentemente de sentimento e volição, não se desliga de suas exigências, pois a investigação científica nasce de necessidades efetivas da luta pela sobrevivência, e, como observou sobretudo Jerusalem, a ideia de uma força no mundo externo que executa diversas atividades, princípio fundamental da visão científica, é gerada por inferência analógica a partir da própria vontade, sendo as explicações antropomórficas antigas o ponto de partida das explicações científicas contemporâneas.

9. A opinião de que, sendo fundamental a distinção entre sujeito e objeto, apenas o conhecimento contém elementos objetivos, enquanto sentimento e volição seriam eventos subjetivos e idiossincráticos, erra em seus pressupostos, pois se os fenômenos surgem da atividade mútua entre sujeito e objeto, até conteúdos do conhecimento como cor e forma são subjetivos, e se há no mundo externo uma qualidade que suscita sentimento e volição, estes possuem base objetiva, não sendo totalmente individuais, mas contendo um elemento transindividual que permite comunicação e simpatia entre as pessoas.

10. Por se pensar que alegria, raiva, amor e desejo surgem em indivíduos, julga-se que sentimento e vontade são puramente individuais, mas não é o indivíduo que possui sentimento e vontade, e sim estes que criam o indivíduo, sendo ambos fatos da experiência direta.

11. A explicação antropomórfica das inúmeras coisas do universo, própria dos antigos e das crianças ingênuas de todas as épocas, embora ridicularizada pelos cientistas como infantil, é, de certo ponto de vista, o verdadeiro modo de explicar a realidade, pois a explicação científica pende para um único aspecto do conhecimento, enquanto uma explicação completa da realidade deve satisfazer tanto as exigências intelectuais quanto as do sentimento e da vontade.

12. Para os gregos toda a natureza era viva, sendo trovões e relâmpagos a ira de Zeus no Olimpo e o canto do cuco o lamento de Filomela pelo passado, de modo que ao olhar natural do grego o verdadeiro sentido do presente aparecia tal como era, sentido que a arte, a religião e a filosofia contemporâneas se esforçam por exprimir.

estudos/escola-de-kyoto/nishida/bem/7.txt · Last modified: by 127.0.0.1