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Ser-no-mundo

STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.

Mundo da vida e ser-no-mundo: dois paradigmas

1. As investigações sobre o problema do mundo da vida têm caráter filosófico e ligam-se ao conjunto de dúvidas da Filosofia contemporânea relativas ao problema da fundamentação, ponto mais delicado do discurso filosófico, em que a Filosofia busca resolver questões trazidas ou pressupostas pela ciência relativas ao conhecimento, colocando-se aí a questão de dar razões, do fundamento.

2. A introdução histórica do conceito de mundo da vida não trazia originalmente todas as nuances e alternativas posteriormente acrescentadas por sua recepção e difusão, permanecendo, contudo, sempre presente o problema da fundamentação, ao qual a Filosofia recorre por meio de um conceito que promete mais possibilidades de solução do que outros.

3. O surgimento do conceito de mundo da vida na fenomenologia ocorreu em contexto histórico relativamente restrito, ligado à tradição filosófica alemã e à repercussão da Escola Histórica, sendo tomado para resolver um duplo problema dentro da fenomenologia.

  • De um lado, satisfazer campos ligados à intersubjetividade e ao mundo histórico concreto, aparentemente desconsiderados pela fenomenologia e pela tradição filosófica.
  • De outro lado, atender a exigências próprias da fenomenologia enquanto último grande projeto de totalidade, que necessitava dar conta do mundo da vida por meio da redução transcendental.

4. Já na recepção imediata do conceito não havia concordância entre os fenomenólogos quanto ao seu modo de compreensão, distinguindo-se cedo duas correntes: a corrente husserliana, que introduzira o conceito desde o paradigma das teorias da consciência e da representação, e a corrente heideggeriana, que o entendeu desde o paradigma do ser-no-mundo e das teorias do mundo prático, sustentadas pela hermenêutica da facticidade.

5. O conceito de mundo da vida, nas intenções originais de Husserl, representava a falha percebida pela fenomenologia por não prestar suficiente atenção às Ciências Humanas, guiando-se antes pelo império lógico-matemático e pela busca de formas puras do que pelo campo das ciências históricas e da cultura.

6. É no campo das Ciências Humanas que se deu outra recepção do conceito, ao passarem tais ciências, sem princípios últimos de ordem teológica, cosmológica ou ontológica, a utilizar representações correspondentes ao mundo da vida como lugar último de fundamentação epistemológica, desenvolvimento que persiste até hoje.

7. Colocava-se a questão de se o conceito de mundo da vida também daria conta do problema do sentido, do significado e da referência exigidos pela Filosofia, dado seu caráter formal e não realista, material ou de conteúdos objetivos.

8. O conceito de mundo da vida não constitui mero resto na Filosofia, como poderia parecer pela tentativa husserliana de completar a racionalidade de seu sistema, tendo sido antes utilizado como recurso de fundamentação para ciências desprovidas da radicalidade e apoditicidade das ciências empírico-matemáticas.

9. Na dimensão originalmente atribuída por Husserl, o conceito de mundo da vida pretendia abranger não apenas as Ciências Humanas, mas todo o campo das ciências, conferindo ao conhecimento humano em geral um fundamento reportado a uma ideia de mundo concreto que escapasse aos aspectos puramente formais e abstratos.

10. A utilidade do conceito de mundo da vida deve ser examinada considerando-se que os conceitos filosóficos surgem para ocupar lacunas conceituais antes vazias, vindo o conceito de mundo da vida preencher exatamente um vácuo desse tipo, sem que haja, contudo, acordo geral sobre a própria tarefa da Filosofia.

11. O conceito de mundo da vida é posto em dúvida por duas vertentes filosóficas atuais: uma que questiona a utilidade de se ocupar com o universo antepredicativo e pré-linguístico das condições de possibilidade não justificável em sua transcendentalidade última, e outra que sustenta que a Filosofia deve resolver problemas, e não criá-los, parecendo o conceito de mundo da vida antes multiplicar dificuldades do que solucioná-las.

  • Ambas as objeções convergem, no entanto, para questionar se o conceito de mundo da vida efetivamente permite falar em fundamentação.

12. Coloca-se, então, a questão de até que ponto o conceito de mundo da vida pode ser ligado ao projeto de fundamentação da Filosofia pós-kantiana e transcendental, perguntando-se se os conhecimentos empíricos das Ciências Humanas recebem dele condições de validade e se é possível extrair critérios desse universo de condições de possibilidade.

13. O conceito de mundo da vida foi introduzido muito aquém das pretensões epistemológicas contemporâneas, exigindo por isso uma remodelação ou aggiornamento que, contudo, só pode ser feita considerando-se suas raízes históricas.

14. O conceito de mundo da vida encontra-se diante do chamado trilema münchausiano da fundamentação — afirmação dogmática, regresso ao infinito ou circularidade viciosa —, sem que corresponda propriamente a nenhuma dessas três alternativas, configurando antes uma circularidade autorreferente e logicamente boa, na qual já se aceita de antemão a impossibilidade de uma fundamentação última.

15. A questão da fundamentação, tanto na Filosofia do paradigma do mundo prático quanto nas próprias ciências, é circular, propondo relação circular entre fundante e fundado, sendo sem sentido, nessa concepção, a separação de um fundamento apodítico independente de todo o processo de busca.

16. O conceito de mundo da vida sofre críticas por parecer capitular tanto diante de uma argumentação linear em busca do fundamento quanto diante da exigência de que a Filosofia resolva problemas em vez de criá-los, sem que se possa, contudo, apelar para uma incomensurabilidade absoluta entre paradigmas filosóficos que isolasse o mundo da vida como paradigma meramente relativista.

17. O conceito de mundo da vida não foi introduzido para diluir o poder e a força da argumentação filosófica, constituindo antes um conceito aberto e ampliável, capaz de dialogar com os desafios contemporâneos relativos ao problema da fundamentação.

18. A questão do mundo da vida remete a uma discussão sobre a racionalidade, adaptada a determinada temática filosófica e ao universo das Ciências Humanas, sem pretender um novo começo para a ideia de razão desenvolvida ao longo da Filosofia.

19. A ampliação e diluição do conceito poderia atingir todo o campo do saber humano constituído por um saber pré-lógico, antepredicativo e pré-linguístico, colocando-se aí o problema das condições de possibilidade do conhecimento empírico, cuja formulação como conhecimento transcendental permanece questão distinta e de difícil aceitação na posição kantiana original.

20. A discussão contemporânea sobre argumentos transcendentais não pode prescindir do conceito de mundo da vida, ainda que este não possua apoditicidade que se imponha com evidência absoluta, apresentando-se apenas como tarefa possível no universo da fundamentação e da argumentação filosófica.

21. A quarta alternativa ao trilema münchausiano é uma circularidade diferente, fundada na ideia de que, do ponto de vista da ontologia fundamental, não há compreensão do ser sem que o homem se compreenda a si mesmo, e vice-versa, princípio hermenêutico último em que se afirma a diferença ontológica.

22. Essa circularidade acentua-se quando o círculo hermenêutico não distingue claramente sujeito e objeto, estando o sujeito sempre implicado no objeto que examina nas Ciências Humanas, circularidade entre fundante e fundado que não invalida os resultados obtidos por esse caminho, configurando questão tanto filosófica quanto científica.

23. Os propósitos iniciais do conceito de mundo da vida foram completar o método da redução transcendental, recuperar o universo das questões histórico-fáticas e completar a fundamentação e a racionalidade das Ciências Humanas, sem que o conceito se restrinja a um único paradigma filosófico, formulando-se algo análogo em todas as orientações filosóficas diante do problema da referência e do sentido.

24. O problema do círculo hermenêutico relaciona-se à questão das construções filosóficas, que sempre partem de um pressuposto ou a priori, como ocorreu na construção do mundo histórico em Dilthey, na construção lógica do mundo em Carnap e na construção do mundo social em Schütz, buscando todas um universo conceitual claro e coerente.

25. O universo da justificação filosófica remete sempre à ideia de mundo, que implica mais do que um somatório de objetos, configurando um recorte de materiais trabalhados historicamente, de modo que as construções filosóficas pressupõem uma dimensão de transcendentalidade que não lhes é própria, mas que constitui seu universo de fundamentação, estando o conceito de mundo da vida na base de qualquer construção epistemológica.

26. A primeira impressão de que o conceito de mundo da vida seria um conceito passe-partout, um mero bastidor de legitimidade diante do colapso das teorias da fundamentação, não corresponde à sua intenção verdadeira, que é afirmar-se com precisão e clareza argumentativa na discussão filosófica atual sobre fundamentação e racionalidade.

27. O conceito de mundo da vida liga-se fortemente ao conceito de racionalidade, entendida como racionalidade fundante, não cognitiva, mas transcendental, que funda a racionalidade cognitiva, discursiva e proposicional das ciências.

28. Cabe examinar o clima cultural-filosófico em que são recebidas as discussões sobre o mundo da vida, referente também ao vivido das comunidades e grupos filosóficos, constatando-se que grande parte dos filósofos trabalha implicitamente essa questão, ainda que sob nomes diversos.

29. A questão remanescente sobre o lugar do conceito de mundo da vida no trilema münchausiano revela que a ideia de horizonte remete a regresso ao infinito, a ideia de vivido remete a base apodítica dogmática, e a implicação recíproca entre sujeito e objeto remete a certa circularidade, esta última entendida não em sentido hegeliano, idealista e especulativo, mas propriamente hermenêutico.

30. Torna-se necessário limpar o terreno argumentativo para examinar de modo explícito o lugar do conceito de mundo-vivido, preparando um espaço de discussão não preconceituoso nem puramente positivo, preservando o caráter transcendental que os conceitos de mundo e de vida assumem quando reunidos pela preposição “de”, correspondendo àquilo que, segundo Goethe, é mais do que a experiência em toda experiência.

31. O caráter transcendental atribuído ao mundo da vida é contingente e histórico, mas não se reduz a um continente com certo conteúdo, nem no sentido da totalidade kantiana da Primeira Antinomia, nem em sentido antropologizado, sendo em Heidegger explicitado e tornado descritível como relativo não a um mundo real, mas a um mundo possível, permitindo afirmar que a possibilidade está acima da realidade.

32. Uma das reivindicações fundamentais da preservação do conceito de mundo da vida na discussão contemporânea é proteger o nível de fundamentação do discurso empírico num espaço transcendental, transempírico e suprapositivo que sempre se apresenta como fundante, condição de possibilidade, não se limitando sua riqueza à reconstrução histórica retrospectiva feita por Gadamer, mas incluindo também elemento prospectivo de história futura.

33. O conceito de mundo da vida aproxima-se do que hoje se denomina onda de destranscendentalização, designada por Habermas como a descida das nuvens de um transcendental para um transcendental da espécie humana, processo observável na substituição do eu transcendental por sujeitos privilegiados capazes de apanhar intuitivamente o expresso na cultura, como em Dilthey e na Escola Histórica.

34. Outro passo dessa destranscendentalização decorre da analítica do Dasein, em que Heidegger pressupõe uma pré-estrutura significativa descoberta pela analítica existencial, configurando um metatranscendentalismo que preserva o transcendentalismo ao mostrar que o eu transcendental é sustentado por um eu histórico e fático, reivindicando um fundamento sem fundo alheio à subjetividade.

35. No Heidegger II, essa destranscendentalização intensifica-se ao afirmar-se que o lugar da compreensão do ser é a história do ser, não sendo mais o Dasein quem compreende o ser de modo pleno e absoluto, mas a determinação dessa compreensão limitada pela história do ser, espaço em que acontece a história da metafísica como história do esquecimento do ser.

36. Nesse processo de destranscendentalização dos conceitos transcendentais e do eu transcendental, o conceito de mundo da vida evidencia, de modo palpável, que a fundamentação do conhecimento na Filosofia e nas Ciências Humanas não trata do universo das representações ou do eu, mas de um repositório de sentido indepassável que sustenta toda reflexão e constitui, simultaneamente, horizonte sempre a conquistar tanto em direção ao futuro quanto ao passado, destranscendentalização sob a qual a ideia de eu desaparece, colocando-se em seu lugar a ideia de mundo.

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