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Causalidade Senciente

ESPPH

  • O problema da causalidade senciente insere-se no antigo debate entre determinismo e indeterminismo, questionando se a vida humana senciente, em todo ou em parte, pode ser integrada na grande rede causal da natureza. Questões metafísicas, epistemológicas e de teoria da ciência estão em jogo. A literatura recente concentra-se essencialmente na lei causal geral, debatendo o paralelismo psicofísico versus a teoria do efeito recíproco, e na possibilidade de o senciente possuir sua própria rede de necessidade análoga à da natureza física—seja através dos princípios de associação (psicologia antiga), seja através da “motivação” como “causalidade do senciente”. No entanto, uma clarificação sistemática é impossível enquanto não houver clareza sobre o que é “o senciente” e o que é “causalidade”. O conceito de causa, desde a crítica devastadora de Hume, permanece abalado, e mesmo a solução transcendental de Kant, ao deduzir a causalidade como condição da ciência natural, não exibe o fenômeno da causalidade nem responde satisfatoriamente à questão humeana.
  • A insuficiência das abordagens tradicionais e o caminho fenomenológico: Superar Hume exige retomar seu próprio terreno—a natureza tal como se apresenta à contemplação ingênua—com um método que ele mesmo não soube assegurar. A fenomenologia husserliana, enquanto método de análise e descrição dos fenômenos na plenitude de sua concreção e da consciência correspondente, é a via exigida pelo problema tal como Hume o colocou. Ela permite investigar a consciência do nexo causal sem pressupostos dogmáticos. Além disso, a confusão reinante entre “senciente” e “consciência” vicia a maior parte das investigações psicológicas anteriores. A distinção clara entre ambos, realizada por Husserl, é um passo decisivo: a psicologia, como ciência natural e dogmática, explora o senciente como um objeto encontrado no mundo; a fenomenologia transcendental, por sua vez, investiga a constituição desse mundo e do senciente na consciência pura.
  • A investigação deve partir da consciência constituinte original: Para examinar se algo como a causalidade pode ser encontrada no domínio do senciente, é necessário começar por uma consideração da consciência mesma. O mundo natural, com todos os seus objetos (incluindo o senciente), é um correlato da consciência. A doutrina da “constituição dos objetos na consciência” estabelece uma legalidade ideal entre as coerências da consciência constituinte (noese) e os objetos constituídos (noema). Retrocedendo das unidades superiores (coisas materiais, “fantasmas” sensíveis, dados de sensação) até a corrente originária da consciência (a corrente de vivência), alcançamos o estrato último onde a consciência não mais se ocupa com unidades constituídas. É a partir desta consciência originária, entendida em sentido noético (distinta dos correlatos noemáticos de todos os níveis), que a investigação sobre a causalidade deve partir, evitando assim confusões entre esferas e garantindo um acesso direto “às coisas mesmas”.
  • Conclusão provisória sobre o método: A via fenomenológica apresenta-se, portanto, como a única capaz de fornecer uma análise rigorosa da causalidade senciente, pois ela permite: 1) retomar a questão humeana em seu terreno fenomenal próprio; 2) distinguir claramente entre senciente (objeto do mundo) e consciência (esfera constitutiva); e 3) proceder a uma descrição das estruturas intencionais que fundam qualquer experiência de nexo necessário. A investigação promete, assim, não apenas esclarecer um problema psicológico tradicional, mas também contribuir para uma ontologia regional do senciente e para uma compreensão mais originária da própria causalidade.
estudos/edith-stein/causalidade-senciente.txt · Last modified: by mccastro