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Psicanálise e Daseinsanalyse
MBPD
* A harmonia intrínseca entre a terapia psicanalítica e a análise do Dasein
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Convergência fundamental entre Freud e Heidegger
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Uma comparação atenta entre as descrições freudianas da cura psicanalítica e a análise do Dasein revela uma concordância inesperada quanto aos fenômenos fundamentais do existir humano.
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Termos centrais como compreensão, sentido, abertura, clareza, linguagem, verdade e liberdade aparecem reiteradamente tanto na prática clínica de Sigmund Freud quanto na ontologia fundamental de Martin Heidegger.
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Freud fala a partir de uma experiência cotidiana e não refletida do homem, enquanto Heidegger elabora essa experiência numa ontologia rigorosa; ainda assim, ambos descrevem os mesmos fenômenos.
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A comparabilidade entre ambos só é obscurecida quando se mantém a dicotomia neoplática entre níveis ontológico e ôntico, já criticada anteriormente.
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A regra fundamental da psicanálise e a abertura existencial
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A exigência freudiana de honestidade absoluta do paciente consigo e com o analista pressupõe implicitamente uma concepção do homem como abertura originária e lúcida.
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Dizer tudo o que passa pela mente e pelo coração implica permitir que todas as possibilidades de relação com o mundo sejam desveladas, apropriadas e assumidas responsavelmente como próprias.
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A prática analítica visa tornar disponíveis, para o futuro, possibilidades de existência antes combatidas ou desconhecidas.
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Tal regra seria inconcebível sem a compreensão tácita de que a existência humana é o âmbito no qual algo pode emergir do ocultamento e brilhar como fenômeno.
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Verdade como aletheia e não como adequação representacional
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Na terapia psicanalítica, a verdade não é entendida como correspondência entre representação mental e mundo externo.
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Verdade significa o desvelamento do que emerge, no sentido grego de aletheia, isto é, o vir-à-luz do que estava encoberto.
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Essa concepção coincide com a compreensão daseinsanalítica da verdade como desocultamento no âmbito da abertura existencial.
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O significado existencial da posição deitada na análise
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A exigência freudiana de que o paciente se deite não é mero detalhe técnico, mas reconhece o corpo como esfera constitutiva da existência humana.
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A posição deitada favorece o relaxamento corporal e suspende hierarquias implícitas entre alto e baixo, espírito e corpo, razão e sensibilidade.
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Sentar-se frente a frente reforça posturas de autoafirmação, controle mútuo e manutenção de valores morais rígidos, dificultando a emergência de conteúdos infantis e recalcados.
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Deitar-se priva o paciente do apoio visual do analista, permitindo-lhe entregar-se a si mesmo e às suas possibilidades mais imaturas.
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A regra não deve ser aplicada rigidamente, pois pacientes emocionalmente imaturos necessitam inicialmente de condições análogas à análise infantil.
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Silêncio analítico e abertura inter-humana
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A escuta silenciosa do analista é condição para que o paciente possa abrir-se ao próprio mundo.
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O silêncio não é passividade, mas pertencimento atento à totalidade ainda oculta do paciente.
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A incapacidade de sustentar esse silêncio conduz à interferência pedagógica e à imposição de esquemas do terapeuta sobre o analisando.
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A descoberta da universalidade do sentido
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A afirmação freudiana de que todo sonho possui sentido inaugura uma nova dimensão para a ciência da cura.
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Não apenas sonhos, mas todos os fenômenos humanos, inclusive sintomas mais estranhos, são portadores de significado.
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Essa descoberta pressupõe a existência de um âmbito luminoso no qual o sentido pode aparecer, identificado com a própria existência humana.
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A inserção dos fenômenos psíquicos na continuidade da vida desperta uma compreensão histórica, e não causal-naturalista, do sofrimento humano.
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Historicidade, memória e temporalidade
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Freud reconhece que os sintomas só se compreendem plenamente quando situados na história de vida do indivíduo.
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O passado não é algo morto, mas uma força que permeia o presente e condiciona o futuro, especialmente nos quadros neuróticos.
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A cura visa possibilitar a apropriação consciente do passado no presente, libertando o paciente para um futuro aberto.
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Essa concepção coincide amplamente com a análise heideggeriana da temporalidade como unidade de passado, presente e futuro.
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Liberdade como fundamento comum
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A análise do Dasein compreende a existência humana como abertura na qual possibilidades de sentido podem ser assumidas ou recusadas.
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A liberdade consiste em escolher entre assumir responsavelmente todas as possibilidades de relação com o mundo ou negá-las.
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Freud pressupõe essa mesma liberdade ao exigir que o paciente enfrente resistências e assuma o que é.
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A etiologia das neuroses implica falhas no exercício da liberdade, não meros determinismos biológicos.
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Livre associação e crítica ao associacionismo
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O método da livre associação não se funda no associacionismo mecanicista do século XIX.
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As associações emergem orientadas pela situação analítica e pelo sentido global da existência do paciente.
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Livre associação permite que relações essenciais e possibilidades existenciais se revelem mais plenamente.
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Tal revelação só é possível porque o homem é, em essência, abertura iluminadora do ser.
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Linguagem como morada do ser
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Tanto Freud quanto Heidegger reconhecem a centralidade da linguagem na existência humana.
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A verbalização preserva o que é e impede que a tomada de consciência permaneça parcial ou efêmera.
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Nomear é assumir responsavelmente as próprias possibilidades de existir.
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Repressão, valores morais e responsabilidade
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A repressão está ligada a juízos morais, vergonha e autoimagem, e não apenas a forças energéticas.
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Isso implica a capacidade humana de distinguir entre bem e mal, belo e feio, no sentido existencial.
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A análise exige a renúncia à pretensão de decidir previamente quem se é e como o mundo deve aparecer.
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A atitude ética do analista
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O analista deve aceitar o paciente integralmente, com todas as suas possibilidades, sem impor valores pessoais.
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A relação analítica deve tornar-se um espaço quase ilimitado no qual todas as possibilidades de relação possam emergir.
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A reserva do analista não visa desumanização, mas respeito radical à autonomia do paciente.
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Tal ethos só é possível a partir de uma relação fundamental com o ser.
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Cuidado antecipador e não interventivo
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Freud distingue implicitamente entre um cuidado interventivo, que substitui o paciente, e um cuidado antecipador, que o devolve a si mesmo.
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O cuidado antecipador visa a existência do outro, não tarefas particulares.
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Essa distinção coincide exatamente com a análise heideggeriana das modalidades do cuidado.
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Limites da teoria freudiana
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Embora a prática freudiana seja profundamente humana, sua teoria permaneceu presa a um modelo mecanicista.
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A análise do Dasein permite compreender, justificar e libertar a prática psicanalítica de tais limitações teóricas.
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Assim, a daseinsanálise não substitui Freud, mas esclarece o fundamento ontológico implícito de sua prática clínica.
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