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Memória na Grécia Arcaica: Oralidade, Mnemosyne e a Unidade de Lembrar e Esquecer
Casey2010
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Centralidade temática e existencial da memória entre os gregos arcaicos
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A memória constituiu uma preocupação temática central, chegando a assumir caráter obsessivo na cultura grega primitiva.
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A própria sobrevivência da cultura oral do Período Arcaico dependia de práticas rigorosas e coletivas de lembrança.
Linguagem e pensamento emergiram, nesse contexto, a partir da memória.-
O pensar não precede o lembrar, mas se forma a partir dele, de modo que a memória fornece o solo originário da articulação simbólica e conceitual.
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Condição oral da cultura grega anterior à escrita alfabética
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Antes da introdução da escrita alfabética, os gregos dependiam exclusivamente das capacidades memoriais humanas.
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A escrita é caracterizada, segundo Platão, não como remédio para a memória, mas como instrumento de mero lembrar, isto é, de remissão externa.
A ausência de registros escritos impunha a necessidade de treinamento especializado.-
Certos indivíduos eram preparados para assumir funções públicas e míticas baseadas inteiramente na memória.
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A figura do mnemon como função social e mítica da memória
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O mnemon exercia papel institucional ao manter registros de procedimentos jurídicos sem auxílio de documentos escritos.
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A memória funcionava, nesse caso, como arquivo vivo e autoridade normativa.
No plano mítico, o mnemon aparece como servidor de heróis encarregado de recordar advertências divinas.-
O exemplo ligado a Aquiles mostra que a falha da lembrança tem consequências fatais, tanto para o herói quanto para o lembrador.
A narrativa do fracasso do mnemon reforça a gravidade ética e ontológica da função memorial.-
Esquecer não é neutralidade, mas ruptura da ordem estabelecida entre o humano e o divino.
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Os bardos como mestres da memória e guardiães do saber coletivo
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Os bardos que recitavam a Ilíada operavam sem qualquer suporte escrito.
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A totalidade do poema era mantida viva pela memória treinada e exercida.
Esses poetas eram quase certamente submetidos a técnicas mnemônicas específicas.-
O uso de metros fixos e de epítetos variáveis funcionava como estrutura de sustentação do lembrar.
A complexidade do conteúdo exigia tais artifices.-
Catálogos extensos de nomes, genealogias, proveniências e forças militares impunham cargas excepcionais à memória.
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Função coletiva e vital da memorização épica
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A recitação épica não visava apenas impressionar por virtuosismo técnico.
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Seu objetivo fundamental era preservar e transmitir um corpo inteiro de saber partilhado.
A memória desempenhava o papel equivalente ao de arquivos em uma sociedade sem escrita.-
Esse saber não atendia a exigências administrativas, apologéticas ou historiográficas no sentido moderno.
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Tratava-se de um conhecimento lendário que permitia ao grupo decifrar o seu passado.
Memorizar era, portanto, um gesto existencial.-
Constituia uma resistência ativa contra o esquecimento e a dissolução do sentido coletivo.
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Natureza mítica do passado conservado pela memória épica
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O passado preservado não era primariamente histórico, mas cósmico e mítico.
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Investigar o passado significava explorar o que estava oculto nas profundezas do ser.
A rememoração épica permitia ao ouvinte suspender as inquietações do presente.-
A memória operava como passagem para uma dimensão ontológica mais ampla.
Nesse contexto, lembrar e esquecer não se opõem.-
O esquecimento do presente imediato é condição para a plena rememoração do passado mítico.
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Unidade originária de lembrar e esquecer na mitologia grega
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Para os gregos arcaicos, lembrar e esquecer formam um par indissociável.
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Ambos são representados miticamente como potências cooriginárias.
Lesmosyne e Mnemosyne aparecem como figuras complementares.-
O esquecimento não é excluído, mas incorporado ao domínio do lembrar.
Mnemosyne integra em si o poder de fazer desaparecer aquilo que pertence ao lado obscuro da existência humana.-
A iluminação do lembrar pressupõe a capacidade de relegar ao esquecimento o que ameaça o equilíbrio vital.
A unidade dos opostos se dá sob o predomínio do polo positivo.-
O nome da deusa exprime essa predominância, ainda que inclua internamente o esquecimento.
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Empobrecimento moderno da figura de Mnemosyne
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Na recepção moderna, Mnemosyne é reduzida à figura formal de mãe das Musas.
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Sua potência inspiradora e cognitiva é obscurecida por uma representação rígida e cerimonial.
A perda dessa dimensão corresponde a uma perda de inspiração cultural contemporânea.-
A deusa deixa de ser fonte viva de entusiasmo poético.
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Mnemosyne como origem da inspiração poética
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A poesia é apresentada como resultado de possessão divina, não de técnica.
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O poeta é inspirado por Mnemosyne e transmite esse entusiasmo em cadeia.
O rapsodo e o ouvinte participam igualmente desse fluxo.-
A memória atua como força magnética que liga deusa, poeta, recitante e audiência.
A experiência poética é, assim, essencialmente memorial.-
Lembrar não é apenas conservar, mas animar e mover espiritualmente.
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Mnemosyne como fonte de conhecimento e sabedoria total
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A memória divina confere ao poeta conhecimento do passado mítico.
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Esse saber não é empírico nem inferido, mas infundido.
Mnemosyne é descrita como possuidora de uma sabedoria omnitemporal.-
Ela conhece o que foi, o que é e o que será.
O poeta partilha dessa condição com o profeta.-
Ambos sabem mais do que poderiam saber por meios próprios.
A diferença reside na direção temporal do saber.-
O profeta se orienta para o futuro, o poeta para o passado.
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Memória como pensamento comemorativo
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O saber poético é compreendido como um pensar que retorna.
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Trata-se de uma rememoração que reúne e concentra o pensamento.
A memória recolhe aquilo que exige ser pensado antes de tudo.-
Ela não é qualquer pensamento, mas pensamento essencial.
A poesia encontra nessa memória sua fonte e fundamento.-
Pensar poeticamente é lembrar de modo originário.
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Permanência moderna atenuada da concepção grega de memória
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A definição romântica da poesia como emoção recolhida na tranquilidade ecoa a visão antiga.
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A substituição de emoção por conhecimento reconduz diretamente à concepção grega.
A singularidade de Mnemosyne no panteão ocidental confirma a veneração grega da memória.-
Nenhuma outra divindade recebe nome que designe explicitamente o lembrar.
A elevação da memória à condição divina representa o máximo reconhecimento possível.-
A memória é honrada como potência fundadora da linguagem, do saber e da cultura.
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