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Lembramento [Remembering] – Prefácio (segunda edição)
Casey2010
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Intenção programática de complementaridade entre Imagining e Remembering
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A reaparição simultânea de novas edições de ambos os livros reforça a unidade metodológica que os articula, pois cada obra se orienta por uma mesma atitude fenomenológica de descrição minuciosa das formas e direções próprias de cada ato.
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A descrição detalhada não visa reunir dados exteriores aos atos, mas explicitar como cada ato se efetua e em que sentido se orienta, de modo que a análise permaneça imanente às operações descritas.
A aproximação entre imaginar e lembrar é situada como tradição antiga, pois desde Aristóteles se vinculam tais atos como dimensões centrais da atividade mental humana.-
Descoberta de diferenças fundamentais que impedem a derivação de ambos a partir da percepção
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A partir de 1977 emerge a tese de que imaginar e lembrar não podem ser compreendidos como meros derivados da percepção nem como sua cópia direta ou indireta, o que invalida a pretensão de reduzi-los a simples prolongamentos do perceber.
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A recusa do modelo de cópia implica que imaginar e lembrar possuem estrutura própria e não dependem de uma primazia explicativa da percepção.
A distinção é reforçada pela tese de que, embora haja cumplicidade entre os atos em diversas frentes, eles permanecem tão distintos entre si quanto a percepção é distinta de ambos.-
A cumplicidade é exemplificada por campos em que ambos cooperam, como a atividade do historiador, os sonhos e a consciência do tempo, mas essa cooperação não elimina a diferença estrutural.
A diferenciação entre os atos é localizada em traços fundamentais que operam como critérios fenomenológicos de distinção.-
O grau de familiaridade implicado em cada ato marca modos diversos de relação com o conteúdo.
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O modo de positar o conteúdo como existente ou não existente delimita o estatuto ontológico vivido do que se apresenta no ato.
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A comparativa corrigibilidade de cada ato estabelece uma diferença quanto ao modo como o ato admite correções e revisões internas.
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Reconhecimento de semelhanças estruturais e introdução de uma análise intencional comum
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A semelhança decisiva é estabelecida pela autonomia compartilhada de ambos os atos, pois nem imaginar nem lembrar é parasitário da percepção, e cada um exerce liberdade própria.
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A autonomia é caracterizada como condição positiva do ato, não como derivação de um outro ato mais originário.
A análise intencional é introduzida como método capaz de evidenciar modos comparáveis de operação em ambos os atos.-
Cada ato admite variações como imaginar ou lembrar que algo é o caso, bem como imaginar ou lembrar como fazer algo, o que indica uma estrutura de atos com perfis análogos.
Cada ato inclui uma apresentação com conteúdo específico e com moldura espaço-temporal, além de um modo característico de doação.-
A moldura espaço-temporal delimita o mundo em que o conteúdo se oferece, e o modo de doação determina como esse conteúdo comparece ao sujeito.
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Emergência de diferenças já no nível inicial da comparação: espessura da autonomia e multiplicidade dos tipos
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A autonomia de imaginar é caracterizada como tênue, ao passo que a de lembrar é caracterizada como espessa, indicando que a liberdade do lembrar se exerce em um campo mais densamente estruturado.
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A espessura do lembrar se manifesta na variedade interna de seus tipos e na atmosfera que permeia aquilo que é lembrado.
A análise intencional encontra poucos tipos básicos de imaginar, mas detecta uma pluralidade muito maior de formas de lembrar.-
Entre os tipos de lembrar são enumeradas distinções como primário e secundário, lembrar de fazer algo, lembrar por ocasião de um evento, lembrar como alguém aparece sob um aspecto e lembrar o que algo é como totalidade experiencial.
No lembrar, não há apenas uma margem de indeterminação em torno do conteúdo, mas uma atmosfera que o atravessa integralmente.-
A atmosfera indica uma difusão de sentido que não se reduz ao conteúdo temático e que modifica o caráter do ato como um todo.
No lembrar há uma autopercepção tênue e constante do lembrante que se imiscui no lembrado, ao passo que no imaginar o imaginante pode permanecer distante ou ausente.-
Essa autopercepção delimita um modo de presença de si que configura a fenomenalidade própria do lembrar.
A análise eidética produz um contraste de escala entre os dois atos, pois os traços essenciais do imaginar exigiram uma exposição extensa, enquanto os do lembrar são apresentados como matéria de tratamento mais breve.-
O contraste é interpretado como indício de que a essência do lembrar não se deixa estabilizar por um conjunto compacto e simples de traços.
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Tese geral: a memória possui múltiplas moradas e resiste a uma descrição central única
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A polimorfia do lembrar impede que uma única configuração de estruturas intencionais ou de traços eidéticos capture o fenômeno em sua totalidade.
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A impossibilidade de captura total expressa a tese de que o lembrar se dispersa em variações que excedem qualquer núcleo descritivo único.
Traços primários são continuamente complicados por traços secundários, os quais recusam redução à simplicidade de uma descrição central.-
A articulação entre traços primários e secundários mostra que o lembrar é um campo de modulações e não um ato de forma invariável.
A extensão do livro Remembering [Lembramento] e o tempo de sua redação são compreendidos como consequência da própria natureza do fenômeno descrito.-
O caráter irregular e proliferante do lembrar impõe uma expansão do trabalho descritivo e desmente expectativas de rapidez e linearidade na composição.
Um paradoxo é explicitado: imaginar, frequentemente tomado como excêntrico e caprichoso, revela-se mais regular em execução e estrutura do que lembrar, frequentemente tomado como sóbrio e confiável.-
A tese inverte expectativas comuns e reorienta a compreensão do que conta como regularidade fenomenológica em cada ato.
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Proliferação de anomalias entendidas como desvios de normas aceitas e não como patologias
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As anomalias são definidas como afastamentos de normas teóricas recebidas, distinguindo-se da questão das anormalidades enquanto patologia da memória.
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A distinção preserva um espaço descritivo para variações legítimas do lembrar sem reduzi-las a doença.
A bipartição clássica entre memória primária e memória secundária é apresentada como insuficiente mesmo em autores considerados agudos.-
A insuficiência manifesta-se quando surgem formas intermediárias que não se deixam classificar sob o dualismo retencional e reprodutivo.
É introduzido um conjunto de formas intermediárias entre memória primária e secundária e entre mente e mundo.-
Exemplos centrais incluem reconhecer X como Y, ser lembrado de B por A e rememorar, que operam como modos familiares e pouco investigados.
Esses modos intermediários deslocam o lembrar do recinto da mentação para a amplitude do mundo circundante, no qual o mundo se mostra carregado de indícios de reconhecimento, de lembretes eficazes e de coisas que inspiram reminiscência.-
O deslocamento implica que a memória não é confinável ao interior da mente, pois ela se realiza em conluio com a vida-mundo na qual se dão pistas e solicitações.
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Passo heterodoxo: a crítica à mente como receptáculo representacional e a tese de perseguir a memória para além da mente
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Em uma etapa posterior do projeto, a mente deixa de ser considerada parte da solução e passa a ser tratada como elemento endêmico do problema, desde que concebida como recipiente de representações.
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A crítica tem como alvo a concepção que se consolidou desde Descartes, segundo a qual a memória seria essencialmente armazenamento interno de imagens do passado.
A hegemonia concedida à recordação, entendida como memória secundária de longo prazo em formato visualizado, é interpretada como prolongamento do privilégio concedido à mente como fonte e contêiner de representações.-
Deslocar o foco para além da recordação significa deslocar a teoria para além da mente enquanto veículo exclusivo.
Perseguir a memória para além da mente implica buscar instâncias exemplares de lembrar que não se prendam à recordação e, por isso, não dependam do modelo mentalista e representacional.-
Triângulo exemplar de lembranças não mentalistas: memória corporal, memória de lugar e comemoração
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Três exemplares são identificados como não exclusivamente mentalistas, representacionais ou recoligentes, e por isso capazes de romper o domínio de modelos antigos.
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A memória de lugar é tomada como fenômeno pivotal, pois lugares concretos retêm o passado de modo reanimável pelo ato de lembrá-los.
A memória corporal é descrita como mais do que memória do corpo, pois consiste em lembrar lugares, eventos e pessoas com e no corpo vivido.-
O corpo vivido funciona como meio de atualização do passado, e não como simples objeto tematizado.
A comemoração é apresentada como cena ritualizada de co-lembrar em que memória corporal e memória de lugar se articulam com outros co-participantes.-
O caráter ritual e intersubjetivo da comemoração desloca a memória para um espaço partilhado em que lembrar é um fazer em comum.
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Consequências teóricas: explosão do modelo representacional e reconfiguração do estatuto do passado
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A tríade de exemplares produz a explosão virtual da hegemonia de modelos antigos que definem lembrar como reapresentar.
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A crítica é caracterizada como desconstrutiva, pois põe em questão paradigmas aceitos e amplia o horizonte do que conta como memória legítima.
A reaparição do passado em formato visualizado no olho da mente deixa de ser objetivo e deixa de ser critério.-
A tese afirmada é que o passado pode ser plenamente lembrado sem retorno visualizado e sem reconstrução imagética explícita.
Realismo e representacionalismo da memória são deslocados por um modelo mais nuançado em que corpo e lugar, inseridos na vida-mundo do lembrante, ganham proeminência incomum.-
A memória é reancorada na experiência situada e nas mediações concretas do mundo vivido.
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Tese de outridade: perseguir a memória em direção ao que é outro do que mente
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A memória deve ser buscada em sua outridade, isto é, no que é outro do que mente e também outro para a mente.
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Cada exemplar mobilizado efetua um descentramento, pelo qual a memória se torna algo que excede o regime mental interno.
Em corpo, lugar e comemoração ocorre um processo de alterização em que a mente é deslocada para fora de si, de modo que lembrar aparece como viagem progressiva para além da concepção tradicional.-
A viagem progressiva significa que o próprio conceito de memória se transforma à medida que o campo se amplia.
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Direções adicionais não exploradas e mapeamento de desenvolvimentos posteriores
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Outras direções poderiam ter sido perseguidas, mas a extensão do livro impôs limites.
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Algumas direções foram tomadas por outros, que situam a outridade da memória em aliança com a escrita ou com a carne.
Modelos psicológicos atuais são descritos como orientados para a base neurológica, onde o cérebro aparece como outro da mente.-
O deslocamento para o cérebro reconfigura a outridade em chave fisiológica, sem coincidir com as preferências aqui indicadas.
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Projeto alternativo: o esquecimento como outro primário da memória e a confissão de sua ausência no livro
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Uma ampliação em direção a um segundo volume teria como eixo o esquecimento como outro primário da memória.
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A formulação implica que a memória não se compreende adequadamente sem uma descrição paralela do esquecer.
No estado atual do livro, o que foi esquecido é o próprio esquecimento, e isso é apresentado como lacuna interna ao projeto.-
A perda de um capítulo sobre esquecimento e sua reaparição tardia instauram um exemplo performativo de lapsus memoriae que reforça o tema.
A tentativa de compensação ocorre por meio de um artigo que tematiza o esquecimento lembrado, mas o resultado principal é a descoberta da vastidão tipológica do esquecer.-
O esquecimento se revela como terreno com numerosos tipos e subtipos, o que torna inadequada a concepção de um esquecer simples e indiferenciado.
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Tipologia inicial do esquecimento: esquecer o que, esquecer como e dupla oblivion
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O esquecimento não se limita a esquecer o que se deseja recordar, pois inclui esquecer como, isto é, esquecer como fazer algo e também esquecer como se esqueceu.
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O esquecer como introduz uma camada reflexiva em que o próprio processo de esquecimento se torna objeto perdido.
A dupla oblivion é definida como esquecer que se soube algo, em contraste com lembrar que se soube mas não conseguir recuperar o conteúdo.-
A dupla oblivion aprofunda a perda ao apagar não apenas o conteúdo, mas o traço de posse anterior.
A tipologia inclui também o caso em que se esquece aquilo de que nunca se foi consciente, bem como a recomendação nietzschiana de esquecimento ativo.-
O esquecer ativo introduz uma dimensão volitiva que se articula com formas de esquecimento pré-consciente.
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Duas ramificações do esquecimento: direção coletiva e direção traumática-repressiva
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Do esquecimento individual, inclusive em sua modalidade volitiva, abrem-se dois grandes caminhos.
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Um caminho conduz ao esquecimento coletivo e outro às formas traumáticas e reprimidas de memória.
A bifurcação indica que o esquecer ultrapassa o sujeito isolado e exige descrição em escalas intersubjetivas e histórico-sociais, bem como em escalas clínicas e psicodinâmicas.-
Esquecimento coletivo como obverso constitutivo da memória coletiva
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O esquecimento coletivo não é mero lado sombrio ou simples ausência, mas componente constitutivo da própria memória coletiva.
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A constitutividade implica que lembrar em comum exige um operar seletivo de esquecimento em comum.
A investigação do modo como a amnésia social entra na memória genuinamente interpessoal é apresentada como quase inexistente.-
A tese afirmada é que, para lembrar junto, é necessário primeiro esquecer junto, o que inaugura um problema estrutural de cooperação seletiva.
A comemoração de guerras é apresentada como caso em que lembrar publicamente supõe não lembrar horrores, mutilações e agonias.-
A lembrança individual de horrores tende a minar a participação no evento público, evidenciando tensão entre verdade traumática e forma comemorativa.
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Funeral e a instituição social do esquecer como condição de continuação da vida comum
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Em funerais, mesmo quando se honra e se recorda o falecido por traços e episódios, também se sanciona um começar a esquecer, simbolizado pela exigência de deixar o morto repousar.
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A prática ritual é descrita como pedagogia social do esquecimento, em que o lembrar intenso serve a uma transição para o distanciamento.
O exemplo dos enlutados de Gawa, com o enegrecimento e a vida conjunta em uma casa de esquecimento, explicita simbolicamente a invasão do oblivion e a preparação para a dispersão.-
A vida comum favorece reminiscências, mas opera simultaneamente como rito de passagem para a rarificação do lembrar.
A observação freudiana de hipercatexia seguida de decatexia reforça a estrutura paradoxal em que intensificar o lembrar possibilita desintensificar o vínculo.-
A intensificação de lembrança aparece como condição para a liberação posterior, tornando o esquecer efeito interno de um certo lembrar.
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Cultura do vídeo e usurpação de horizonte da co-memória discursiva
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A lembrança coletiva de certas construções sociais por meio de imagens é acompanhada por privação de formas ativas de co-lembrar que existiam em práticas comunitárias anteriores.
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O resultado é descrito como substituição de um horizonte de conversa reminiscente por uma concentração monofocal e majoritariamente não verbal em um evento audiovisual.
O conceito de usurpação de horizonte exprime a tese de que a forma dominante de atenção não apenas ocupa o lugar de práticas anteriores, mas redefine o campo do que pode ser lembrado junto.-
A transformação do horizonte implica que a lembrança se torna menos dialógica e mais passiva, ainda que socialmente partilhada.
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Colaboração manifesta entre lembrar e esquecer: repetição compulsiva de massas
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Há casos em que lembrar e esquecer entram em colaboração explícita, como em atos de repetição coletiva em que se sabe o que fazer e como fazer, mas não se sabe por que se faz.
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A distinção entre níveis do ato permite que o lembrar operacional se combine com o esquecer motivacional.
O exemplo de Nuremberg descreve uma cena ritualizada em que a execução correta de gestos convive com ausência de compreensão do sentido.-
A tese resultante é que lembrar o que e o como pode ser, em profundidade, esquecer o porquê, e que em tais casos lembrar e esquecer se interpenetram.
A ampliação do princípio de que esquecer é condição da vida da mente é estendida à vida de um povo, de modo que o esquecimento se torna condição da memória coletiva.A conclusão local afirma que a memória coletiva é inseparável de um regime constitutivo de esquecimento coletivo, não apenas como falta, mas como operação estruturante.-
Memórias traumáticas reprimidas e o entrelaçamento do lembrado e do esquecido no indivíduo
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No âmbito traumático reprimido, ocorre acting out que não se reconhece como lembrar nem como esquecer, mas que funciona como ambos simultaneamente.
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O caráter paradoxal do acting out indica que a memória pode operar sem se oferecer como memória.
A repressão implica uma dupla oblivion, pois tanto o conteúdo reprimido quanto o mecanismo de repressão permanecem fora da consciência.-
O esquecimento envolve o que e o como, o que aprofunda a opacidade do fenômeno.
O retorno do reprimido em sintomas e sonhos é apresentado como enigmático e exige interpretação, já que o porquê de sua aparição não se oferece de modo transparente.-
A criptografia do retorno indica mistura interna de lembrança e esquecimento, pois o que aparece encobre sua origem.
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Retorno traumático não distorcido, sonhos de guerra e excesso de lembrar
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Quando traumas retornam sem distorção repressiva, a experiência assume a forma de reencenações alucinatórias, cuja realidade é aterradora.
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O exemplo dos sonhos de veteranos da Primeira Guerra e do Vietnã ilustra que o sonhar pode ser sofrimento por excesso de memória, não criação leve da fantasia.
A repetição do trauma conduz ao problema que levou Freud a postular a pulsão de morte, pois tolerar ou desejar tais reinstalações indica viver para além do princípio do prazer.-
O trauma repetido aparece como lembrança que se impõe sem mediação e contra a vontade do sujeito.
A comparação com o mnemonista capaz de recordar tudo explicita o ponto em que o sujeito deseja esquecer e não consegue.-
A incapacidade de esquecer transforma o lembrar em aflição contínua.
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Desejo inverso: querer lembrar e não conseguir, abreação e tentação da confabulação
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Em contraste com o excesso de lembrança, há o caso do sujeito que quer lembrar para se libertar do passado reprimido por meio de reação emocional adequada, mas não consegue atravessar a cortina da repressão.
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A impossibilidade de acesso direto, somada à convicção de que o sofrimento se liga ao passado oculto, cria o risco de fabricar narrativas para preencher o vazio.
A confabulação pode ser induzida por sugestão, inclusive quando reforçada por técnicas hipnóticas.-
A sugestão opera ao propor uma etiologia fixa de sintomas, na qual apenas um trauma sexual poderia explicá-los, o que tende a converter a lembrança em hipótese irrefutável.
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Falsa memória, confabulação de trauma e abuso da memória
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O síndrome de falsa memória é apresentado como problema em que se corre o risco de reivindicar como passado aquilo que nunca aconteceu, isto é, um pseudo-passado que não é passado algum.
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Esse pseudo-passado é distinguido tanto de um passado que nunca foi presente quanto de construções analíticas conjecturais, pois se trata de um passado fabulado que se ajusta a circunstâncias presentes.
A confabulação pode resultar de necessidade desesperada de atribuir culpa, de contágio cultural que demoniza figuras e, sobretudo, de uma postura terapêutica que determina previamente a causa.-
A repressão é então invocada post hoc para explicar a ausência de memória, quando pode não haver trauma a lembrar.
Surge a possibilidade de que o abuso em questão não seja sexual, mas abuso da própria memória, isto é, fabricação de lembranças para fixar uma causa e atribuir culpa.-
A tese de que memórias falsas podem criar o trauma desloca o problema para o estatuto performativo da crença memorial.
A distinção entre lembrar traumas e lembrar traumaticamente delimita uma crítica à transformação da memória em repetição patológica ou em instrumento acusatório.-
Expansão do escopo do esquecimento além de modelos prevalentes e deslocamento para a intersubjetividade
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Memória coletiva e memória traumática ampliam o alcance do esquecimento para além de explicações usuais como lapso, deterioração, distração e interferência.
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A ampliação indica que modelos meramente cognitivos não abarcam modos profundos de oblívio.
Ambos os tipos operam em indivíduos, mas conduzem para além do indivíduo autônomo, em direção à intersubjetividade presente tanto em eventos públicos quanto em relações terapêuticas.-
A intersubjetividade aparece como condição de possibilidade de certas formas de lembrar e esquecer e como campo de efeitos devastadores.
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Superação final do mentalismo e exigência de uma fenomenologia abrangente do esquecimento
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Tanto o esquecimento coletivo quanto o traumático ultrapassam a mente concebida como formato representacional e recoletor, pois a mente não pode abarcar nem explicar o funcionamento do oblívio coletivo nem o impacto devastador de memórias traumáticas, reais ou fabricadas.
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A tese reforça que a memória deve ser perseguida para além da mente, e que o esquecimento aprofunda ainda mais esse deslocamento do que os exemplares de corpo e lugar.
A indicação histórica de que debates sobre memória coletiva e falsa memória intensificaram-se após a primeira edição do livro serve para justificar a insuficiência de um tratamento apenas insinuado.-
A falta de exploração ampla desses horizontes impede também a explicitação das formas pelas quais esquecer e lembrar seriam co-originários.
A conclusão afirma que permanece muito trabalho a ser feito, sobretudo uma descrição detalhada do esquecimento em suas múltiplas figuras e aplicações.-
Somente tal descrição permitiria uma apresentação realmente abrangente da memória em seus muitos modos, enactments e extensões, integrando o esquecimento como dimensão estrutural e não acessória.
estudos/casey/lembramento-prefacio2.txt · Last modified: by mccastro
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