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Lembramento – Prefácio (primeira edição)
Casey2010
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Impossibilidade de um prefácio para o lembrar devido à anterioridade operante da memória
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A memória não admite um preâmbulo que a anteceda, porque o lembrar não se oferece como objeto a ser abordado de fora, mas como meio já operante no qual toda abordagem se encontra desde sempre.
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A ideia de prefacear o lembrar falha porque supõe uma posição exterior e anterior ao próprio fenômeno, ao passo que a memória já ocupa a posição de anterioridade que qualquer prefácio pretenderia assumir.
A memória é continuamente pressuposta e continuamente exercida, de modo que não se limita a um ato episódico, mas se prolonga em níveis simultâneos e em modalidades concorrentes.-
Mesmo quando ocorre o mal-lembrar ou a falha de recolhimento, permanece rara a situação em que não haja imersão em memória, pois a memória acompanha passos, pensamentos e palavras como condição tácita de continuidade da vida cotidiana.
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Expansão do campo memorial para além do humano e inserção do lembrar no mundo circundante
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A memória é apresentada como impregnando corpo e cérebro até seus elementos mínimos, o que indica uma presença difusa e materialmente disseminada do passado incorporado.
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A atribuição de memória a fibras corporais e células cerebrais funciona como afirmação de uma inscrição orgânica do vivido, que não se reduz a conteúdos conscientes.
O mundo físico extrabodily é igualmente descrito como portador de marcas de história, de modo que objetos inanimados aparecem como carregados de traços de passado em profusão silenciosa.-
A memória-ladenidade ultrapassa o humano ao incluir o ambiente, sugerindo que lembrar conduz simultaneamente para dentro da vida individual e para fora dela, na direção do mundo que envolve e sustenta a experiência.
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Reconhecimento da importância irredutível do lembrar pela consideração de uma vida privada de memória eficaz
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Reconhecer a pré-presença massiva da memória implica reconhecer sua importância insubstituível, pois a vida humana depende de uma continuidade memorial que normalmente passa despercebida.
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A necessidade de convencimento quanto ao valor da memória é tratada como desnecessária quando se contempla a situação de alguém privado de seu uso efetivo, pois a privação torna visível o que a normalidade encobre.
O caso de M.K. é mobilizado como exemplificação trágica da devastação produzida por uma perda súbita e ampla de acesso memorial.-
A perda de memórias recentes e a incapacidade de formar novas memórias posteriores à doença configuram uma existência sem direção, na qual o tempo vivido se dissolve e a identidade pessoal se torna incerta.
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A descrição concisa do que resta a M.K. é apresentada como condensação de uma essência vazia de vida, na qual a memória não apenas falha, mas deixa de estruturar um sentido de continuidade.
A rapidez incompreensível com que o que é tomado como garantido pode ser abolido sustenta uma perplexidade filosófica adicional.-
Se a memória permeia tão profundamente a vida, torna-se problemático compreender como pode ser perdida de modo tão irreversível, o que introduz uma tensão entre ubiquidade funcional e vulnerabilidade radical.
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Consideração simétrica do excesso de memória e do sofrimento que acompanha a hipermnésia
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O caso de S. é apresentado como limite oposto ao de M.K., no qual a capacidade de recordar não parece encontrar limites discerníveis.
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A reprodução exata e entoada de estrofes em língua desconhecida, após longo intervalo, ilustra uma potência de fixação e recuperação que excede expectativas ordinárias.
A hipermnésia aparece como carga e não apenas como vantagem, pois o excesso de evocação produz colisão de imagens e caos, exigindo técnicas deliberadas de esquecimento.-
A experiência de S. explicita que a memória pode oprimir por superabundância, de modo que o esquecimento se torna condição de sobrevivência psíquica e de organização do sentido.
A comparação entre M.K. e S. sustenta uma equivalência crítica quanto ao caráter opressivo dos extremos.-
A falta total e o excesso ilimitado aparecem como formas distintas de aprisionamento, sugerindo que a vida humana requer uma medida de memória e uma medida de esquecimento para não colapsar em vazio ou em saturação.
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Inserção dos casos-limite no horizonte ordinário entre hipomnésia e hipermnésia
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M.K. e S. são tratados como figuras-limite que permitem circunscrever o campo no qual se situa a experiência comum do lembrar.
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A experiência ordinária é descrita como situada entre a vacuidade amnésica e o recall total, o que impõe a pergunta pelo caráter do lembrar quotidiano enquanto tal.
A amnésia ordinária é reconhecida como fenômeno recorrente em graus distintos, desde falhas pontuais até esquecimentos sistemáticos e sintomáticos.-
A embaraçosidade e o desconforto associados a essas falhas indicam que o lembrar não é mera faculdade neutra, mas dimensão afetivamente carregada, capaz de desestabilizar a vida prática.
A possibilidade de formas de quase-perfeição memorial é reconhecida como contrapeso, tanto em crianças com recordação eidética quanto em adultos que recuperam memórias reprimidas ou manifestam hipermnésia mais extensa do que se supõe.-
A referência a tais capacidades funciona como indicação de que os limites não são totalmente estranhos, pois traços de ambos os polos se insinuam em experiências comuns, ainda que em escala modesta.
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Formulação das questões descritivas centrais sobre o lembrar cotidiano
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Uma vez estabelecido o campo médio da experiência, a investigação dirige-se ao que pode ser afirmado com segurança sobre o lembrar espontâneo e diário.
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A pergunta recai sobre o modo como a memória se apresenta quando não é nem total nem ausente, isto é, quando opera como prática ordinária.
A problematização assume a forma de um conjunto de questões articuladas.-
A forma de apresentação do lembrar é interrogada como fenômeno, isto é, como modo de aparecer e de operar no cotidiano.
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As formas básicas de memória são buscadas como tipologias do ato, não como enumeração externa de conteúdos.
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O conteúdo de que a memória trata é questionado em sua diversidade e em sua ligação com situações do mundo vivido.
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A repartição entre mente e corpo é colocada como problema de pertença funcional, isto é, em que medida o lembrar depende de uma instância mental ou corporal.
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A questão sintética, sobre o que se faz ao lembrar, resume a intenção de descrever o ato em sua execução.
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Definição do empreendimento como fenomenologia descritiva do lembrar em contextos comuns
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A obra é caracterizada como tentativa de responder às questões mediante uma atitude descritiva resoluta, orientada ao modo como a memória surge em cenários cotidianos.
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A descrição não depende de situações extraordinárias, mas delas se serve para tornar visível o que normalmente se deixa acontecer sem tematização.
A dificuldade central é a invisibilidade do familiar, pois o lembrar cotidiano tende a operar sem ser notado, e a fenomenologia visa justamente tornar temático o indistinto e o negligenciado.-
A fenomenologia é definida como discernimento do que passa despercebido na experiência diária, transformando o marginal em tema sem abandonar o solo da vivência.
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Relação com a investigação sobre a imaginação e emergência de uma diferença metodológica decisiva
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A investigação é apresentada como continuidade de um estudo anterior sobre a imaginação, mantendo afinidade estrutural, mas introduzindo uma diferença crítica.
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A diferença nasce das incursões multifárias da memória na vida-mundo do lembrante, que excedem a moldura em que a intencionalidade pode servir como fio condutor exclusivo.
A noção de restance é introduzida para designar simultaneamente resistência e resto, isto é, aquilo que permanece irredutível à captura completa por esquemas intencionalistas.-
A restance indica que a memória não se esgota em estruturas claras de direcionamento mental, porque envolve excedentes que persistem como remanescência não totalizável.
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Manutenção parcial da análise intencional e necessidade de ultrapassá-la como leitmotiv exclusivo
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A análise intencional é reconhecida como válida para uma parte significativa da recordação ordinária, especialmente quando assume forma de cenas visualizadas.
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A exploração do lembrar sob o modelo de intencionalidade é delimitada como um domínio legítimo, mas não exaustivo.
A insuficiência do leitmotiv intencional emerge quando se reconhece a força com que fenômenos memoriais conduzem para fora de uma concepção de mente como contêiner de ideias e representações.-
A crítica recai sobre a autossuficiência do paradigma estritamente intencionalista, que tenderia a enclausurar o fenômeno no interior de uma instância mental representacional.
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Introdução de modos mnemônicos intermediários que contestam o autoencerramento intencionalista
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O reconhecimento, a reminiscência e o ser lembrado por algo são apresentados como modos mnemônicos que deslocam a memória para uma zona de trânsito entre interioridade e mundo.
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Esses modos indicam que o lembrar opera por indícios, ocasiões e ressonâncias situadas, de modo que o mundo participa ativamente como campo de solicitação memorial.
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Deslocamento mais radical para memória corporal, memória de lugar e comemoração
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A descrição avança para fenômenos negligenciados em relatos anteriores, apesar de sua centralidade na experiência humana.
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Memória corporal é apresentada como via em que o passado se mantém e se reativa em disposições e inscrições do corpo vivido.
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Memória de lugar é apresentada como modo em que lugares retêm o passado e o reanimam quando reencontrados ou rememorados.
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Comemoração é apresentada como cena em que corpo e lugar se articulam com outros em práticas de co-lembrar.
Esses fenômenos fundamentam a ideia de autonomia espessa da memória, que se contrapõe à autonomia tênue atribuída à imaginação.-
A espessura da autonomia indica multiplicidade de canais e densidade de inserção na vida-mundo, de modo que a memória não se reduz a uma liberdade formal do ato, mas se enraíza em camadas de presença, hábito e situação.
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Tese de pluralidade de modos de acesso ao passado e crítica ao formato prescrito da recordação representacional
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O lembrar é descrito como operando em múltiplas modalidades, de modo que o passado não precisa comparecer como recordação representacional para que haja memória efetiva.
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A falha em recordar em formato imagético ou visualizado não equivale a falhar em lembrar, pois outros canais podem permanecer abertos e operantes.
Um exemplo de repressão de cena conflituosa é mobilizado para mostrar que a ausência de imagem lúcida não impede a persistência de uma memória corporal poderosa e inarticulada.-
A tese sustenta que a memória pode subsistir e agir sem reapresentação explícita, revelando uma continuidade memorial que não se confunde com recolhimento consciente.
A advertência pelo caso de M.K. introduz limites reais a essa pluralidade.-
A pluralidade de canais não garante alternativa em toda situação, mas indica abundância de vias normalmente subestimadas por filósofos e psicólogos.
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Retorno à vida-mundo e reorientação contra linguagens de representações e traços neurais
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O lembrar é apresentado como retorno ao mundo que teria sido perdido de vista por discursos centrados em representações e traços neurais.
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A memória é afirmada como linha vital para a vida-mundo, não como função isolada que reproduz dados internos.
O movimento do lembrar é descrito como condução para dentro das coisas mesmas, entendidas como aquilo que importa e como aquilo que a investigação fenomenológica pretende tematizar.-
Lembrar é descrito como recondução ao que tem peso e relevância, não como mera inspeção de conteúdos mentais.
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Caráter transformador do lembrar e singularidade de cada memória
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A memória não é apresentada como preservação de um status quo ante, mas como operação que transforma a experiência ao torná-la memória.
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Ao ser lembrada, a experiência muda de espécie, adquirindo estatuto específico com implicações próprias.
A memória inclui não apenas o consistente e o confiável, mas também o frágil, o errante e o confabulado, indicando que lembrar não garante pureza nem fidelidade simples.-
A inclusão do confabulado e do errante integra a possibilidade de distorção como dimensão interna do campo memorial.
Cada memória é descrita como única e não como repetição ou revivescência simples.-
O passado, ao ser revivido, é transfigurado de modo sutil e significativo, o que impede tratá-lo como retorno idêntico.
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Necessidade de descrição detalhada e crítica à redução do lembrar a subproduto de mente ou cérebro
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Se a memória altera a forma da experiência, torna-se necessária uma descrição minuciosa do lembrar, capaz de distinguir o fenômeno de atos aparentados como imaginar, perceber, sentir e pensar.
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A distinção buscada não se limita a taxonomias externas, mas se apoia no modo de aparecer e operar de cada ato.
A redução do lembrar a simples derivação de mente ou cérebro é rejeitada como proposta equivocada.-
Lembrar não é condenado a repetir o que já ocorreu em outro lugar, pois integra o próprio acontecer do aqui e agora como parte de cada ação.
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Co-presença temporal do lembrar e expansão ontológica do memorial
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A fórmula de que a lembrança é sempre agora sustenta que o lembrar se efetua no presente e como presente, ainda que diga respeito ao então e ali.
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O lembrar é descrito como presentificação operante que atua no agora sem abolir sua referência ao passado.
Nada humano é estranho à memória e nada no mundo deixa de possuir estatuto memorial, inclusive o próprio mundo.-
A memória é apresentada como dimensão universalizante que atravessa sujeito e ambiente, corpo e coisas, experiência e mundo.
A proporção entre conhecimento e memória é afirmada como tese final de alcance máximo.-
O saber do que existe é ligado à extensão das memórias possuídas, de modo que o alcance do lembrar coincide com o alcance do conhecer.
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