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Aristóteles sobre a Memória
Casey2010
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Finitização da memória no tratado aristotélico e seu significado histórico
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A abordagem da memória em De Memoria et Reminiscentia submete o lembrar a uma finitude estrutural que marca decisivamente o destino posterior do conceito.
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A própria brevidade do tratado é interpretada como sintoma dessa redução, pois a memória é tratada como tema secundário e delimitado.
A memória deixa de ser concebida como potência cósmica ou fonte de saber originário e passa a ser integrada a uma psicologia das faculdades finitas.-
Esse gesto inaugura uma transformação duradoura na compreensão filosófica do lembrar.
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Emergência da tradição passivista a partir do viés aristotélico
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A primeira consequência da finitização aristotélica é o surgimento de uma tradição passivista da memória.
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Nessa tradição, lembrar é reduzido a um processo passivo de registro e armazenamento de impressões recebidas.
A memória é concebida como receptáculo de traços que resultam da ação dos objetos sobre o sujeito.-
O sujeito não transforma ativamente o material lembrado, mas o conserva como cópia interna.
O passivismo permanece dominante ao longo da história.-
Ele assume tanto a forma de empirismo ingênuo quanto de modelos sofisticados de processamento de informação.
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Essa perspectiva converte-se na visão oficial e respeitável da memória, isto é, na interpretação legitimada institucionalmente.
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Surgimento concomitante da tradição ativista da memória
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Como reação ao predomínio passivista, desenvolve-se uma tradição alternativa de caráter ativista.
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Essa tradição sustenta que a memória envolve transformação criativa da experiência.
O lembrar não é entendido como duplicação interna do passado, mas como reconfiguração ativa.-
A memória produz algo novo a partir do vivido, em vez de simplesmente reproduzi-lo.
Vestígios desse ativismo já se encontram em Platão e Aristóteles.-
A concepção da recordação como busca indica uma atividade dirigida e não uma recepção passiva.
A persistência dessa ideia manifesta-se em noções modernas como ensaio e recuperação.-
Mesmo na psicologia cognitiva, a linguagem do buscar conserva ecos dessa herança.
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Desenvolvimento pleno de modelos ativistas na modernidade recente
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Apenas em tempos recentes surgem modelos ativistas plenamente articulados.
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Esses modelos rompem explicitamente com a concepção da memória como cópia.
A memória passa a ser descrita como processo narrativo, interpretativo ou reconstrutivo.-
A transformação retroativa das lembranças pela narração destaca o papel criativo do lembrar.
A reconstrução da memória por esquemas evidencia sua plasticidade.-
A memória evolui à medida que os esquemas de compreensão do sujeito se transformam.
A adaptação e assimilação contínuas da experiência mostram que lembrar reflete mudanças estruturais do sujeito.-
A memória não preserva o passado intacto, mas o rearticula segundo novas configurações.
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Independência histórica entre passivismo e ativismo
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As duas tradições coexistem ao longo dos séculos sem convergência efetiva.
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Desde Atenas clássica até a contemporaneidade, elas se desenvolvem em relativa autonomia.
Raramente ocorre uma tentativa consistente de articulação entre ambas.-
Cada tradição tende a ignorar ou minimizar a outra.
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Exceções notáveis: alianças criativas entre passivismo e ativismo
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Em alguns casos excepcionais, observa-se uma combinação produtiva das duas perspectivas.
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Platão e Freud figuram como exemplos paradigmáticos dessa convergência.
Ambos recorrem a metáforas de impressão para descrever a memória.-
A imagem da tábua de cera e a inscrição psíquica indicam um momento passivo de recepção.
Simultaneamente, ambos adotam concepções ativas do lembrar.-
A busca no aviário da alma e o trabalho analítico de elaboração ilustram a dimensão transformadora.
Nessas concepções híbridas, a memória é ao mesmo tempo inscrita e trabalhada.-
O lembrar implica registro e atividade interpretativa contínua.
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Polarização residual entre os extremos de passivismo e ativismo
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Fora dessas sínteses pontuais, a história do pensamento mantém-se polarizada.
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De um lado, figuras que reduzem a memória à cópia.
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De outro, teorias que enfatizam sua reconstrução ativa.
Entre esses extremos, a dimensão transformadora da memória tende a ser reprimida.-
A memória perde seu potencial de mediação criativa do sentido.
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Tentativas históricas de reabilitação da memória transformadora
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Houve esforços para restaurar a dignidade da memória, sobretudo na Idade Média e no Renascimento.
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As técnicas mnemônicas foram investidas de significados mágicos e místicos.
Nessas tradições, a memória conservava um vínculo com o saber sapiencial.-
Lembrar era meio de acesso à ordem do cosmos e ao conhecimento superior.
O declínio dessas tradições culmina no século XVII.-
A arte da memória sobrevive apenas como disciplina hermética e marginal.
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Pragmatização da mnemotécnica no século XVIII
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O renascimento não hermético da mnemotécnica no século XVIII reduz seu alcance.
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A memória passa a ser treinada apenas para fins utilitários.
A ênfase desloca-se para a memorização de grandes quantidades de dados factuais.-
A finalidade sapiencial é abandonada em favor da eficiência.
Técnicas antigas persistem, mas desprovidas de seu horizonte originário.-
O uso dos lugares e imagens serve apenas para ampliar a capacidade de retenção.
A memória é avaliada por critérios quantitativos.-
Sua função é organizar e conservar informações.
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Antecipação do modelo computacional da memória
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A redução pragmática da memória antecipa a concepção da mente como máquina de cálculo.
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A memória começa a ser pensada como sistema formal de armazenamento.
Leibniz ocupa posição decisiva nesse processo.-
Ele é simultaneamente o último defensor filosófico da arte da memória e o primeiro a imaginar máquinas de cálculo universais.
A tensão entre esses dois polos anuncia a transformação posterior da memória em função computável.-
Matematização da memória no contexto da ciência moderna
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A matematização da natureza conduz progressivamente à matematização da memória.
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A memória torna-se passível de formalização simbólica.
Esse processo prepara o terreno para modelos computacionais contemporâneos.-
O lembrar é traduzido em linguagem técnica e abstrata.
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Desqualificação filosófica da memória na modernidade clássica
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A memória sofre desvalorização explícita em filósofos centrais da modernidade.
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Ela é tratada como fonte pouco confiável de conhecimento.
A dúvida metodológica atinge a memória de modo privilegiado.-
O conteúdo lembrado é considerado radicalmente suspeito.
Mesmo quando a dúvida é superada, a memória não é reabilitada.-
Não há esforço sistemático de restituir-lhe credibilidade.
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Redução racionalista da memória a associações corporais
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A memória é definida como associação de ideias conforme modificações do corpo.
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Ela perde qualquer estatuto cognitivo elevado.
O lembrar é rebaixado a efeito colateral de processos fisiológicos.-
A mente não exerce atividade criadora no recordar.
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Consolidação empirista da memória como cópia
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A função da memória é reduzida à preservação da ordem e posição das ideias.
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A memória não cria nem reorganiza, apenas mantém.
A fidelidade da lembrança depende de sua semelhança estrutural com o ocorrido.-
Lembrar é mimetizar o passado.
A memória é convertida em máquina de replicação.-
A experiência passada é simplesmente duplicada internamente.
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Persistência do passivismo na tradição associacionista
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O associacionismo prolonga e reforça o modelo da memória como cópia.
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Nenhuma inflexão decisiva rompe com esse paradigma.
A memória permanece confinada a relações mecânicas entre ideias.-
Silenciamento do conceito de memória na filosofia crítica
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A memória é absorvida pela imaginação reprodutiva.
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Ela perde autonomia conceitual.
O lembrar é tratado como função empírica subordinada.-
Não lhe é reconhecida produtividade própria.
O apagamento do termo memória sinaliza um gesto defensivo.-
A memória é destituída de relevância filosófica explícita.
Nesse ponto extremo, a memória sofre um rebaixamento radical.-
Sua importância na experiência humana é sistematicamente negada.
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