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Mundo e Historicidade 2 – palavras iniciais

MAC2020

  • A análise fenomenológica de Ser e tempo inicia-se com uma citação de Platão que problematiza a ignorância acerca do significado da palavra 'ente', retomando assim o começo da metafísica e sua 'gigantomaquia' entre a academia e os sofistas
    • A repetição da questão do ser coloca em debate se ela reitera o original da metafísica ou um original pré-metafísico
  • O tempo é conceituado não como uma estrutura externa, mas como aquilo que temporaliza o ser do ser-aí, possibilitando a estrutura do cuidado como antecipar-se-a-si-mesmo-já-sendo-junto-a
  • A análise preparatória fundamental do ser-aí em Ser e tempo, centrada na cotidianidade mediana, tem como objetivo descrever os existenciais que determinam o modo de ser humano
    • A absorção no mundo fático é uma necessidade decorrente da indeterminação ontológica do ser-aí, visando à conquista de seu ser mais próprio
    • Tal análise culmina na crise dos sentidos cotidianos, revelada pela tonalidade afetiva fundamental da angústia, a qual suspende os focos fenomenológicos que dão consistência ao ser-aí
      • Esta crise revela inexoravelmente o caráter de cuidado do ser-aí
      • A crise abre a possibilidade de colocar e suspender o problema da realidade do mundo exterior
      • A crise revela a imbricação originária entre o ser-aí, a verdade e o mundo como momento veritativo
  • A síntese de Martin Heidegger no parágrafo 45 de Ser e tempo apresenta os resultados da análise preparatória
    • A constituição fundamental do ser-aí é ser-no-mundo, com estruturas centradas no descerramento
    • O ser-aí conquista seus modos de ser a partir da abertura de sentido que articula a totalidade significativa como campo de manifestabilidade
    • O termo ser-aí designa o homem como o ente que, sendo, coloca em jogo seu próprio ser e o ser da totalidade
    • Os modos de ser do ser-aí confundem-se com os modos de ser do seu mundo, revelando o cuidado como determinante radical
    • A angústia possibilita ao ser-aí conquistar-se a si mesmo como cuidado
  • O descerramento, cooriginário ao existir, possui uma estrutura tripartida compreensivo-dispositivo-discursiva
    • A compreensão corresponde à abertura de sentido
    • A disposição corresponde à facticidade atmosfericamente aberta
    • O discurso corresponde à totalidade significativa enraizada em um campo de fenomenologização
    • A interpretação articula a fala do mundo e não é um existencial originário
    • A unidade dessas três instâncias faz com que o ser-aí cuide de si, colocando-o em contato com o ser da totalidade
  • A essência do ser-aí é cuidado não por cuidar onticamente de si, mas porque todos os seus comportamentos possuem uma repercussão ontológica, relacionando-se necessariamente com seu ser
  • A afirmação de Martin Heidegger de que a ontologia só é possível como fenomenologia no parágrafo 7 de Ser e tempo articula-se com a relação entre cuidado e compreensão
  • Martin Heidegger empreende uma ontologização da compreensão, transformando-a de faculdade metodológica, como em Wilhelm Dilthey, em caráter próprio do existir
    • Existir significa compreender, pois implica projetar o campo de sentido que permite a uma possibilidade mostrar-se como tal
    • A relação entre compreensão, sentido e possibilidade possui um caráter ontológico, permitindo relações com diferentes modos de ser (utensiliaridade, subsistência, realidade, etc.)
    • Para relacionar-se com um ente em seu sentido de ser (ex: utensílio), o ser-aí precisa previamente compreender e projetar esse sentido
    • O projeto de sentido do ser-aí sempre se intersecciona com a abertura compreensiva do sentido de ser do ente em questão
    • A compreensão prévia de sentido de ser é condição para qualquer comportamento adequado em relação aos entes
  • O ser-aí é um ente privilegiado ontologicamente não apenas por determinar-se a si mesmo, mas porque suas possibilidades de ser exigem necessariamente uma compreensão de sentido de ser dos entes em geral
  • A ontologia fundamental, ao perguntar pelas condições de possibilidade da pergunta sobre o sentido do ser, possui uma interface necessária com a analítica existencial do ser-aí
    • A análise do ser-aí implica analisar a abertura de sentido de ser que torna possíveis as ontologias
    • Essa abertura é cooriginária à existência e não um elemento derivado
  • Um problema central surge da constatação de que, na cotidianidade, o sentido se retrai de maneira tácita, absorvendo o ser-aí no mundo e dificultando o acesso fenomenológico à compreensão projetiva
    • A proximidade excessiva da compreensão de ser torna difícil alcançar evidência fenomenológica sobre ela
    • Martin Heidegger enfrenta o dilema de encontrar um projeto existencial onde a compreensão de sentido de ser torne-se expressa, sob o risco de restar apenas o projeto impessoal
  • A solução para o dilema estrutural em Ser e tempo é buscada na introdução do tema da morte, o qual conduzirá à essência temporal do cuidado
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