estudos:caron:limitacao-visivel-peos-253
limitação do visível e extensão do olhar (2005:253)
PEOS
-
O método da redução fenomenológica, que mantém o foco na consciência pura, permanece infundado.
-
O sucesso operacional do método (o “funcionar”) é tomado como justificação suficiente de seu direito, obscurecendo a questão de sua legitimidade.
-
As questões principais sobre as condições de possibilidade do próprio método e, por meio dele, da reflexividade em geral, não são postas.
A possibilidade de uma instância de observação e recuo dentro do próprio sujeito transcendental não é esclarecida por Husserl.-
A Sexta Meditação Cartesiana menciona uma dupla atividade do sujeito (constituinte e observador), mas não resolve sua possibilidade interna.
-
Esse recuo só é possível através do ser, que permite situar cada elemento em sua presença.
A primazia do olhar, diante do qual todo ente deve comparecer para ser julgado como ente, é uma tendência herdada por Husserl de uma tradição bimilenar.-
Essa tendência impede o si mesmo de atingir a consciência de sua proximidade com o ser, pois tudo o que é visto só é na medida em que é visível.
-
Toda proveniência não-ente de um objeto, toda zona de sombra inerente à presença, é sistematicamente apagada ou reduzida a um campo de luminosidade.
A compreensão que o si tem de si mesmo como estando na luz e fazendo luz é uma redução inadequada.-
O si é portador de luz, estando, portanto, aquém daquilo que lhe é dado produzir por seu vínculo com o ser.
-
A descoberta da pré-compreensão do ser ensina o contrário dessa redução do si à luz.
A presença da noite no coração do si, revelada pela pré-compreensão do ser, diminui o alcance do sujeito.-
O sujeito é obrigado a se abaixar diante do enigma, mas essa humilhação se transfigura em humildade diante do que é verdadeiramente grande.
-
Tornar-se pouco é condição para o pressentimento do grande e para o autêntico espanto, que supera o que vai de si.
A zona de sombra, fonte de toda vinda em presença, é duplamente reduzida por Husserl.-
Primeiro, pelo nível conhecido da redução, fundada no princípio dos princípios que faz da intuição a fonte de direito do conhecimento.
-
Segundo, em um nível mais sutil, pela tentativa de reduzir a zona de sombra (ou indeterminação) do núcleo noturno das Abschattungen à esfera de imanência da consciência.
A redução husserliana põe entre parênteses a noite e o mistério, impedindo o pensamento de mergulhar no enigma que o requer.-
Para Husserl, a coisa só se dá através de esboços (Abschattungen), cuja proveniência não foi considerada.
-
As esboços são sempre incompletas, apresentando o objeto apenas sob um certo ângulo de visão.
O ângulo de visão mais visível torna-se progressivamente o único possível, e a visão em geral se confunde com este ângulo de máxima visibilidade.-
A parte limitada da coisa que alcanço torna-se a coisa inteira, pois o que não alcanço será objeto de redução.
Husserl reconhece um núcleo de invisibilidade (Kern) no cerne da aparição, cercado por um horizonte de co-dados e uma zona de indeterminação.-
No entanto, este núcleo de indeterminação é, em direito, redutível à zona de sentido própria da esfera de imanência intuitiva.
A imperfeição da percepção é vista como uma modalidade de seu próprio desdobramento, um correlato necessário de sua atividade.-
A sombra é instrumento do dia, e a “ausência a serviço da presença”.
-
A zona de sombra não é considerada como abertura do sujeito ao puro transcendente, mas como dependente da atividade perceptiva diretora.
O que para Heidegger é ocasião para romper os limites do círculo da ipseidade é usado por Husserl para reforçar este círculo.-
Para Husserl, a zona de sombra é o horizonte de toda percepção, mas este horizonte é inexplicavelmente produzido pela vida perceptiva mesma.
-
Esta produção não é analisada; é um constatação. A indeterminação está lá como uma ocasião para ser determinada.
O ser transcendente é considerado por Husserl como pertencente, sob o aspecto de um motivo de ulterior doação de sentido, à zona de imanência.-
Heidegger observa que, para Husserl, “o ser transcendente é sempre dado na figuração e [que] se apresenta assim diretamente como objeto da intencionalidade”.
A zona de sombra é um instrumento do desdobramento da consciência, mas sua obscuridade não é tomada em sua significação própria.-
A consciência que tem acesso a essa figura como nada dela mesma não é conduzida à radicalidade de seu nativo ser-aberto.
A transcendência não é apenas posta fora de circuito por Husserl; sua zona de sombra é integrada não como condição, mas como correlato necessário.-
No entanto, um correlato necessário é uma condição, e uma condição deve ser pensada em si mesma para que seu caráter condicionante seja destacado.
-
Tudo se passa como se o eu nada devesse àquilo de que precisa para desdobrar sua imanência.
A zona de sombra do ser é vista como uma indeterminação ou um vazio suscetível de determinação progressiva após ser reduzida.-
Ela é uma zona de clarificação potencial, uma ideia reguladora que dá alimento à atividade fenomenológica de permanente recensão.
Para Husserl, o desconhecido tem sempre a forma estrutural do conhecido, a forma de objeto.-
Heidegger opõe a isso a ideia de que o ser não é o “apêndice” admitido como um simples meio de fortuna ou uma ferramenta.
Tudo é regido pela estrutura imposta por uma intencionalidade que exige a presença de correlatos intencionais.-
Uma zona de desconhecido é apenas um intentum de direito e uma ocasião para a fenomenologia se pôr ao trabalho, evitando a questão do sentido da presença de uma consciência fenomenalizante.
O ente só tem sentido por sua determinabilidade, por sua possível submissão à reativação de seu teor intencional.-
A fenomenologia se atribui apenas um papel prático de inventário teórico das múltiplas formas de presença da consciência aos objetos.
A subjetividade husserliana se dá à embriaguez de uma sempre possível perspectiva de preenchimento e extensão do teor de sentido de sua única imanência existente.-
Todo desconhecido, em vez de fazer nascer a consciência de que ela participa de um elemento que lhe é estruturalmente outro, é reduzido à forma de objeto para uma consciência.
A consciência é a única realidade que só precisa de si mesma para existir, pois “a consciência nasce da consciência”.-
O fato de ter que ser preenchida pertence à essência da subjetividade.
O conceito de preenchimento, constantemente usado por Husserl, atesta que o sujeito é compreendido como um continente.-
Isso implica, queira-se ou não, o antigo modelo da res (substância).
-
Apesar das intenções de Husserl, sua própria terminologia o trai, e a subjetividade retorna ao estatuto de substância.
A ek-staticidade do si é incontestável, pois é ela que permite o recuo da reflexividade que torna possível a fenomenologia como empresa de redução.-
É ela que permite o recuo do olhar que vê para além do visível, dado que ele questiona.
O coração do olhar para as coisas multiformes é ele mesmo tingido de invisível.-
Esta primordial acessão do si ao obscuro como tal é constantemente relegada a segundo plano pela tradição cartesiano-platônica de que Husserl é herdeiro.
Não há, em Husserl, escolha verdadeiramente possível quanto ao estatuto da transcendência ou de qualquer zona de não-luminosidade.-
Ou a transcendência faz parte da visada de sentido da consciência imanente, e toda obscuridade se reduz a uma luminosidade posta primeiro.
-
Ou se entra na redução, onde toda obscuridade é igualmente regida por uma instância de luminosidade.
Heidegger nos remete a uma outra espécie de evidência: a do mistério remanescente da ipseidade que se confronta com o abismo de sua presença.-
Um simples “por quê?” abala a noção de subjetividade transcendental em dois níveis.
-
Primeiro, porque a presença não basta para fundar e atrai o pensamento para o abismo de seu ser-aí.
-
Segundo, porque toda questão sobre a subjetividade atesta uma instância de questionamento dentro dela mesma, revelando sua não-monoliticidade.
A vida do ego possui características estruturais que lhe impedem de se propor como único absoluto.-
A possibilidade da relação problemática com seu próprio ser e com sua própria impossibilidade (na consciência da morte) é constitutiva da vida intencional da ipseidade.
-
Ignorar seu alcance é uma fuga.
É apenas a partir da visão do que ele não é, do acesso ao que lhe é totalmente outro, que o ego pode tomar consciência de si mesmo.-
É no contato com o que lhe é obscuro que ele faz surgir sobre si uma luz.
-
A experiência da morte como possibilidade da impossibilidade torna a vida do si visível a si mesma; o si não é fonte de sua própria luz.
O desprendimento da luz provém de uma acessão primeira ao totalmente outro que a claridade.-
É na proximidade do obscuro que uma bolsa de luz aparece a si mesma.
-
Nestas condições, o visível não pode aparecer como primeiro, nem a pura visão como condicionante.
A pura visão continua a ser erigida em princípio por uma filosofia esquecida do ser.-
A fenomenologia husserliana se apresenta como um retorno radical a uma luminosidade pressuposta como originária.
-
A própria radicalidade desse retorno atesta a violência com que a obscuridade do mistério foi pressentida sem ser assumida pensativamente.
A característica do gesto de pensamento husserliano é a colocação em presença de todo objeto transcendente pela anulação do olhar para o que não pertence a um domínio de luminosidade pré-determinado.-
A fenomenologia é uma empresa de recolocação do mundo em uma zona de clara visão.
A famosa “ruptura” das Investigações Lógicas corresponde à instituição do “domínio da intuição geral ou universal”.-
Isso não deve dissimular uma vontade de estabelecer todo mundo em uma colocação em presença da objetividade transcendente no interior da intuição.
-
É a vontade de se apoderar pelo pensamento da totalidade do ente tomado em vista.
Se a intuição categorial não é pensada em função do excedente que revela, ela é apenas uma tentativa de situar todo objeto categorial na visão.-
O objetivo é chegar a um ego puro cuja estrutura seja suficientemente eficaz para reduzir a totalidade do ente ao visível e apoderar-se dele.
A colocação em presença possibilitada pela evidência intuitiva desdobrada pelo ego torna-se universal.-
A intuição do universal torna-se intuição universal à qual todo fenômeno deve ser medido.
-
A universalização da doação intuitiva reduz o ente a só ser quando é o puro visível.
Tudo é visível ou deve ser reduzido ao visível; o mundo da invisibilidade é uma dimensão do visível ou é considerado sem resultados satisfatórios.-
Um vivido afetivo, por não se dar por esboço, é tomado como um absoluto.
A fenomenologia husserliana é uma tentativa de tornar (ao) visível todo objeto da consciência, todo ato de consciência e toda região do mundo.-
Trata-se de um desvelamento total na certeza absoluta, e não de uma tomada em guarda do ser do qual depende o desdobramento da consciência.
-
Por esses motivos, Heidegger não pode subscrever ao projeto husserliano.
estudos/caron/limitacao-visivel-peos-253.txt · Last modified: by mccastro
-
