IDEM E IPSE (2005:72-74)
PEOS
Quando dizemos “eu”, estamos nos referindo a um subjectum, um ser exposto em toda a sua visibilidade e que se presta às apreensões da mente. Mas quando dizemos “o eu”, estamos dizendo eu = eu, totalidade complexa, distância de si para si em si, dimensão de temporalidade, tensão e movimento no seio de um domínio de extensão. A identidade desdobrada pelo eu é, portanto, mais complexa do que a simples coincidência ontológica com o eu de todo ser tomado em si mesmo. Vimos que “eu” pode ser dito, de forma ambígua, a respeito de tal ou tal ser determinado como tal ou tal indeterminação. Essa ambiguidade também é apontada por P. Ricœur, que lhe confere um domínio único no qual se distinguem dois modos de identidade: a identidade no sentido de idem e a identidade no sentido de ipse. O eu pode ser entendido como um idem ou como um ipse, como aplicado a um ser determinado subsistente ou como aplicado a um domínio de indeterminação ôntica. A identidade no sentido de idem é aquilo “cuja permanência no tempo constitui o grau mais elevado, ao qual se opõe o diferente, no sentido de mutável, variável”. Essa identidade é a tradicional substancialidade ou, como diz Heidegger, a jacência-no-fundo de todo ser, que lhe dá o ser tal e não outro e o preserva da mudança por um tempo que é o tempo de sua vida. Esse idem constitui a integridade física de todo ser do mundo; é o relato de um presente que se mantém, se conserva e dura no aberto durante um tempo. Essa identidade do idem é a modalidade do ser que nos diz respeito diariamente, se oferece ao nosso olhar e também a única que costumamos levar em conta.
“A ideia de ser em geral é, portanto, explicada por meio do inesse como idem esse. O que faz de um ser (ens) um ser é a “identidade”, a unidade exatamente compreendida que, como simples, unifica desde o início e, ao mesmo tempo, por essa unificação, individualiza. Operando a individualização na simplicidade e desde o início, antecipando, portanto, essa unificação que constitui a essência do ser como tal, é ela, além disso, que forma o ser essencial da “subjetividade” do sujeito, do subjectum (a substancialidade da substância) A identidade do idem permanece suficiente para que possamos encontrar nossos marcos na realidade intramundana, ela permite ao homem habitar entre os seres, no meio desses mesmos seres dos quais ele faz seus objetos, e que não cessam de se impor à sua vista (sem que a globalidade desse processo venha, no entanto, à mente).
Se o ser substancial que se encontra no mundo é alcançado segundo o idem, a verdadeira e total essência do homem, ao contrário, desenvolve-se segundo o ipse. Ipse e idem são os dois pólos constitutivos da ambiguidade da identidade. Por um lado, subsiste uma diferença fundamental entre o que é simples coincidência consigo mesmo e o que em si mesmo é relação de si mesmo consigo mesmo, mas, por outro lado, o idem só pode ser compreendido com base no ipse que o torna possível, enquanto o inverso é impossível. Pois é bem a mesma identidade que se expressa a cada vez, mas apenas em diferentes graus de profundidade. Se o idem é a identidade do presente como presente, a duração subjacente a toda mudança, a determinação desse idem é uma determinação temporal (o presente) e, portanto, está imediatamente ligada à temporalidade mais ampla do ipse (desdobrada, mesmo que apenas no intervalo do eu ao eu no eu = eu), da qual ela é apenas uma figura apaziguada e diminuída: a manifestação manifesta algo, o presente é presenteado.
Assim, podemos anunciar de forma programática e com Paul Ricœur: “Nossa tese constante será que a identidade no sentido de ipse não implica nenhuma afirmação sobre um suposto núcleo imutável da personalidade. E isso mesmo que a ipseidade traga modalidades próprias de identidade”. O objetivo da nossa meditação é, portanto, estabelecer um pensamento sobre a essência do eu (que não seguirá, precisemos, o itinerário de Paul Ricœur, ao qual recorremos apenas pelas intuições problemáticas – e não pelas respostas originais), a fim de compreender como o eu, ao desdobrar o seu ser, desenvolve ao mesmo tempo um novo tipo de identidade (ipse), que não seria a de nenhum objeto, mas que permitiria abrir algo como a identidade ôntica (idem) de um objeto. Pelo menos é certo que o polo de um gênero totalmente singular, que carrega essa ipseidade, não poderá ser pensado como um sujeito, sendo esse termo entendido em seu significado tradicional, ou seja, como privilégio cognitivo de primeiro acesso a si mesmo. O problema consiste, portanto, em determinar o elemento que faz do ipse um ipse gerador de idem, em determinar a estrutura fundamental, fundadora e essencial da ipseidade para que o eu possa ser o eu que é.
