Espacialidade da existência
BOLLNOW, Otto Friedrich. Human space. Christine Shuttleworth. London: Hyphen, 2011.
Embora tenhamos nos recusado a considerar o espaço vivido — no sentido de mera experiência do espaço — como algo meramente psicológico, ele, por outro lado, não é um objeto separado do sujeito. Como temos enfatizado desde o início, trata-se da relação entre o ser humano e seu espaço e, portanto, também da estrutura da própria existência humana, na medida em que esta é determinada por sua relação com o espaço. É nesse sentido que falamos da espacialidade da existência humana. Esse termo não implica que a vida — ou a existência humana (Dasein) — seja, em si mesma, algo espacialmente estendido, mas que ela só é o que é em referência a um espaço, que precisa do espaço para se desenvolver dentro dele.
É nesse sentido que Heidegger, em Ser e tempo, elaborou de forma muito clara a questão da espacialidade da existência humana, mesmo que não tenha podido desenvolvê-la com mais detalhes no contexto geral daquela obra. Assim como, segundo ele, é preciso distinguir entre a temporalidade como forma estrutural da existência humana e o tempo como processo objetivo, também devemos distinguir entre o espaço — seja ele o espaço vivenciado ou o espaço matemático, o que é irrelevante para esta questão — e a espacialidade. A espacialidade é uma definição da essência da existência humana. Esse é o significado da afirmação de Heidegger: “O sujeito (Dasein), se bem compreendido ontologicamente, é espacial.” O fato de ser espacial não significa, portanto, que o ser humano ocupe um determinado espaço com seu corpo, da mesma forma que qualquer outra massa, e que, ocasionalmente — como o proverbial camelo no buraco da agulha —, seja impedido de passar por aberturas muito estreitas. Significa que o ser humano está sempre e necessariamente condicionado, em sua vida, por seu comportamento em relação ao espaço circundante.
É isso também que Minkowski tem em mente quando enfatiza: “A vida se expande no espaço sem ter uma extensão geométrica no sentido próprio da palavra. Precisamos de expansão, de perspectiva, para viver. O espaço é tão indispensável quanto o tempo para o desenvolvimento da vida.”
Ao mesmo tempo, ainda estamos nos expressando de forma descuidada se dissermos que a vida ocorre “no espaço”. Os seres humanos não estão presentes no espaço como um objeto, digamos, está presente em uma caixa, e não se relacionam com o espaço como se, em primeiro lugar, pudesse existir algo como um sujeito sem espaço. Pelo contrário, a vida consiste originalmente nessa relação com o espaço e, portanto, não pode ser separada dele, nem mesmo no pensamento. Trata-se basicamente da mesma problemática do “ser-em” que Heidegger desenvolve com referência ao “ser-no-mundo”, quando enfatiza: “O ser-em, por outro lado, é um estado do Ser do Dasein; é um existencial. Portanto, não se pode pensar nele como o Ser-presente-à-mão de alguma Coisa corpórea (como um corpo humano) “em” uma entidade que está presente-à-mão… O Ser-em-si é, assim, a expressão existencial formal do Ser do Dasein, que tem o Ser-no-mundo como sua estrutura existencial.”
