DAR-SE – ES GIBT (2001)
BENOIST, Jocelyn. L’Idée de phénoménologie. Paris: Beauchesne, 2001
O que considero interessante na noção de “dado”, tal como é comumente utilizada pelas duas grandes tradições filosóficas do nosso século, é o fato de estar imediatamente aberta à crítica e ao criticismo. Atualmente, está sob ataques violentos, que não são, evidentemente, inteiramente novas. Este é, desde o início, um dos pontos, senão o ponto, criticado na fenomenologia, que, enquanto modo de pensar o “dado”, é suspeita de uma certa forma de intuicionismo ingênuo, ou de dogmatismo. Por outro lado, é também o ponto em que, na tradição analítica, uma certa crítica de inspiração wittgensteiniana se volta internamente contra o positivismo lógico. A tese do “dado” parece conduzir a um absurdo que pode ser resumido simplesmente: se há um dado, ele tem de ser dado; no entanto, parece absolutamente impossível apresentá-lo, “dá-lo” a si próprio como um “puro dado”. O próprio “dado” nunca é dado. É sempre já dito, formado, constituído, organizado, dependendo de falarmos a linguagem do idealismo transcendental clássico ou aquela forma subtil de idealismo linguístico que poderia muito bem ser uma certa versão da filosofia analítica.
* A noção de dado, empregada pelas duas grandes tradições filosóficas do século XX, é imediatamente criticável e efetivamente criticada, sofrendo ataques contemporâneos não inteiramente novos, sendo um dos pontos, senão o principal, imputado à fenomenologia como pensamento do dado, suspeita de intuicionismo ingênuo ou dogmatismo, e também o ponto a partir do qual, na tradição analítica, uma crítica de inspiração wittgensteiniana se volta internamente contra o positivismo lógico, pois a tese do dado desemboca na absurdidade de que o dado nunca é dado em si mesmo, mas sempre já dito, formado, constituído, organizado, quer na linguagem do idealismo transcendental clássico, quer na do idealismo linguístico de certa versão da filosofia analítica.
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A noção de dado é atacada contemporaneamente por autores como J. McDowell e J. Bouveresse.
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A fenomenologia, como pensamento do dado, é suspeita de intuicionismo ingênuo ou dogmatismo.
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Na tradição analítica, a crítica wittgensteiniana dirige-se internamente ao positivismo lógico por meio da noção de dado.
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O dado, se existe, deveria ser dado, mas é impossível apresentá-lo como puro dado.
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O dado nunca é dado; é sempre já dito, formado, constituído, organizado.
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Essa constituição é descrita tanto na linguagem do idealismo transcendental clássico quanto na do idealismo linguístico da filosofia analítica.
* O que deve ser conservado do empirismo e da fenomenologia, ambos colocados sob o signo da imanência radical na qual tudo é dado, imanência cuja descoberta em Hume é saudada por Husserl, é precisamente a ideia de dado, que constitui o principal interesse dessas filosofias e o legado que podem oferecer a uma filosofia pós-metafísica almejada por muitos pensadores contemporâneos.
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Empirismo e fenomenologia compartilham a imanência radical pela qual tudo é dado.
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Husserl reconhece em Hume a descoberta dessa imanência.
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A ideia de dado é o principal interesse dessas filosofias.
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Essa ideia é o legado para uma filosofia pós-metafísica.
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Muitos pensadores contemporâneos aspiram, de forma divergente, a essa filosofia pós-metafísica.
* Além do slogan, é necessário analisar em que sentido há dado, o que ele é, como se fala dele e qual o interesse em conservar essa noção, o que exige uma análise de suas diferentes dimensões e de sua utilidade perspectivista, e a tese defendida é que a noção de dado mobiliza toda uma série de pressupostos radicais indispensáveis, que só podem ser descobertos por seu fio condutor e que vão muito além do miserável dado coisificado atribuído aos empiristas e incessantemente atacado pelos idealistas, pois o exame aprofundado do dado revela que ele não pode ser coisificado e, assim, perturba as categorias fáceis do idealismo.
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A noção de dado exige análise de suas dimensões e de sua utilidade perspectivista.
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A tese sustenta que o dado mobiliza pressupostos radicais indispensáveis.
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Esses pressupostos só podem ser descobertos pelo fio condutor da noção de dado.
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O dado coisificado atribuído aos empiristas é um alvo fácil e secular dos idealistas.
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Examinado até o fim, o dado revela-se o que não pode ser coisificado.
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Essa impossibilidade de coisificação perturba as categorias fáceis do idealismo.
* A primeira representação associada à ideia de dado é a representação hilomórfica, na qual o dado é concebido como matéria, material destinado a uma fabricação ulterior, como madeira para a construção de um navio ou de um acampamento, material que está aí primeiramente, dado, e que aguarda a forma que o justificará como dado, paradigma da fabricação que governa a ontologia herdada dos gregos e que, no âmbito da percepção, implica núcleos sensíveis informados posteriormente por atividade judicativa.
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O dado é concebido como matéria, material para fabricação.
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A matéria aguarda a forma e está sob sua lei.
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A forma justifica o dado ser dado, pois ele é dado para ela.
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Na teoria da percepção, há núcleos sensíveis (sensações ou sense-data) informados por atividade judicativa.
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A percepção torna-se uma espécie de fabricação.
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O paradigma da fabricação (fazer algo de algo) governa a ontologia herdada dos gregos.
* Outro constituinte familiar da ideia de dado é a ideia de presença, fortemente sublinhada por Hume na oposição entre impressão e ideia, o que vincula o dado à chamada metafísica da presença, pois o dado só tem sentido em relação ao não-dado, e o par presença/ausência constitui um eixo fundamental da noção, donde os inúmeros apelos ao retorno ao dado por parte do empirismo e da fenomenologia, sempre contra aqueles que se consideram afastados do dado, que falam do que não pode ser dado ou de coisas mal dadas, fazendo do dado o schibboleth que autoriza ou não o discurso.
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Hume opõe impressão (dada) à ideia (não dada).
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O dado está ligado à metafísica da presença.
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O dado só se define por oposição ao não-dado.
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O par presença/ausência é um eixo fundamental da noção de dado.
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O empirismo e a fenomenologia proclamam o retorno ao dado.
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O retorno ao dado é sempre contra os que não se atêm a ele.
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Os que não falam do dado fazem metafísica (no sentido kantiano) ou falam de coisas mal dadas.
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O dado é o schibboleth que autoriza ou não o discurso.
* A última estrutura notável ligada à noção de dado é o chamado mito da interioridade, ao qual corresponde simetricamente um mito da exterioridade, pois ambas as teses repousam sobre a mesma representação de um interior e um exterior e do evento como passagem de um meio a outro, ideia na base do conceito de receptividade, que supõe uma instância que recebe, o sujeito, e concebe a doação como passagem do exterior ao interior, gerando paradoxos como o da concepção kantiana da receptividade em relação às próprias representações, uma vez que, uma vez postulada a interioridade, não se compreende como o exterior nela surge, embora a exterioridade só faça sentido a partir dessa interioridade.
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O mito da interioridade e o mito da exterioridade são simétricos.
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Ambos pressupõem a distinção entre interior e exterior.
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A ocorrência de algo é concebida como passagem de um meio a outro.
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A receptividade está imediatamente ligada à noção de dado.
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A doação supõe um sujeito que recebe e a passagem do exterior ao interior.
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A concepção kantiana da receptividade às próprias representações é aporética.
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As representações são por construção interiores, mas devem ser recebidas.
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Uma vez postulada a interioridade, não se compreende o surgimento do exterior.
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A exterioridade do dado só tem sentido a partir da interioridade postulada.
* Essas três determinações — estrutura hilomórfica, metafísica da presença e mito da interioridade — evidenciam o caráter central da noção de dado no dispositivo da metafísica tradicional, cristalizando três teses estratégicas: o dado oferece o material sempre pronto à estrutura hilomórfica; o dado fornece a garantia, o padrão-ouro da verdade abrigada dos acasos do valor cego da circulação signitiva à metafísica da presença; o dado empresta o suplemento necessário para pensar a saída de si de uma interioridade por isso mesmo confirmada ao mito da interioridade.
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A estrutura hilomórfica tem no dado seu material sempre pronto.
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A metafísica da presença tem no dado a garantia da verdade, padrão-ouro imune à circulação signitiva.
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O mito da interioridade tem no dado o suplemento para pensar a saída de si, confirmando a interioridade.
