4 O retorno ao Ser
BEAINI, Thais Curi. Máscaras do Tempo. Petrópolis: Vozes, 1995.
O retorno ao Ser enquanto origem originária
1. O objetivo desta reflexão consiste em traçar a circunscrição do Ser, que desabrochou de modo peculiar no pensar pré-socrático: na postura de colocar-se diante da realidade, ouvindo-a, contemplando-a, descobrindo-a.
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O contato com o âmbito do que se des-cerra e dá-se a ver pela primeira vez; a penetração na origem e o toque que alcança a Physis, enquanto pureza, terá como fio condutor a relação fundamental que Martin Heidegger estabeleceu com a aurora da meditação.
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Recuperar a força misteriosa do dizer pré-socrático requer a superação das dicotomias posteriores a ele, nas quais se embasa todo o filosofar do Ocidente, como também a interrogação do que se erige como certeza ou pré-conceito, para embrenhar-se, então, no caminho, do que convoca, ainda hoje, de forma premente, o pensar.
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Abrir-se à Natureza, visando à penetração do Mundo enquanto sintonia, refletir-intuindo, rompendo o círculo de atitudes apressadas que se consolidam em hábitos, é a isto que a Fenomenologia convoca, enquanto proposta de vida e de pensar.
A. Os Pré-Socráticos: a Physis
1. Olhar o Mundo poeticamente: esta é a vocação que nos impulsiona ao cerne do mistério, do oculto, do primordial.
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Captar, sem interferir, o ritmo cósmico e respeitar o nosso próprio ritmo, o movimento individual no qual se erige o estar e passar pelo Mundo, a pertença à temporalidade no seio da qual compete a cada um fazer de si uma obra de arte.
2. O que diz então a palavra Physis? Evoca o que sai ou brota de dentro de si mesmo (por exemplo, o brotar de uma rosa), o desabrochar, que se abre, o que nesse despregar-se se manifesta e nele se retém e permanece; em síntese, o vigor dominante (Walten) daquilo que brota e permanece.
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Os gregos não experimentaram o que seja a physis nos fenômenos naturais. Muito pelo contrário: por força de uma experiência fundamental do Ser, facultada pela poesia e pelo pensamento, se lhes des-velou o que haviam de chamar physis.
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Somente em razão desse des-velamento puderam então ter olhos para a natureza em sentido estrito.
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Physis significa o vigor reinante, que brota, e o perdurar, regido e impregnado por ele. Nesse vigor, que no desabrochar se conserva, se acham incluídos tanto o “vir-a-ser” como o “ser”, entendido esse último no sentido restrito de permanência estática.
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Physis é o surgir (Ent-stehen), o extrair-se a si mesmo do escondido e assim conservar-se.
3. Para Anaximandro, o apéiron, o ilimitado é arkhé: o uno do qual, ciclicamente, no seio do devir, originam-se os entes diferentes, a multiplicidade.
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O Ser enviou-se a Anaximandro, um grego, e deu-se a pensar, o ser circunscrito como “Tô Khreón”.
4. Tô Khreón é então o pôr nas mãos a presença, que significa entregar a presença àquilo que se presenta, mantendo assim o que se presenta como tal justamente nas mãos, isto é, guardando-a na presença.
5. O Ser, preservado enquanto tal, e desdobrado enquanto ser-do-ente, refere-se diretamente, segundo Heidegger, à presença, a qual nos remete também à ausência.
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Pre-s-entar ou pre-s-enti-ficar significa: emergir do seio da A-létheia, da Verdade que outorga a cada ente o dom de seu surgir, de iluminar-se enquanto manifestação temporária, inclinada a retornar à ocultação, ao velamento do qual é oriunda.
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É nesta modalidade que cada ente se desdobra enquanto indivíduo.
6. Convém que se retorne ao enigma mítico da transição do Caos ao Cosmos, da passagem do que é, enquanto abertura plena, o escancarado, o abismo sem fronteiras, que vem-a-ser Cosmos: delimitação, ordem.
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O Cosmos, o Mundo, é o âmbito do Ser em abertura e fechamento, que implica a possibilidade do Dasein situar-se em meio aos entes, ter acesso ao horizonte do sentido.
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Dar à luz, des-velar, é o mostrar-se que propicia a penetração no que se ex-põe, a sua compreensibilidade e re-criação no âmbito da Linguagem e da Arte.
7. O Ser é o arkhé: o brotar, sair do obscurecimento rumo à luminosidade, o tornar-se.
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A Physis é, por excelência, arkhé e Heidegger a interpreta como sinônimo do Ser: o que foi, é e será.
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O Ser enquanto Physis remonta à retirada do Caos, da ausência, à concessão da presença na qual sempre está implícito um retorno ao ocultamento.
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A Physis concede limite e medida aos entes que nela são, enquanto princípio de individuação.
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Enquanto origem, acena à proveniência essencial de algo, à sua eclosão, ao Ser que se desdobra num ente específico.
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A Physis é gênese, embrião: o que permanece e subjaz como uno na totalidade, remontando também ao que desaparece.
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A Physis enquanto gênesis retrata o processo mesmo de velamento-des-velador, a volta ao oculto do que está manifesto.
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Na passagem do oculto ao manifesto está contido o limite de cada ente, sua medida proveniente da pre-sentificação do Ser.
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É ao Ser enquanto “mantença” que compete a ordem do Cosmos, a harmonia, o “acordo” requerido pelas potências e pelo equilíbrio do real.
8. Segundo a mantença; deixam pois ter lugar o acordo e assim também o cuidado, um para o outro (no penetrar e assumir do des-acordo).
9. Refletindo acerca do frg. 1 de Anaximandro, Heidegger estabelece um paralelo entre Dike, Justiça, equilíbrio e Tô Khreón, o Ser que, em seu des-velar-se, outorga a harmonia, a juntura (união) entre oculto e manifesto.
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Neste contexto, a A-dikia, Injustiça, designa o des-equilíbrio individual ou cosmológico, daquilo que está “fora dos eixos”.
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Des-centrando-se, o ente se subtrai (é extraído) de seu movimento próprio e, des-articulado, escapa de seu ser.
10. Dike, pensando a partir do ser como presença, é o acordo que articula e harmoniza. Adikia, a desarticulação, é o desacordo.
11. O Ser, enquanto Justiça, acordo, preserva os limites do ente e da totalidade, questão que será muito enfatizada por Heráclito, permitindo que cada um seja propriamente o que é.
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A não-transgressão da medida específica significa preservar a essência sem invadir o domínio concernente aos outros entes.
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É a organização de uma Physis oposta ao Caos.
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Contudo, Heidegger se refere, na tradução do frg. 1 de Anaximandro, à mantença, como aquilo que concede os limites do real, estabelecendo-os.
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Ela é concernente ao Ser, enquanto Justiça preservadora da unidade fundamental daquilo que se individualiza, desdobrando, concomitantemente, a distância entre seus elos.
12. A mantença (Brauch) entrega as coisas que se apresentam em sua presença, isto é, na demora.
13. Aquilo que se apresenta presentifica-se segundo a mantença. O Khréon é uma interpretação daquilo que os gregos experimentam sob o nome de Moira como o dispensar a parte que a cada um toca. Tô Khréon esconde em si a essência inexplorada do recolhimento que ilumina e protege. A mantença é o recolhimento: ho logos. A partir da essência pensada do logos determina-se a manifestação do ser enquanto uno unificante: Hên. O mesmo Hên pensa Parmênides. Ele pensa a unidade do que unifica expressamente como Moira (fragmento 8, 37).
14. A mantença remeteu-nos à ligação, do que se fixa e comunica, contida no Logos que, por sua vez, refere-se à Moira, à divindade lunar do Destino que rege os entes em sua claridade e obscuridade, e esta trilogia nos conduz ao Ser, pensado primordialmente, no tocante ao âmbito da indissolúvel pertença entre velamento e des-velamento: Verdade.
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A eclosão, significando sair de si, liberação, implica também a retirada, obedecendo assim à determinante da Justiça e do Destino.
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Neles se trava um combate entre o que é confiado à intimidade com os mortais, na liberdade do surgir, como também à necessidade fundamental de seu ausentar-se que, poupando a familiaridade humana, instaura o fundamento indissoluto do Mundo.
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Cada ente, em sua sucessão, contém as condições mesmas do que lhe é propício: do momento determinado, que ocasiona sua luminosidade, seu clareamento, sem retardar-se nele.
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Isto porque adiar-se no des-velado significa ir além de seu tempo devido, retendo a eclosão de outros entes.
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A retenção é uma característica própria do Ser que, cuidando dos entes, os conserva enquanto presentes-ausentes.
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Se aos entes fosse conferido apenas o des-acordo, a circularidade cósmica romper-se-ia, o movimento do real crisparia em sua estaticidade, o mistério dissolver-se-ia.
15. Concluindo, pode-se dizer que do apéiron divino, enquanto ilimitado, instaura-se a multiplicidade dos entes, cada qual contendo em si sua própria restrição.
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O ilimitado, pertencente a tudo o que foi, é e será, designa o princípio de inteligibilidade do real.
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Em outras palavras, poderíamos dizer que a gênese do real, isto é, a união fundamental entre Água e Terra, que introduz o Tempo, é também o local de sua dissipação, da Morte enquanto retorno ao pré-formal.
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Cada ente contém em si uma unidade, enquanto identidade, como também se instaura como diferença, no seio da multiplicidade.
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O movimento eterno do real implica os ciclos de separação do Caos e do retorno a ele, como também a separação dos contrários.
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Este movimento é necessário, devido ao ser-cíclico da Physis, ao seu ritmo e medida, regido pela Lua.
16. A Physis é composta por entes diferentes entre si, mas todos possuem em seu ser a necessidade de manter-se tal qual são.
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Pertencentes à temporalidade, carecem de um período próprio que assinala o embrião de sua plenitude.
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Por exemplo, a Árvore, proveniente da união entre Terra e Água, medida pela Lua, contém em seu ser a medida mesma para o desenvolvimento da semente, da qual é oriunda.
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Crescendo, prepara-se, cuidadosamente, para dar os seus frutos, gestados após um período de longa preparação (o seu tempo).
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O fruto que desabrocha requer um prazo para o seu amadurecimento. Colhido antes dele, não pode ser saboreado e, após o seu momento, apodrece.
17. Por outro lado, há um equilíbrio na Physis que permite, a cada ente diferente, ter nela o seu lugar próprio.
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Se esta harmonia fosse alterada, as árvores não dariam seus frutos, Dia e Noite se interporiam, a seca assolaria o solo queimado e não fecundo, ou a chuva o encharcaria.
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Assim, é fundamental que o ciclo da Physis se imponha, que a medida dos entes prevaleça, para que haja o intercâmbio dos vários elementos entre si.
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O pássaro, em seu vôo, pousa na flor que o atrai e requer, para que seu grão colhido seja conduzido a um determinado local, fonte de possibilidade de seu surgir, na Primavera.
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Como as estações do ano, cada ente possui uma lei interna que o comanda e rege, permitindo também ao Dasein o seu situar-se em meio ao real, a compreensão e expressão daquilo que se dá a ver, berço da Memória.
18. A Manhã da história do Ser, iniciada com Anaximandro, expressa a essencialidade do arraigar-se humano a um Ser que, em seu recusar-se-outorgador, será preservada no Logos, no qual surge em sua unidade primordial, pelo dizer de Heráclito.
19. Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo.
20. A lei de inserção dos entes no devir retrata também sua permanência: o destinar-se de uma medida de equilíbrio não transgredida no perpétuo fluir, a ordem reguladora dos contrários regida pelo impulso aguardado pelo surgir, enquanto passagem à não-latência.
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Este pensamento é o Logos dirigente, princípio de inteligibilidade do Cosmos que, enquanto reino de pertença e participação do todo em tudo, identifica-se com o “relâmpago”, o “Fogo”, o “Sol”, enquanto neles se desdobra, designando nesta tríade o império do que, fulgurando, ilumina Noite e Dia.
21. O relâmpago, movimento das nuvens, das quais é oriundo o som, e o Fogo, símbolo do fluxo, do devir, quando de seu brilhar, delineia a especificidade dos entes que clareiam, no ato des-velador, acenando também à totalidade que paira na sombra de seu imperar.
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Convém, pois, que se deixe o frg. 30 falar de si mesmo.
22. Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida.
23. Heráclito refere-se aqui à gênese, brotar daquilo que vem-à-luz, movimento de passagem ao manifesto: impulso de um lançar-se para fora de si.
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O momento do des-velar-se não retrata apenas o ciclo natural de um ente, sua inserção no Tempo, mas nele uma nova luz se anuncia.
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O relâmpago, enquanto brilho intenso e fugaz em sua duração, é o exemplo mais forte do des-velamento do Ser.
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Ele e o Fogo, pertencentes à Noite, designam também a Quaternidade contida nos elementos úmidos (Água e Terra) que, iluminados, fulguram no prazo de uma duração temporal.
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Fogo e relâmpago, enquanto oscilam no movimento, espelham a não-fixidez, mas enquanto designam o Logos que governa, simbolizam a permanência, o estabelecimento da medida concernente ao real, a disposição dos ritmos.
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Conduzem, governando, uma realidade erigida no combate onde medida e des-medida, acordo e des-acordo surgem, metaforicamente, como símbolos do Ser, referindo-se basicamente à Justiça.
24. O relâmpago, que conduz ao raio, representa Zeus, os fenômenos atmosféricos celestes, a Justiça, e a ordenação. Por isto, Heráclito escreve no frg. 32.
25. O um, o único sábio, não quer e todavia quer ser chamado pelo nome Zeus.
26. Zeus, que governa por sua soberania, pode ser comparado ao Logos, mas dele difere posto que, não sendo um deus-criador, faz parte da Physis, não podendo, portanto, ser comparado a ela.
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Physis, Logos e Ser designam o mesmo: o destino no qual se insere a totalidade do Cosmos, e nela, Zeus, ao governar que está acima das rivalidades ou disputas divinas, não transgride a dinâmica inerente ao Ser.
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O ontológico é enquanto instauração dos limites.
27. O Fogo, mais permanente que o raio, encontra uma luz diurna cuja duração e intensidade do surgir a tornam regente do calor, energia, colheitas, daquilo que vem-à-vida na Vida: o Sol.
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Estabelecendo as horas, a continuidade ou a sucessão entre Dia e Noite, o Sol-regente é também regido em sua permanência e no período do solstício, segundo a medida norteadora do real.
28. O Sol não ultrapassará os seus limites; se isto acontecer, as Erínias, auxiliares da Justiça, saberão descobri-lo.
29. O Ser, enquanto Logos, é a medida da qual surge a multiplicidade, o Uno que se diferencia na diversidade, a totalidade que se especifica.
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Esta fonte de manifestabilidade contém e necessita do Legein, isto é, da imbricação atenta do contemplar-compreensivo dos homens que, postados diante do des-velado, o captam e transmitem.
30. Légein é pousar-estender. Pousar-estender é o ato recolhido em si mesmo que deixa estendido diante aquilo que conjuntamente se apresenta.
31. Assim o Logos se desdobra em seu ser como o puro ato do pousar que recolhe e colhe. O Logos é o originário recolhimento da colheita primordial a partir do pousar primordial.
32. O Ser reúne os entes, abrigando-os, enquanto guarda em si o que se expõe e se retira.
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Mas isto é propiciado pelo momento oportuno da maturação, no qual a fruta ou a flor se desprendem do ramo, para ser apanhadas, tomadas em segurança pelas mãos que, sem apalpá-las, as deixam ser, intactamente, o que são.
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Colher e recolher, termos agrícolas que nos oferece a Terra-Mãe enquanto Physis: brotar, vir-à-luz do seio oculto do solo, as diferentes criaturas, celebradas pelo abrigo humano, ao qual alimentam e embelezam.
B. A verdade enquanto A-létheia
1. O pássaro, aparente à onticidade do cotidiano, no ruído de seu canto ou em seu voar, dos quais escapa o fato de que ele é, subitamente interrompe o seu vôo rumo à amplidão, para fixar-se no pouso do galho que o abriga.
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Recolhendo em si Ser e ente, ausência e presença, dá-se, envia-se enquanto pre-sentar, ao olhar contemplativo que compreende a sua totalidade, a unidade do processo de deixar o Caos para ser Cosmos, Mundo que des-cortina o aberto do Ser.
2. Pousar é o enviar-se do Ser que, recolhido em si, des-vela seu segredo àqueles que, dispostos a acolher o Sagrado, recolhem o dom do inesperado, do efêmero que, lançando-se no ar, prepara novos vôos, caminhos de pouso, repouso e movimento.
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Entrega significante, gratuidade do Mesmo, trilhas enveredadas no percurso do pensar, do Poema e da Arte: aragens aradas pelo Ser enquanto identidade e diferença, A-létheia, esplendor de um brilho que, vindo do oculto, se esconde no apagar-se.
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Novas luzes, vagalumes da Noite escura e silente.
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O pousar, diferente de um aleatório deter-se, traduz a resistência do ar, o processo preparatório de emergir-do-oculto, o combate que visa à manifestação que requer seu tempo próprio de eclodir, no seio do Tempo enquanto destino do Ser.
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O pousar inaugural institui o mistério do essencial, a medida que rege a vinculação do Dasein ao real, a harmonia da Physis enquanto acontecer a partir de si mesma, no reino do Aberto de sua clarificação, na qual os mortais são convidados a habitar.
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Travarão, assim, seu combate entre imanência e transcendência, busca que busca infinitamente o inominável, em seu apelo à circunscrição, que delimita o que escapa, que institui a proximidade daquilo que, constantemente, de múltiplas maneiras, se dá a dizer no nomear fecundante, fonte de manutenção do que é originário.
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Novos são os tempos, épocas da instauração de ausência e presença no reino humano da apreensão do Ser.
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Suavemente, a luta empreendida no Ser, tensão geradora de acordes musicais, arranca-se a si mesma, apartando-nos da pertença ao vácuo, do apego aos hábitos e valores que cerram aos olhos o surgir do manifesto, novo, diferente, irrepetível a cada momento de sua aparição.
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O Dasein só aprende quando se abandona à contemplação e participação do real, onde ele se irmana com os entes e, sem pressa, coloca-se diante da beleza e esplendor de uma Árvore-sendo.
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Nela se vislumbra a magnificência de tudo o que é, da totalidade.
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Tirar dos olhos o véu dos pré-conceitos e ensiná-los, repetida e incansavelmente, a olhar, na reciprocidade que impera entre o beija-flor e a flor.
3. Por desdobrar-se como Dia e Noite, estações do ano, a Physis, nomeada originalmente, mostrou-se para Heráclito, no frg. 50 na forma do “Um é Tudo”, que Heidegger assim comenta: “Hên Pânta 'Um (é) Tudo'. Tudo quer dizer aqui: Pânta tà ónta, a totalidade, o todo do ente. Hên, o Um, designa: o que é um, o único, o que tudo une. Únido é, entretanto, todo o ente no ser. O sophôn significa: todo ente é no ser. Dito mais precisamente: o ser é o ente. Nesta locução, o 'é' traz consigo uma carga transitiva e designa algo assim como 'recolhe'. O ser recolhe o ente pelo fato de que é o ente. O ser é o recolhimento, Logos”.
4. O Ser enquanto Logos é A-létheia, des-velamento-velador, âmbito que concede a cada ente sua medida e momento de presentificar-se, de ser o que é.
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O Ser recolhe o ente enquanto o salvaguarda, protege, cuida e mantém.
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Diferente do ente, mas formando com ele o núcleo do inaparente, nele se une.
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O Sagrado é o âmbito onde tudo se liga, remetendo ao simbólico, ao Ser que unifica a multiplicidade dos entes diversos (tudo) entre si, e os mantém.
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Ligar é vincular os entes, pelo fato de cada um ser e ter um ser, seu ser, atando o Dasein ek-sistente à totalidade dos entes.
5. A harmonia invisível é mais forte que a visível.
6. Compete ao falar humano escutar o Logos, recolher-se em seu recolhimento, dele recebendo a medida do que pode ser pronunciado, sem visar ultrapassar àquilo que, como limite, se delimita.
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Acolher o enviar-se do Ser significa pronunciar o que se dá no des-velamento: o essencial, nomeando-o.
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Esta é a tarefa do Légein, que se desdobra como sendo concomitantemente com o Logos: arraigado ao Ser e à sua mensagem.
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Um é Tudo significa: unidade na diferença, unidade na multiplicidade.
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Na mantença residem cuidado, acordo e des-acordo, a justa medida do combate entre velamento e des-velamento.
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O Ser, enquanto o que tudo unifica, é o que permanece no processo simples que comanda todo o devir e, sendo enquanto dá-se, é compreendido no silêncio de seu desdobrar-se que convoca pensadores, poetas e artistas para que, ao captá-lo em sua indizível inapariência, manifestam seu mistério.
7. É neste contexto que Heidegger nos lança a interrogação fundamental de Heráclito, no frg. 16: “Como pode alguém esconder-se diante daquilo que jamais tem ocaso?”
8. O Ser é a presença que jamais tem fim, que não se constitui como desaparecimento, posto que, enquanto um aspecto do ente se oculta, outro se manifesta.
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Por outro lado, a Physis é, enquanto processo de criação, de mostração contínua, de uma luminosidade à qual o Dasein, ek-sistente, está exposto.
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Se isto não acontecesse, ela seria impenetrável, insondável e incompreensível como o Caos.
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Mas em sua organização, na harmonia do seu processo de compleição, o equilíbrio requer o furtar-se, o ausentar-se.
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O ritmo do dar-se e recolher-se, do preparar-se para a colheita, implica a umidade do processo de velamento e des-velamento: o tempo próprio para algo surgir, a preparação da Terra para a semeadura, o cultivo e a maturidade do trigo que gera o pão.
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A Physis ou o Ser se desdobram enquanto possibilidade infinita de um des-velamento penetrável, mas inexaurível, onde o mistério se erige como fonte do que impera.
9. Concluindo, pode-se dizer que, para Anaximandro, o apéiron uno, gerando a multiplicidade, culmina no acordo: na manutenção do que é próprio à totalidade dos entes, sem que estes dele se desviem.
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Desta estabilidade provém a igualdade dos opostos que, compensando a des-medida, acena à contenção nos justos limites.
10. Heráclito mostra a mesma problemática, tendo como fio condutor o combate, por si mesmo ponto de convergência, para onde culmina a unificação.
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A multiplicidade acena à diferença do uno, do Mesmo, no âmbito do qual, velamento e des-velamento se dão como integrantes fundamentais do processo de vir-à-luz, aparecer e retornar ao oculto.
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É o ciclo do enviar-se do Ser enquanto destino, acolhido somente pelos homens atentos ao incomum, que fazendo parte do cotidiano, enquanto dado necessário, nele não se enclausuram, mas visam à transcendência rumo ao Logos, que sua linguagem acolhedora mantém e preserva na pronúncia.
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São os guardiões da mensagem do Ser, que afastam o essencial do esquecimento, em sua atitude de vigília, enquanto os outros, dormindo, deixam-no escapar, morrem.
11. Um é Tudo significa: velamento e des-velamento como integrantes do Ser que se desdobra como A-létheia, harmonia que persiste na imperecibilidade do ouro no qual reluz o belo brilho do Ser, que fulgura enquanto serenidade e doçura, Fogo clareador de um relâmpago noturno e solar, círculo ao qual converge tudo o que é.
12. Deslocando a questão da unidade e da multiplicidade para a relação entre Ser e Pensar, Parmênides postula uma Verdade única, oposta tanto ao Não-Ser quanto à multiplicidade dos sentidos.
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O Ser, experimentado originariamente como A-létheia, designa, assim, o Uno, aquilo que é, e, sendo, opõe-se ao movimento do que foi e será, em seu eterno tornar-se presente.
13. Os cavalos que me conduzem levaram-me tão longe quanto meu coração poderia desejar, pois as deusas guiaram-me, através de todas as cidades, pelo caminho famoso que conduz o homem que sabe. Por este caminho fui levado; por ele me conduziam os prudentes cavalos que puxavam meu carro, e as moças indicavam o caminho. O eixo, incandescendo-se na massa, pois em ambos os lados era movido pelas rodas girantes, emitia sons estridentes de flauta, quando as filhas do sol, abandonando as moradas da noite, corriam à luz, rejeitando com as mãos os véus que lhes cobriam as cabeças. Lá estão as portas que se abrem sobre os caminhos da noite e do dia, entre a verga, ao alto, e embaixo, uma soleira de pedra. As portas mesmas, as estéreas, são de grandes batentes; a Justiça, deusa dos muitos rigores, detém as chaves de duplo uso. A ela falavam com doces palavras as moças, persuadindo-a habilmente a abrir-lhes os ferrolhos trancados. As portas abriram largamente, girando em sentido oposto os seus batentes guarnecidos de bronze, ajustados em cavilhas e chavetas; e através das portas, sobre o grande caminho, as moças guiavam o carro e o cavalo. A deusa acolheu-me afável, tomou-me a direita em sua mão e dirigiu-me a palavra nestes termos: Oh! jovem, a ti, acompanhado por aurigas imortais, a ti, conduzido por estes cavalos à nossa morada, eu saúdo. Não foi um mau destino que te colocou sobre este caminho (longe das sendas mortais), mas a justiça e o direito. Pois deves saber tudo, tanto o coração inabalável da verdade bem redonda, como as opiniões dos mortais, em que não há certeza. Contudo, também isto aprenderás: como a diversidade das aparências deve revelar uma presença que merece ser recebida, penetrando tudo totalmente.
14. Penetrando a dimensão que contorna Dia e Noite, no carro solar, o jovem viajante adentra a dimensão do divino, símbolo da invisibilidade do Ser, conduzido pela voz da deusa que se essencializa como sendo a Verdade.
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Esta, ocultando-se também a si mesma, fala acerca de uma outra deusa: a Justiça, que outorga-se no subtrair-se.
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Penetrando na região divina, afastada espacialmente daquela onde se movem os mortais, o viajante fica a par do único âmbito que merece atenção: o da presença.
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Esta voz imperante da Verdade, da qual dependem os deuses, enquanto são, em seu surgir e ausentar-se, designa o Ser enquanto Physis, acenando ao respeito pela Justiça, enquanto destino que insere tudo na unidade do Cosmos.
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Retorna-se assim ao Mito, à palavra do silêncio primordial.
15. O mito é um dizer e dizer, por sua vez, é chamar e fazer brilhar.
16. A Justiça está vinculada à Moira (Destino), divindade lunar, mostrando que a Verdade divina e sagrada envolve-se em luz e sombra.
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A porta, com ferrolhos trancados e batentes de bronze, acena à Verdade circular (perfeita), que, remontando à solidez, denota a força e proteção nela contida, no tocante ao seu resguardo e mistério.
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Este âmbito é inacessível às opiniões mortais que, ficando apenas na dimensão do visível, não penetram na profundidade do Ser: não discernem entre o ontológico (o que é) e o ôntico (o que não é).
17. Moira, enquanto dispensar, outorga a cada ente o que lhe é próprio, aquilo que o mantém no reino do ontológico, vindo a ser o jogo de luz que se identifica, enquanto destino, ao próprio Mundo que, em sua abertura, concede o espaço próprio do fazer-aparecer (Physis).
18. Aquilo em que uma coisa advém é o que chamamos de “espaço”. Os gregos não possuem nenhuma palavra para dizer “espaço”. Isso não é um acaso. Fizeram a experiência do que é “espacial” não a partir da extensio mas do lugar (topos), como chora. Chora não significa nem lugar nem espaço e sim o que é tomado e ocupado pelo que está em si mesmo. O lugar pertence à própria coisa em si mesma. As diversas coisas, cada uma tem seu lugar próprio. Dentro desse “espaço” caracterizado pelo lugar se coloca o que devém e desse mesmo “espaço” local é retirado e extraído. Para isso ser possível, o “espaço” deve ser desprovido de qualquer aspecto que pudesse assumir de outra parte.
19. Parmênides, inserindo o Ser no âmbito do Nada, inaugura no pensar um processo que será seguido também por Heidegger.
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Em Que é Metafísica?, buscará o Ser rompendo com o conceito de princípio e causalidade, através do Nada que a experiência da Angústia Existencial des-cerra, mostrando também que a Ciência, restrita ao ente, fala do Nada (Ser) como aquilo que extrapola o seu domínio, mas que por ela é sempre, estranhamente, requerido.
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O Nada leva à Verdade do Ser, à autenticidade do questionamento filosófico que perpassa a Metafísica, estabelecida como o reino da ambigüidade entre Ser e entes.
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Isto implica voltar ao mistério do Ser, anterior a todo ente, enquanto pre-s-entificação.
20. O Nada da Angústia Existencial des-cortina ao Dasein sua inserção e seu estar-deslocado do âmbito dos entes, enquanto o Ser clama, continuamente, pela proximidade da essência desconhecida daquilo em meio ao qual nos movemos, das redomas que cercam aquilo que somos, impropriamente.
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Alocados no cotidiano e nele estabelecendo moradia, afastamos o caráter específico do poético, a esfera incomum do Ser, que convoca à co-presença, ao seu des-velamento.
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A esta manifestação primordial, não tiveram acesso somente os pré-socráticos, posto que, a cada momento, a realidade familiar irrompe em sua estranheza que fala a palavra do espanto, o dito indizível da Linguagem que capta, revelando os laços estreitos de uma pertença àquilo que é, em plenitude e profundidade.
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Tudo se dá ao nível de uma con-vocação, de uma in-vocação, da inspiração das Musas, de uma mostração do divino que requisita a atenção do Homem para que, através da união, um ente seja, simplesmente, aquilo que é.
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Nomeá-lo, transcendendo a mera significação dos termos gastos no senso comum: eis a missão pensante-poético-artística do Dasein no Mundo.
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Re-significar o real, criando constantemente o Ser que, enviando-se no aberto, convida à pertença doadora do sentido, do brilho da contemplação que deixa desabrochar, de um modo novo, a Physis.
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O Mundo re-nasce à luz do olhar que medita e acata a luz de uma clareira, celebrando o inesperado.
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A harmonia da regência cósmica se estabelece àqueles que, como o homem mítico e pré-socrático, se dedicam e encantam com a beleza das nuanças em que Ser e Dasein se medem, reciprocamente.
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O alvorecer acontece em raios que clareiam a instauração de um novo Dia, no qual o Dasein institui a presença do Ser: a possibilidade maior outorgada à compreensão de quem se dispõe a captar, a caminhar pelas veredas estreitas que visam à penetração do efêmero que se traduz em espontaneidade, leveza e força que arranca as certezas, a firmeza do solo, conduzindo à tarefa de investigação.
21. Aqueles que interrogam se deparam com o Nada que, longe de ser um véu, introduz no des-velado, no sem-fronteiras, na ponte que leva à trilha da circunscrição, da luta engendrada pelo Dasein para cuidar e cultivar o combate no qual se desdobra o real, ciclicamente.
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Manter o que se mantém como o Mesmo, ousar a diferença do que é idêntico, inserir-se na paciente espera do que subtrai a palavra, no árduo processo de acolher o essencial, esta tarefa é escolhida por poucos dentre os que correm, quase sem paradas, nas trilhas do dia-a-dia, passando avidamente de um objeto a outro, consumidos pelo consumismo das mensagens de uma sociedade tecnológica, que apelam a permanecer no periférico, à pre-ocupação prévia com o circunstancial.
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O simples se esvai das mãos que tentam aprisioná-lo, das mentes que se programam a discutir acerca do que é secundário, dos olhos narcisísticos dos sujeitos que permanecem voltados às armadilhas do próprio eu.
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Quando o permanente, sempre à espreita, se enraíza na pureza daqueles que querem des-cobrir e mostrar que a realidade está sempre à espera do Dasein, para, como no início do pensar, dar-lhe o abrigo sagrado e divino da ex-posição ao Ser não manipulável, a confiança nas palavras de A-létheia se renovam, quando do diálogo com os que permanecem despertos e vigilantes àquilo que se des-cerra.
22. Não querendo ouvir, distraindo-se ou dormindo, os homens esquecem-se do que, sendo Memória, re-convoca à lembrança o destino epocal do Ser: leme, portal da origem infinita do claro-escuro, jogo que não se fixa apenas nas regras de certeza lógica, nem no âmbito da opinião, por ser o mistério que surge e desaparece, inesgotavelmente, sem imprimir a contradição à unidade presença-ausência.
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Concluindo, cabe, portanto, a estabilidade instável da interrogação que revê textos, purificando a aprendizagem, o recolocar-se diante do que surge enquanto Belo, aos artífices da palavra gerada na temporalidade onde Vida e Morte operam, acessíveis ou não, as teias da existência, a cada momento, unicamente, nossa e irrepetível.
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O canto poético celebra o invisível destino das Moiras, que profetizam o hino da A-létheia, as leis que regem a ordem cósmica.
C. O Ser enquanto Lógos
1. Retomar e retornar ao êxtase ek-stático da ek-sistência, enquanto abertura primordial ao que se des-cerra, no aberto, significa: olhar o Ser.
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A surpresa é reivindicada no cerne em que se desdobra nosso ser-no-Mundo: a amplitude de estar em meio aos entes no duplo movimento imanência-transcendência, necessário e inseparável, posto que como o próprio Ser se desdobra como sinônimo de Mundo, nada há para além deste Mundo e desta mundaneidade na qual nos inserimos, inevitavelmente.
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A íntima co-relação de pertença no interior da qual Dasein e Ser precisam e dependem um do outro, para um desabrochar anterior a todo e qualquer nível de causalidade, corresponde à origem originária visada por Heidegger.
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Leve como o ar, para alçar vôo rumo ao horizonte ontológico, mas pousando sempre nos galhos da árvore ôntica, tendo a Terra como solo, é que se traça o acordo humano com o des-velado.
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Captando as tonalidades de um novo azul, é possível colorir e renovar o nível da mera constatação filosófica que, perdendo o Sagrado, confunde ente e Ser, uniformizando-os.
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A chama divino-sacral é o impulso rumo ao devir que, em sua mutação, requer guardiões que registrem aquilo que, no curso do real, é permanência: o Ser que se ex-põe como Apéiron, Logos e A-létheia.
2. O aparente, ao qual aquele que caminha nas veredas do Mundo é conduzido, nos aparece como possibilidade de um aprisionamento no âmbito dos sentidos, ou o apego pleno àquilo que se des-vela, sem valorizar suficientemente que o velado, do qual tudo é oriundo, o atrairá novamente para si.
3. Eon, o ente, é bem antes pensado na Dobra de ser e ente, conservando seu valor de participio, sem que o conceito gramatical intervenha espacialmente no saber concernente à língua. A Dobra pode pelo menos ser sugerida pelas curvaturas “ser do ente” e “ente no ser”.
4. Aqui se alude ao Ser uno, referido sempre ao seu duplo, ao ente.
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E, enquanto participio, o verbo unido ao adjetivo, nomeia o Ser em movimento, como em Homero: se o caráter duplo-uno do Ser não for continuamente abordado enquanto tarefa hermenêutica do pensar, podemos sucumbir aos extremos de uma Metafísica que, confundindo o Ser com o ente, o estabelece como “vontade”.
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Perde-se a dimensão relacional com o apelo ontológico, por intermédio do qual o Dasein criador tem acesso à habitação do Mundo.
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A A-létheia de Parmênides, conduzindo à dimensão própria do Ser enquanto Zwiefalt: dobra que se desdobra como ontológico e ôntico, fala da unidade que envolve a Quaternidade, do Simples ou Mesmo enquanto ponto de harmonia dos quatro elementos, juntura embasada na serenidade, convocando a uma nova habitação do Ser enquanto o primordial.
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Restaurar o esquecimento do Ser, superando a Metafísica, é um convite feito pelo dizer de Parmênides.
5. A serenidade que sabe é uma porta abrindo para o eterno. Seus batentes giram nos gonzos que um hábil ferreiro forjou um dia com os enigmas da existência.
6. Esta passagem evoca o poema de Parmênides, trazendo também à lembrança o ferreiro, aliado à magia do xamã, ao canto que se eleva ao Céu ou atemoriza, por estar diante do poder da Noite.
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Nele está contida também a busca parmenideana da passagem do Não-Ser ao Ser, da ausência à presença, em sua anterioridade em relação aos des-velamentos individuais posteriores, mostrando-nos a abertura primordial enquanto ato de transição e instituição do Ser enquanto Cosmos.
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Tentando captar o âmbito do que se des-cerra na oposição entre Ser e Não-Ser, o Dasein, habitante da Quaternidade, penetra nesta diferença quando, no ato de criar, visa à instauração do des-velado.
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Isto porque a obra de arte é um combate entre Terra e Mundo, ou então, o ir à gênese do desdobrar-se do duplo, da diferença ontológica.
7. O pensar, enquanto perceber, recebe seu ser do ser do ente. É presente o que persiste, o que desdobra seu ser na não-ocultação, aparecendo nela e ali permanecendo. A presença só se produz onde já reina a ausência.
8. O limite parmenideano entre Ser e Não-Ser é enfocado por Heidegger, como o combate, constitutivo da Linguagem, enquanto esta visa à nomeação do ente em seu Ser, presente também na obra de arte enquanto fulguração da Verdade do Ser, por intermédio do ente de que dispõe.
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O combate originário e criador, atraído pelo aberto do Ser, tem como finalidade revelar a diferença ontológica e a unidade da totalidade do Mundo: universo do sentido que habita homens e coisas.
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Na diferença ontológica, o ente surge como aquilo que é, o seu Ser, enquanto dá-se, identifica-se com o Nada: com o que priva e oculta, com o velamento inscrito no seio do des-velado, da A-létheia.
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Re-colocar o questionamento que se move em torno do Ser e do Não-Ser significa: pensar mais originariamente a questão do Ser, sem remetê-la apenas a uma descrição dos atributos concernentes ao ente.
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No dá-se é o espaço metafísico, como tal, que se torna abrangente, enquanto nele abre-se a vereda concernente ao pensar: nela se situam Poesia e Arte.
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O pensar, unido à Metáfora e às imagens artísticas, tornar-se-á, novamente, sinônimo de luta que se instaura no Ser e nele se mantém.
9. “Pois o mesmo é tanto pensar como ser”. A questão do sentido deste mesmo é a questão da essência da identidade. A essência da identidade é uma propriedade do acontecimento-apropriação.
10. O acontecimento-apropriação acena ao âmbito da identidade e diferença ontológica, enquanto o Ser é a invisível fonte de visibilidade dos entes.
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O pensar que interroga o Ser, transcendendo ao fundamento e ao sujeito, buscando legitimá-lo, encontra-se com a disponibilidade, no seio da qual Ser e Dasein eclodem unidos, necessariamente, um ao outro.
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É neste vínculo de toda e qualquer manifestabilidade que ambos encontram sua medida inultrapassável para ser e permanecer o que são.
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No seio desta reciprocidade rítmica e musicalmente erigida é que cada ente conquista o que originariamente lhe foi outorgado pela Moira: sua parte ou propriedade essencial.
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Nela liberam-se Ser, ente e Dasein, para terem um acesso àquilo que propriamente os qualifica e que foi perdido pela posterior racionalização do real.
11. A diferença entre ser e ente é, enquanto diferença entre sobrevento e advento, a de-cisão desocultante-ocultante de ambos.
12. A Metafísica consiste na busca de fundamentações, de causas hierarquicamente edificadas, culminando na representação Lógica ou em Deus.
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O Ser (enquanto diferente) torna-se uma palavra vazia, indefinida nas definições que afastam de seu sentido primordial.
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Cumpre que, refletindo acerca do impensado no dizer dos pré-socráticos, estejamos disponíveis à abertura da diferença na qual des-velamento e velamento, pre-s-entificar no pre-sente e nele ocultar-se, constituem o jogo originário que engendra o ciclo rítmico do real enquanto Physis.
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Identidade e diferença surgem, tautologicamente, na identidade entre Ser e pensar, e na diferença entre Ser e ente.
13. O pre-sentar-se, a A-létheia, é o des-velamento a partir do des-cerrar-se da diferença: o mistério do que se mostra e se oculta, a unidade que jaz no combate instaurador da origem, possibilidade mesma para que se elaborem novas passagens do Não-Ser ao Ser, visadas no não-esquecimento, na lembrança que subjaz em todo ato criador, que transforma, como na gênese, Caos em Cosmos, em atos outorgadores de presença oriunda do Ser.
14. Todavia, não diz aquele pensador que pela primeira vez pensou o ser, não diz Parmênides (frg. 6) “é, a saber, ser”, “presenta-se, a saber, presentar-se”? Se considerarmos aqui que, no einai, presentar-se, fala propriamente alétheia, o desvelar-se, então o presentar-se, que no esti se diz enfaticamente do einai, significa: o presentificar. Ser, propriamente: o que dá presença.
15. A dádiva pre-s-entificadora do Ser é criação.
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Criar é um ato de disponibilidade, de entrega à simplicidade do que se des-cortina.
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É penetrar no embate genético do ente que, velado, aspira ao des-velamento-velador, na luta íntima que o criador cultivou em si de espera, preparo e maturidade para acolher o momento propício do encontro significativo.
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É nesta penetração de Dasein e Ser, imbricados mutuamente, que do aberto eclode a obra aberta pelo destinar-se do Ser à historicidade humana.
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A temporalidade se des-cerra em permanência.
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O equilíbrio surge da luta, conquista o espaço da transcendência.
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Criar significa gerar: a gestação que culmina no dar-à-luz aquilo que vem-à-luz, na preparação do artista para eclodir com o des-velado, e nascer junto com aquilo que fulgura.
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Sintonizar com seu brilho, ser cor com as cores, alçar vôo rumo ao que desponta no ar: eis a tarefa do criador.
16. Como em Heráclito, o Ser impera como recolhimento, podemos dizer que, analogamente, na espera parmenideana, todo ato fundamentalmente criador é enquanto cultiva, colhe e põe-em-abrigo.
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O combate precursor da origem é o âmbito que concede hospitalidade ao escuro que se clareia pelo raio do clarão da Aurora, em meio ao que pousa no sombrio, auréola do círculo luminoso no qual o Cosmos ronda, rodeando o Caos.
17. Heidegger, como Parmênides, recorre à tautologia, que denomina como: “a medida do pensamento”.
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É o circular no círculo ou esfera originária, dizer o Ser enquanto o Mesmo que rege a identidade musicalmente erigida, governando como Fogo e Sol (Heráclito) as leis do Mundo.
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O tautológico parmenideano, recuperado por Heidegger, consiste no esforço de unificar o pensar e o dizer ao Ser.
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Nisto não reside um erro lógico ou esvaziamento, mas a força que rompe os intervalos do Tempo, re-conduzindo ao plano de origem de uma trajetória que se instaurou com e pela fulguração do Ser.
18. Pensar o Ser sem o ente significa situá-lo como a origem originária, sinônimo da Physis, do Cosmos que eclode do seio do Não-Ser, do Caos.
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O vir-a-ser do Ser requisita os entes que o reivindicam.
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O Tempo, por sua vez, institui-se concomitantemente à Physis.
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A ele também concernem os entes, as coisas que, oriundas da união úmida entre Terra e Água, tiveram um início e terão um fim.
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Ser e Tempo se imbricam enquanto fazem parte do devir, e o transcendem como tais.
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Só cessarão quando a Physis retornar ao Caos primordial.
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Nesta conclusão, vale retomar que a Natureza, enquanto o que foi, é e será, designa o Ser oriundo do Caos, que não perece como os entes individuais, por ser a unidade unificadora da totalidade: Um é Tudo.
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O Tempo surge como o Ser e é seu sinônimo.
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Depende e é autônomo das coisas transitórias, posto que o reino do devir, do ôntico, requisita a ambos para se essencializar e pertencer à temporalidade.
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Tempo e Ser são o destino do qual nada que é escapa.
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Tempo e Ser: a mesma raiz da qual surgem dois troncos, cujos galhos imbricados florescem numa única copa, o presentificar da A-létheia.
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O Dasein, por sua vez, postado na abertura do Ser, é clareira e cerrar-se, encobrimento que o afasta do ontológico na trilha em que se encaminha à procura da pronúncia, muitas vezes sem perceber que seu destino repousa no silêncio da escuta.
19. Celebrar, sim! Eleito a celebrar surgiu como o minério do silêncio da pedra.
