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Morte do homem?

Nicola Abbagnano. Per o contro l’uomo. Milano: Rizzoli Editore, 1968

1. Um dia, talvez em breve, o homem será destruído, não pela bomba atômica, por algum vírus misterioso, pela poluição da água ou do ar, nem por habitantes de outro planeta incomodados pelos astronautas, mas pela linguagem.

2. Esse oráculo desconcertante é anunciado pelo mais recente, mas não último, dos profetas que surgem de tempos em tempos na filosofia, o francês Michel Foucault, em As palavras e as coisas, arqueologia das ciências humanas, publicado em 1966 e traduzido em 1967 pela editora Rizzoli de Milão, cuja tese fundamental é que o homem é uma invenção recente, invenção e não descoberta, tornada possível no início do século XIX pelo declínio do conceito de linguagem sobre o qual se apoiava o pensamento clássico.

3. Segundo esse conceito clássico, a linguagem é apenas representação das coisas, que têm uma ordem fixa, necessária e imutável, refletida no pensamento do homem, que por isso é apenas representação dessa ordem expressa pelo discurso, de modo que o discurso, e portanto o pensamento, é transparência, evidência, manifestação ou representação da ordem das coisas, e o homem, sem espessura nem opacidade, apenas deixa transparecer as coisas como são, representando-as.

4. Nessa ordem total, o homem ocupa um lugar e tem uma função definida, caracterizando-se, por exemplo, como bípede implume ou animal racional, mas sem função predominante, não sendo o objeto mais difícil de conhecer, como hoje se crê, nem o sujeito soberano de todo conhecimento possível, como creem os filósofos, mas simplesmente discurso, quadro exato das coisas, coleção de verdades, descrição da natureza, corpo de conhecimentos, dicionário enciclopédico, e, segundo Foucault, nessa condição não era possível que surgisse no limite do mundo a estranha figura de um ser cuja natureza, que o determina e atravessa desde o fundo dos tempos, seria conhecer a natureza e a si mesmo como ser natural.

5. O homem enquanto tal foi inventado quando deixou de ser tido por transparente à realidade das coisas, quadro ou espelho delas, e passou a ser considerado opaco, resistente, impenetrável, isto é, finito, limitado em suas capacidades, finitude sobre a qual se implantou todo o universo do saber, sendo o homem o indivíduo que vive, fala e trabalha segundo as leis da biologia, da filologia e da economia, nas quais encontra os limites e as possibilidades positivas de sua ação, mas capaz ao mesmo tempo de conhecer essas leis, trazê-las à luz e construir as ciências humanas, desconhecidas do pensamento clássico.

6. As ciências humanas nasceram, portanto, sobre o fundo da finitude do homem, quando ele se reconheceu aprisionado, sem libertação possível, em seu corpo, sua linguagem e suas necessidades, e desse reconhecimento nasceram suas conquistas positivas, mas também o enigma insolúvel do homem, que não se identifica com a vida, que lhe escapa continuamente e lhe prescreve a morte, nem com o trabalho, que lhe escapa não só quando acabado, mas muitas vezes antes de começar, nem com a linguagem, que encontra já dada e articulada em suas leis antes dele, sendo o impensado, ou antes o impensável, maduro para desaparecer mal nasce.

7. Nietzsche dissera que o homem é uma corda estendida entre os animais e o super-homem, uma corda sobre o abismo, e a ideia de que o homem não tem uma natureza determinada a descobrir, que uma vez descoberta o esclareceria sobre tudo o que pode ser e fazer, domina a cultura contemporânea e a encaminha às mais diversas formas de investigação, sendo a obra de Foucault uma reapresentação eloquente dessa tese e, além disso, o anúncio profético de uma nova época em que o homem não existirá e existirá em seu lugar algo de que nada se sabe.

8. Como todo profeta, Foucault usa uma linguagem sugestiva e obscura e serve-se mais de alusões que de conceitos, sem a bela clareza cartesiana, que na realidade remonta a Montaigne, privilégio por tanto tempo da filosofia francesa, extrai suas provas históricas de preferência de literatos, cientistas, economistas e poetas, e declara que só os que não sabem ler se espantarão por ter aprendido a colocar as questões decisivas mais com Cuvier, Bopp e Ricardo que com Kant ou Hegel, mas a fonte principal de seu pensamento é o último Heidegger, que ele sequer cita, o que se vê no sinal que aponta como indiscutível do fim próximo do homem.

9. Esse sinal é a concepção da linguagem como manifestação do ser, para a qual a linguagem não é o instrumento criado pelo homem para orientar-se entre as coisas, dominá-las e servir-se delas, comunicar-se com os outros e exprimir-se, mas criação do Ser, sem que Heidegger ou Foucault digam se o Ser é Deus, o Mundo ou algo intermediário, um Absoluto, uma Natureza infinita, e, à pergunta sobre quem fala, ambos respondem que é a Palavra que fala, a linguagem que põe ou cria seu ser, o que, em palavras simples, significa que um não-sei-quê cria outro não-sei-quê, igual ou diverso, de algum modo que é também um não-sei-quê, sem que esses profetas se comprometam muito.

10. Comprometem-se, porém, ao propor um dilema cru, segundo o qual ou existe o homem ou existe a linguagem, pois, se existe o homem, é ele que dispõe de si, forja ou modifica em alguma medida seu destino e constrói sua história, fazendo penosamente suas escolhas e assumindo a responsabilidade de seus erros, e, se existe a linguagem, é o ser da linguagem que faz tudo e o homem nada faz, porque não existe.

11. Entre os dois termos do dilema, Foucault, como Heidegger, não hesita, afirmando que a linguagem está matando o homem por estar retornando à sua unidade, retirando-se da fragmentação a que a invenção do homem a reduzira, pois o homem compôs sua figura nos interstícios de uma linguagem fragmentada e, reaparecida a linguagem, retornará à inexistência serena em que a unidade imperiosa do discurso outrora o mantinha.

12. Enquanto isso, essa figura provisória, aparência grotesca que ainda combate sem saber que está morta, não fará rigorosamente nada, deixando, como diz Heidegger, que o Ser seja, abandonando-se às coisas e aos acontecimentos com tranquila resignação, à espera, ou, em palavras simples, deixando acontecer o que deve acontecer, que sera sera.

13. Foucault pergunta se não se deve pressagiar o nascimento ou a primeira aurora de um dia em que o pensamento, que fala há milênios sem saber o que significa falar e sem perceber que fala, se recuperará em sua integridade e ganhará nova luz no fulgor do ser, mas declara não saber responder nem saber se um dia terá razões para responder, achando por ora reconfortante pensar que o homem é apenas uma invenção recente, uma figura que não tem nem dois séculos, simples dobra de nosso saber, que desaparecerá quando esse saber encontrar nova forma.

14. Outros talvez achem mais reconfortante pensar que o homem, apesar de todas as mudanças de um saber que continua seu, isto é, humano, poderá sobreviver justamente em virtude desse saber, em sua liberdade e dignidade, em sua solidariedade com os outros homens e em sua capacidade de compreender e amar.

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