EGOIDADE
(EPOKHE1990)
Abordamos a explicação da estrutura do Eu do ser humano — e isso, na verdade, em relação à questão central da essência da ipseidade (Selbstheit). Mais uma vez, a ipseidade é um problema, na medida em que representa um momento fundamental na tensão do arco (Bogenspannung) do existir humano; é, em nós, o momento que se opõe à natureza pânica. No âmbito da metafísica moderna, a ipseidade assume a forma do aspecto fundador do “eu”; o Ser é interpretado como “ser-consciente”. A metafísica da consciência não apenas apresenta múltiplas formas em diferentes níveis — desde a simples descrição de fenômenos psíquicos até as teses especulativas do idealismo alemão —, como também se realiza em diferentes graus de reflexão, dos quais decorrem diversas interpretações da egoidade. O Eu será considerado ora como o próprio “absoluto”, ora como um ser finito em cada instância (Jeweiligkeit); ele é oposto ao “nós” ou compreendido como momento de uma intersubjetividade originária. Para tentar escapar à questão de saber se o “eu” ou o “nós” deve prevalecer, recorremos à linguagem. Mesmo a reflexão mais solitária já se insere no elemento de compreensão que é a linguagem; é um discurso dirigido a si mesmo na expressão do Eu (Ich-Sagen); o monólogo é, desde sempre, um diálogo de uma alma consigo mesma. No arqui-fenômeno (Urphänomen) da linguagem, desde que não o distorçamos por meio de uma interpretação instrumental que nele visse apenas um “meio de expressão” humano, revela-se uma dimensão originária que precede todas as distinções e divisões entre “sujeito” e “objeto”; a metafísica da consciência encontra-se desde sempre sob o domínio da linguagem; é nela que ela opera suas distinções conceituais; ela permanece no espaço da linguagem quando institui o “Eu”, o sujeito, como princípio, como “começo” de seu filosofar. A visão segundo a qual a linguagem constitui o pressuposto operacional fundamental, mesmo da filosofia da subjetividade mais consumada — a saber, que a linguagem é ainda anterior a todos os “começos” postulados —, essa visão, Hegel a alcançou ao passar da “Fenomenologia do Espírito” para a “Ciência da Lógica”. Sua “lógica” não é um instrumento do homem; é a totalidade do pensamento do ser que reina sobre o mundo; é a luz do ser, na clareza da qual o homem habita, ou, nas palavras de Hegel: “A lógica deve, portanto, ser entendida como o sistema da razão pura, o reino do pensamento puro. Esse reino é a verdade, tal como ela é em si mesma e para si mesma, sem máscara. É por isso que se pode dizer que esse conteúdo é a representação de Deus, tal como ele é em sua essência eterna antes da criação da natureza e de um espírito finito”. Enquanto se acreditar que essas palavras expressam apenas pura arrogância, como uma semelhança quimérica e indesejável entre o homem e Deus, não se compreenderá a intenção íntima da obra. O Deus do mundo é o Logos; ele subjuga a Natureza, marcando-a e organizando-a — e se dedicou a ser a linguagem do espírito humano finito. Se tentarmos compreender a finitude desse espírito finito, sua individuação e sua ipseidade como egoidade, a interpretação do princípio do Eu não apenas se realiza na linguagem, mas vai muito além: o conhecimento que o Eu tem de si mesmo é, por essência, linguístico; é um dizer do eu. A dizibilidade (Säglichkeit) é um momento constitutivo da egoidade. Aliás, esse ponto é frequentemente ignorado.
