User Tools

Site Tools


estudos:xolocotzi:2011:3

3 Ereignis

XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fundamento y abismo: Aproximaciones a la fenomenología hermenéutica de Martin Heidegger. México: Editorial Porrúa / BUAP, 2011.

Fundamento, essência e Ereignis. A propósito da interpretação gadameriana da “viragem” (Kehre)

1. Filosofar significa existir a partir do fundamento, vinculando a interrogação filosófica à maneira pela qual a própria existência se realiza desde aquilo que a possibilita.

Introdução

1. A compreensão do percurso heideggeriano divide-se entre interpretações evolucionistas, que identificam um desenvolvimento ascendente ou descendente, e interpretações pluralistas, que distinguem etapas e fases, embora ambas reconheçam geralmente três momentos — as primeiras preleções, a ontologia fundamental de Ser e tempo e o pensamento histórico do ser como Ereignis —, cuja relação é frequentemente avaliada pela primazia de um período e pelo suposto fracasso dos demais, como ocorre quando Gadamer considera Ser e tempo uma recaída na filosofia transcendental husserliana e interpreta a viragem como retorno às intenções originárias das primeiras preleções.

2. A identificação da viragem com um simples retorno atribui uma primazia indiscutível às primeiras preleções e transforma o pensamento histórico do ser em recuperação de um caminho correto iniciado em 1919 e desviado em 1927, tornando necessário interrogar se essa interpretação acompanha efetivamente as transformações do pensamento heideggeriano ou se permanece afastada do núcleo de sua problemática.

3. A leitura de Ser e tempo enfrenta uma dificuldade decorrente de sua própria elaboração, pois determinados temas anteriormente desenvolvidos nas preleções são pressupostos sem nova exposição aprofundada, enquanto outros aparecem apenas anunciados por estarem destinados a uma investigação posterior, exigindo que a compreensão da obra considere tanto seus antecedentes quanto seus desdobramentos previstos.

4. As indicações formais (formale Anzeige) exemplificam os procedimentos anteriormente elaborados que permanecem operantes sem receber desenvolvimento explícito na obra publicada, enquanto a diferença ontológica e a transcendência exemplificam questões apenas antecipadas cuja exposição sistemática estava reservada à terceira seção, intitulada Tempo e ser.

5. O esclarecimento da relação entre ontologia fundamental e pensamento histórico do ser exige reconhecer que as primeiras preleções também pertencem ao desenvolvimento ontológico-fundamental da questão, permitindo investigar a unidade do percurso heideggeriano sem reduzir suas modificações a rupturas que eliminariam integralmente o trabalho anterior.

Diferença ontológica e horizonte transcendental

1. Ser e tempo pode ser compreendido em três sentidos articulados: em sentido estrito, designa as duas seções publicadas em 1927, dedicadas à análise preparatória do Dasein e à sua temporalidade; em sentido amplo, abrange a totalidade do projeto anunciado no § 8; e, em sentido mais amplo, nomeia a copertença transcendental-horizontal entre ser e Dasein que orienta a investigação ontológico-fundamental.

2. A tematização explícita da diferença ontológica e do horizonte transcendental pertence ao projeto amplo de Ser e tempo, ultrapassando as seções efetivamente publicadas, e encontra desenvolvimento na preleção de 1927, Os problemas fundamentais da fenomenologia, e no ensaio de 1929, Da essência do fundamento.

3. A diferença ontológica já se encontra anunciada na parte publicada de Ser e tempo, mas sua exposição estava destinada à terceira seção, cuja primeira versão foi destruída por Heidegger, de maneira que a preleção do verão de 1927 deve ser compreendida como uma nova elaboração do caminho anteriormente interrompido.

4. A insuficiência da primeira versão de Tempo e ser, somada às circunstâncias editoriais que impediram sua publicação, levou ao abandono daquela redação e à busca de uma nova via, desenvolvida por caminhos mais históricos na preleção do verão de 1927, evidenciando que a interrupção editorial corresponde a uma reelaboração efetiva da investigação.

5. A compreensão horizontal da diferença ontológica distingue a abertura do ser, realizada na compreensão de ser, do descobrimento dos entes, realizado no comportamento ocupado com eles, de modo que a experiência do mundo circundante pressupõe essa diferenciação, embora as primeiras preleções e as seções publicadas de Ser e tempo privilegiem o Dasein como ser-no-mundo e reservem à terceira seção a tematização expressa do ser dos entes cujo modo de ser não é a existência.

6. A diferença ontológica não surge como um tema inteiramente novo acrescentado à investigação heideggeriana, pois a possibilidade de diferenciar ser e ente já sustenta os primeiros estudos da experiência do mundo circundante, mesmo quando permanece implícita e ainda não recebe uma formulação temática própria.

7. A explicitação da diferença ontológica conduz à pergunta pelo fundamento da possibilidade de diferenciar, que deve ser compreendida a partir do poder-ser existente, fazendo com que a investigação se dirija ao fundamento da essência do Dasein como raiz da possibilidade da própria vida fáctica compreendedora de ser.

8. A raiz que possibilita o Dasein não deve ser procurada simplesmente em sua essência, mas no fundamento dessa essência, tornando necessário distinguir a existência, nomeada em Ser e tempo como essência do Dasein, da transcendência, caracterizada em Da essência do fundamento como aquilo que fundamenta sua possibilidade.

9. A essência do Dasein encontra-se na existência como ter-de-ser (zu-sein), cuja estrutura reúne projeto (Entwurf) e condição de lançado, pois esse ente se relaciona constitutivamente com seu próprio ser sem ter instituído por si mesmo tal relação, encontrando-se entregue à necessidade de realizá-la em seus comportamentos, de maneira que o projeto é inseparável do estar já lançado na relação de ser que lhe cabe assumir.

10. A existência compreendedora abre simultaneamente o próprio modo de ser do Dasein e o ser dos entes com os quais ele se ocupa, constituindo uma abertura dupla — extática, referida à existência, e horizontal, referida aos entes não existentes —, cuja unidade se expressa no termo Dasein, em que o “Da” indica a abertura integral do ser e o “sein” nomeia o existir que tem de sustentar essa abertura e nela se manter diante do ser enquanto tal.

11. O comportamento cotidiano realiza a diferença entre a abertura do ser e o descobrimento dos entes, e a investigação do fundamento que possibilita esse diferenciar conduz à transcendência, compreendida como ultrapassagem e situada no fundamento da essência do Dasein.

12. O Dasein, enquanto existe compreendendo ser, já ultrapassa os entes em direção à abertura do ser e retorna dessa abertura lançada e projetada ao descobrimento pré-predicativo dos entes, de maneira que somente a realização integral desse movimento transcendental permite encontrá-los e descobri-los como entes.

13. O descobrimento do ente na ocupação exige tanto a abertura horizontal de seu ser quanto o movimento transcendental da existência, e a articulação entre horizonte e transcendência constitui a primeira interpretação ontológico-fundamental do fundamento da essência do Dasein, designada como horizonte transcendental.

14. O horizonte transcendental expressa a copertença entre Dasein e ser mediante duas direções inseparáveis, pois o horizonte manifesta a relação da verdade do ser com a existência, enquanto a transcendência manifesta o comportamento essencial da existência em relação à verdade do ser.

15. A investigação ontológico-fundamental exige distinguir a essência do Dasein de seu fundamento, reconhecendo que a primeira questão se desenvolve desde as primeiras preleções até a analítica existencial das seções publicadas de Ser e tempo, enquanto a segunda pertence expressamente ao projeto de Tempo e ser e recebe no horizonte transcendental sua interpretação da copertença entre Dasein e ser.

A passagem da ontologia fundamental ao pensamento do Ereignis

1. A distinção entre a essência do Dasein e o fundamento dessa essência oferece um fio condutor para compreender a segunda elaboração heideggeriana da pergunta pelo ser, esclarecendo a passagem da ontologia fundamental ao pensamento histórico do ser como Ereignis sem reduzir a transformação a uma mudança indiferenciada de orientação.

2. As interpretações que organizam o percurso heideggeriano por fases ou mudanças temáticas podem chegar à suposição de que o pensamento histórico do ser anula integralmente a ontologia fundamental, convertendo os dois caminhos em propostas isoladas e fazendo da segunda investigação uma exigência de abandono completo da primeira.

3. Uma interpretação atenta às relações internas e ao desenvolvimento do percurso mostra que Heidegger abandona especificamente a compreensão horizontal-transcendental do fundamento da essência do Dasein, preservando os resultados da investigação de sua essência, de modo que a transformação incide sobre o horizonte transcendental e não sobre a totalidade das estruturas descobertas pela ontologia fundamental.

4. O abandono da transcendência e do horizonte é explicitamente indicado quando o Da-sein passa a ser compreendido como sustentação originária da abertura do encobrimento, tornando inadequada a representação de uma ultrapassagem que constituiria essa abertura e exigindo uma recondução à origem a partir da qual o próprio estar-presente deve ser pensado.

5. As estruturas essenciais do Dasein permanecem no pensamento histórico do ser, mas recebem uma interpretação mais originária mediante a descoberta de seu fundamento acontecimental, pois a verdade do ser passa a ser experimentada historicamente como um lançamento apropriador ao qual corresponde um Dasein lançado e apropriado, cujo estar-lançado provém desse lançamento da verdade do ser e se mantém em sua abertura.

6. A designação viragem (Kehre) possui diferentes sentidos no pensamento heideggeriano, o que torna ambígua a divisão genérica entre um Heidegger anterior e outro posterior à viragem, sendo necessário delimitar aqui seu significado à passagem da ontologia fundamental ao pensamento histórico do ser.

7. A viragem consiste no abandono do horizonte transcendental como interpretação ontológico-fundamental do fundamento e na assunção do fundamento acontecimental, de maneira que não comprova o fracasso da ontologia fundamental nem representa um simples retorno às primeiras preleções, pois ambas as leituras desconsideram as diferenças efetivas entre as questões e os acentos desenvolvidos ao longo do percurso.

8. As primeiras preleções e as seções publicadas de Ser e tempo tematizam principalmente a essência da vida fáctica, enquanto a elaboração explícita de seu fundamento pertence ao projeto da terceira seção, cuja interpretação transcendental-horizontal é posteriormente abandonada; as estruturas essenciais da existência, entretanto, permanecem e são reinterpretadas a partir da origem de seu estar-lançado no lançamento acontecimental, impossibilitando compreender a viragem como retorno ao que nunca foi abandonado e tornando visível a unidade da fenomenologia hermenêutica ao longo do pensar heideggeriano.

estudos/xolocotzi/2011/3.txt · Last modified: by 127.0.0.1