4.2 Intratemporalidade
WHITE, Carol J. Time and Death: Heidegger's Analysis of Being-upon-the-End. Edited by Mark Ralkowski; foreword by Hubert L. Dreyfus. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2005.
4.2 Temporalidade e Intratemporalidade
1. Pelo modo como o ser-aí ocupa o tempo e deixa que o tempo o ocupe, ele pode ser chamado “temporal” num sentido bem diferente do da temporalidade extática, como Heidegger admite apesar de insistir no uso técnico do termo.
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“Todavia, o ser-aí deve ser chamado 'temporal' também no sentido de ser 'no tempo'. Mesmo sem uma historiografia (Historie) desenvolvida, o ser-aí fático precisa e se serve de calendário e relógio. O que quer que lhe aconteça, ele o experimenta como 'no tempo'.”
2. Para evitar confusão com o termo técnico, esse ser “no tempo” é chamado intratemporalidade (Innerzeitigkeit), característica também das coisas simplesmente dadas e à mão (zuhanden) dentro do mundo, as coisas intramundanas (innerweltlich) que vêm a ser, ocupam um intervalo de tempo e deixam de ser, mas também o ser-aí se encontra “no tempo” desse modo, cabendo perguntar como, com o ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) fundamental como atividade envolvida, e não apenas como presença intramundana, nos vemos com tempo nas mãos.
3. Heidegger parte do fenômeno da existência cotidiana como elaboração de projetos e uso de instrumentos (Zeug), e não da consciência do tempo como Husserl, estabelecendo a conexão entre temporalidade imprópria e tempo.
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“A ocupação circunvisiva (umsichtiges Besorgen) do senso comum funda-se na temporalidade, precisamente no modo de um presentificar que aguarda e retém. Essa ocupação, enquanto calcula, planeja, previne ou toma precauções, sempre diz, em voz alta ou não, que algo deve acontecer 'então', que outra coisa deve ser cuidada 'antes', que o que falhou ou nos escapou 'naquela ocasião' deve 'agora' ser retomado.”
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“No 'então', a ocupação se exprime como aguardar; no 'naquela ocasião', como reter; no 'agora', como presentificar.”
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Os três êxtases (Ekstasen) da temporalidade imprópria, o aguardar (Gewärtigen), o reter (Behalten) ou esquecer (Vergessen) e o presentificar (Gegenwärtigen), correlacionam-se com o “então”, o “naquela ocasião” e o “agora”.
4. O que o ser-aí “aguarda” na dimensão futura da temporalidade extática é aquilo com que poderá lidar num “então” vindouro, o que “retém” é aquilo com que pôde lidar numa “ocasião anterior” e o que presentifica é aquilo com que lida “agora”.
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O ser-aí cotidiano não encontra o tempo como sucessão de instantes nus, pois o tempo cotidiano está sempre ocupado pelas coisas de que se ocupa.
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Dos projetos surgem os traços essenciais do “tempo do mundo” (Weltzeit) encontrado como ser-no-mundo.
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A experiência de coisas que acontecem ao ser-aí “no tempo” envolve três características fundamentais: databilidade (Datierbarkeit), significância (Bedeutsamkeit) e extensão (Gespanntheit).
5. Databilidade e significância parecem aspectos estreitamente ligados do mesmo traço básico do tempo do mundo, pois todo “então” é um “então, quando” tal coisa acontecerá, todo “naquela ocasião” é um “naquela ocasião, em que” tal coisa aconteceu e todo “agora” é um “agora que” tal coisa acontece, recebendo os momentos significado em relação à atividade envolvida, e essa estrutura relacional que prende os momentos do tempo aos acontecimentos do mundo chama-se databilidade, que não consiste em prender acontecimentos a momentos do tempo, mas justamente o contrário.
6. Os momentos do tempo não apenas se prendem a acontecimentos, mas ganham significado e remetem para além de si mesmos pela trama de projetos a que estão ligados, de modo que “dez horas” é “minha aula às dez”, “depois de ler minha correspondência”, e assim por diante.
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Essa estrutura relacional é um aspecto da estrutura de significância do mundo, que dispõe todos os projetos em termos de tempo, e até o projeto mais simples se dispõe como série de ações sucessivas.
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Para atravessar a piscina a nado, primeiro se caminha até a borda, agora se mergulha e então se começa a dar braçadas.
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Tais projetos particulares surgem no contexto de outros, como aprender a nadar ou montar um plano para entrar em forma, e a significância estabelece o modo como os projetos se interligam “no tempo”.
7. O caráter estendido do tempo do mundo, em que os momentos fluem um após o outro sem lacunas, e o caráter extensivo do ser cotidiano do ser-aí surgem ambos da interconexão significativa das atividades do ser-aí.
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Se, no aguardar, compreendemo-nos no “então” e em termos de sua presentificação, isto é, da realização dos projetos, o “e-agora-ainda-não” já está implicado quando se atribui o “então”.
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O “agora ainda não” situa-se entre o “agora” atual e o “então” visado, sendo o “até então” cuja significância e databilidade são dadas pelos passos necessários para alcançar a meta, como a travessia a nado que se interpõe entre o “agora” na borda e a chegada ao outro lado.
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Esse “até então” tem seus episódios anteriores e posteriores na sequência de mergulhar e dar braçadas, e a série inteira é “abrangida” como um “durante” quando se projeta aguardando o “então”, de modo que, ao abraçar as atividades projetadas, abraça-se a extensão do tempo do mundo.
8. A maioria das explicações da temporalidade extática concentra-se no modo como o ser-aí pode “estender-se” unitariamente sobre um trecho de tempo, mas, no tratamento heideggeriano, esse fenômeno tem outro estatuto.
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É um fenômeno derivado, e não o âmago da temporalidade extática.
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É um fenômeno da temporalidade imprópria, na medida em que manifesta a intratemporalidade.
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É um fenômeno unificado pela significância articulada no mundo e pela habilidade de lidar com as coisas, e não pela consciência.
